14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Vida de imigrante

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As tragédias da vida, apenas e transvestem de tempos em tempos, mas as consequências são sempre difíceis. Hoje tantas pessoas vivem uma nova espécie de exílio, que é o não poder voltar para casa por causa do invisível. Perdemos o direito de ir e vir, o prazer de abraçar também se foi. Tantos sonhos desfeitos, ou adiados.  Mas vamos falar um pouco de como é ser imigrante em tempos de pandemia. Ser imigrante nunca foi fácil,  e as dificuldades se multiplicam nesses tempos inóspitos.  Viver, trafegar, existir, tudo isso, que é básico, passa a ser quase inalcançável.

Em tempos normais, imigrar é abrir mão de sua origem, muitas vezes de seu idioma, de sua família, de sua profissão, sim, porque imigrante não tem profissão, ele faz qualquer trabalho, já que nossos diplomas e  experiências nada valem.

Mas se ver na condição de imigrante sem planejamento, é bem mais complicado. Tenho tentado fazer desse exílio, uma vivencia relevante.

Estou em trânsito, vim aqui só para uma breve visita, mas o invisível me tirou a liberdade de seguir o meu caminho, então, tive que vestir a roupa de imigrante, na íntegra, com todas as flores e dores. A realidade é dolorida, existe a exploração do homem pelo homem de forma exacerbada, e o que é de pasmar, é que os maiores exploradores são outros imigrantes. A humanidade é egoísta, e parece querer se vingar do que já passou, se abstendo de qualquer empatia. Passei momentos difíceis, e vejo muitos outros imigrantes em situação bem pior. É de causar um desalento, uma verdadeira desesperança na  humanidade.

Mas nem tudo são dores, também tem os momentos de construir amizades, ainda que seja tudo muito restrito, pois os maravilhosos cafés estão fechados, mas ainda conseguimos fazer um brinde, pela vizinhança mesmo, porque o sorrir é valioso para nossa saúde mental.

A primavera chegou, e a explosão de cores transforma a ida ao mercado num passeio turístico, fazemos sélfies, entre caras e bocas, sem mascara para as fotos.  Assim passamos os dias, a espera do fim do assassino invisível que tem ceifado tantas vidas. Que em breve possamos seguir nossos caminhos, e que possamos aprender uma nova forma de viver, com menos apego material, e mais amor no toque das mãos.

 

Lisboa, 02 de maio de 2020

Malka Sarah

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