19/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Unidos o Fascismo não Passará

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Esta eleição serviu a um propósito. Ela despertou sentimentos os quais eu nunca tinha imaginado. Talvez por inocência, talvez por ingenuidade, talvez por nunca haver presenciado, sei lá. O fato é que eles estavam ali e eu simplesmente não os percebia.

Sim, tive de me desfazer de amigos de longa data, ou de congelar velhas amizades. Até de parentes eu me afastei, coisa maluca. Estou com 60 anos e convivi com eles toda uma vida. Alguns me viram nascer, alguns eu vi nascer, outros fui conhecendo ao longo dos anos. E não estou falando de pouca gente.

Chega a ser melancólico falar sobre isso, mas talvez o que mais tenha doído foram os que tentaram me convencer a voltar em um fascista, principalmente os judeus. Disseram-me que ele era o único amigo de Israel, como se isso fosse melhorar a vida de alguém. Que ele iria mudar a embaixada brasileira para Jerusalém, como se isso fosse trazer mais empregos. Que ele vai fechar a embaixada palestina em Brasília, como se isso fosse trazer mais segurança. Que sua primeira viagem internacional seria para Israel, como se isso fosse melhorar a saúde dos brasileiros.

Tudo isso para encobrir o mais terrível de tudo, a realidade de que eles todos compartilham o que o fascista prega aos quatro ventos. Eles concordam que suas esposas e filhas merecem serem tratadas com desrespeito. Eles não gostam de negros e muito menos de homossexuais, mesmo tendo filhos gays, e que gostariam de ter uma arma para matar bandidos impunemente. Que o Brasil deve ser um país cristão e que as minorias devem se adequar ou deixar o país. Eu convivi com eles todos estes anos!

Talvez os sinais estivessem lá e eu não os tenha visto, ou não desejava vê-los. Olhando para trás percebo as piadas preconceituosas que eram contadas, mas eu achava que eram apenas piadas, só isso. O quanto desprezavam a esquerda em geral e o PT em particular, mas eu achava que eram somente opiniões, e nem todo mundo precisava concordar politicamente. O quanto concordavam com o impeachment de uma presidente, mas eu achava que eles não estavam percebendo o golpe por trás de tudo.

Eu também sofri bullying e fiz bullyng numa época que ninguém ligava para isso. Também fui preconceituoso e tive de compreender o quanto estava errado e mudar. Nunca é tarde para isso. Infelizmente naquele tempo não se ensinava na escola a respeitar as diferenças.

Ao que parece nem todos do meu círculo aprenderam com a vida de que somos todos iguais, merecemos as mesmas oportunidades e temos os mesmos direitos e deveres numa sociedade civilizada.

Eu sou bastante aberto quando se trata de respeitar diferentes opiniões políticas. Posso aceitar quem não seja de esquerda, quem não seja sionista e tenha uma visão diferente da minha em relação ao que seja melhor para a humanidade. Acho mesmo que estas diferentes visões são o que nos fazem pensar e repensar as nossas próprias convicções e por isso a alternância do poder é importante.

Alguns pensam que o estado deve estar o menos presente possível na vida dos cidadãos, outros acham o contrário enquanto o país tiver uma grande diferença de classes. Pode-se pensar que menos intervenção estatal trará mais empregos e mais riqueza para ser distribuída, ou que a intervenção estatal é necessária exatamente para impedir a exploração dos menos favorecidos e melhorar a distribuição de renda. Tudo isso é válido para ser discutido.

Estas diferenças do que pode ser o melhor para o país estão distribuídas dentro do espectro ideológico que compõe os diversos partidos políticos na sociedade brasileira. Desta forma a opinião do Partido Novo se contrapõe ao do Partido da Causa Operária, e entre um e outro temos todos os demais, a exceção de um, o PSL de Bolsonaro.

Normalmente a expressão máxima de um partido é o seu projeto baseado na sua ideologia que pode ser de esquerda, de direita ou de centro, mas no Brasil se abriu a possibilidade da existência de siglas de aluguel. Partidos sem nenhuma ideologia, de ideias aleatórias que cedem espaço para estranhos disputarem eleições. É o Partido Genérico.

Assim temos hoje um fascista disputando uma eleição por um destes partidos, o Partido Social Liberal, ou o que for que isso signifique. Ele não só tomou conta da sigla, mas impôs a ela todos os predicados do fascismo conhecidos. E ele se apresenta justamente quando o país está fragilizado a ponto de aceitar suas propostas, que, diga-se de passagem, ele nunca escondeu de ninguém.

Não acho que exista muita gente a ser convencida do perigo que ele representa para mudar seu voto. Não vejo como convencer nenhum dos meus amigos e parentes de que eles estão por cometer o maior erro de suas vidas e que o mal que podem vir a causar se voltará contra eles. Se judeus podem votar no mesmo candidato que estão votando os neonazistas, é porque não se trata mais de argumentos, mas de falta de caráter. Só não sei quem pode estar mais errado, se os judeus ou os neonazistas.

A única coisa que me resta fazer é desejar a todos com quem permaneço ligado que votem com convicção em seu candidato para que tenhamos um segundo turno. E quando soubermos quem estará disputando contra o fascismo, não se omita, não vote em branco ou nulo, vote contra Bolsonaro porque nada pode ser pior.

Esta eleição não é entre Bolsonaro e o PT como dizem eles. Ela pode ser entre o PSL e o PT, ou entre Bolsonaro e Haddad, mas na realidade se trata de votar na barbárie ou na civilização, no obscurantismo ou na luz, no retrocesso ou no progresso, no desengano ou na esperança, na indiferença ou na solidariedade.

Enquanto eu tiver voz não me calarão. Por cada judeu e judia que perderam suas vidas combatendo o fascismo e por cada judeu e judia que perderam suas vidas combatendo a ditadura militar eu digo que o fascismo não passará!

 

 

 

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