16/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Uma força para o Aldir

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Às vezes ficamos um tempão sem nos encontrar com um amigo próximo, um poeta camarada, um músico que sempre esteve na raiz da nossa sensibilidade. Como se bastasse saber que eles existem, estarão sempre por perto, para cá do arco-íris.

Nas últimas semanas, parece que a Indesejada das Gentes resolveu sabotar o jogo gentil das presenças distantes. Levou de vez muitos passageiros desse barco tão espaçoso e que nunca cansei de ampliar. Pois se foram, de Tantinho da Mangueira a Manu Dubongo, de Ellis Marsalis a Lee Konitz, de Moraes Moreira a Rubinho Barsotti. Do Rubinho, baterista do Zimbo Trio original, lembro do programa O fino da bossa. O Zimbo acompanhava Elis Regina e Jair Rodrigues no palco da TV Record, biscoito fino que não se encontra mais, nem nas boas casas do ramo. Em 1968, lá estava Rubinho, junto com Luis Chaves e Amilton Godoi, tocando no show que reuniu, no teatro João Caetano, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro.

Insaciável, a Indesejada anda rondando Aldir Blanc, internado em estado grave para tratar de encrencas várias. Meu coração tijucano geme com ele. Aldir é cria da Grande Tijuca, se me permitem a gula imperialista de incorporar Estácio, Usina e Muda ao bairro da zona norte. Mãe generosa e opulenta, a dona Tijuca.

O Menino teve seu momento Usina. Cortado dos treinos de futebol de salão do clube Monte Sinai, foi convidado a jogar no time da fábrica Souza Cruz, na Usina. A quadra ficava no alto de uma ladeira sinuosa, cercada de mato pelos dois lados. Os treinos eram à noite, o caminho mal iluminado. Sem problema, a gente vivia tempos amenos, medo mesmo só do céu sem estrelas e das provas de álgebra. As coisas corriam bem, o Menino se adaptou à lateral esquerda e se podia considerá-lo titular. Um acidente ofídico cortou a carreira promissora. Correu à boca pequena que cobras tinham sido vistas atravessando a ladeira. Boato ou não, nunca mais apareceu por lá. Cobra, só aceitava o Dida. Eu, hem, Rosa !

Aldir é mais conhecido pelas letras primorosas das músicas com vários parceiros. É, no entanto, um senhor cronista. Quando soube disso, devorei todos os seus livros, impregnados pelo bairrismo que alegremente compartilho. Morar na Tijuca ou adjacências sempre foi sua opção de vida. Mesmo o bairro que foi se degradando, como aliás boa parte da cidade. Os bares com serragem no chão, os bebuns folclóricos, as referências visuais e afetivas, a fábrica da Brahma, tudo engolido e transplantado para as memórias. Dormiram ruínas, acordaram literatura.

Mesmo à distância, torço para que ele se recupere logo. Não vejo melhor forma de agitar minha bandeira torcedora na arquibancada – rubro-negra, para horror do vascaíno Aldir – do que dividir com vocês uma crônica extraída do livro Direto do balcão. Trata-se de Cura no ventilador. Para quem não sabe, Aldir é formado em medicina, com especialização em psiquiatria. Mas doutor mesmo ele é com as palavras. Volte logo, ô cara.

CURA NO VENTILADOR

Há perguntas das quais você não consegue se libertar. Costumo dizer que ninguém faz medicina impunemente. Problema meu. Agora, responder, nos últimos 20 anos, como a medicina influenciou as letras de música, puxa, é doloroso. Uma variante dessa pergunta é o “conta um caso engraçado que te aconteceu no tempo de médico”. Vejam vocês: eu passei por maternidades miseráveis, hospitais de subúrbio, prontos-socorros sem recursos, enfermarias psiquiátricas de fazer Dostoiévski dar um chilique … O que poderia acontecer de engraçado nesses lugares ?

Para que não me acusem de má vontade, escarafunchei na memória um tropeço que é a cara do sujeito, qualquer um, partindo para uma atividade nova.

Tive, depois de formado, um pequeno consultório (entre outros), na Praça da Bandeira, que poderia fazer parte do programa Sai de baixo, por causa do meu vizinho de sala. Era um ginecologista escrupuloso, obcecado por seu trabalho. Sabia dos riscos da profissão e era um puro, desses ginecos nelson-rodrigueanos, “como um São Francisco de Assis, com luva de borracha e um passarinho em cada ombro”. Invadia meu consultório sem bater, sentava-se num sofazinho preto e suspirava:

– Acabei de ver um mioma do tamanho de um abacate …

Isso não teria nada de errado se eu estivesse sozinho na sala. Mas geralmente eu me encontrava no meio de uma consulta. Vocês podem imaginar o efeito que uma frase explícita sobre ginecologia provocava em algumas pessoas sensíveis. E foi assim até o último dia de minha atividade naquela maldita sala quando fechei tudo e dei o fora, graças a Deus, para sempre.

Mas vamos contar, de preferência pela primeira e última vez, o “fato engraçado”. O consultório era modestíssimo, para não dizer pobre. Mesa, duas cadeiras, uma pia do tempo do onça. O sofá já descrito. Num verão de induzir pinguim a cortar os pulsos, coloquei um ventilador verde no chão, perto da porta, onde ficava a tomada. A paciente seguinte, uma primeira vez, moça delicadíssima, não pôde deixar de sorrir com a precariedade daquele artefato zumbindo no chão, sem sequer uma pequena mesa ou banco. Mas o ventinho, mesmo artificial, compensava. Trocamos um sorriso cúmplice. Ela me explicou que se considerava a mais desajeitada das pessoas. Tudo lhe caía das mãos e quebrava. Uma simples troca de objetos poderia provocar catástrofes tremendas.

Naquela época a “formação psiquiátrica” era a seguinte: você ficava de manhã apartando briga em enfermarias superlotadas sem remédios, fazia um “curso” obrigatório de noite na Escola Militar de Medicina, no Moncorvo Filho (a CIA havia tachado psiquiatria, no Cone Sul, de “assunto de segurança nacional”) e tentava abrir um consultório para exercer a papoterapia e ganhar algum. Era isso.

Voltando: a moça contava suas dificuldades quando a porta se abriu com violência e o ginecologista, aos gritos de “nunca vi nada pareci …”, tropeçou no fio do ventilador, voou feito o homem bala por cima da minha mesa e me atirou no chão de pernas pro ar.

A moça nunca mais voltou. Segundo seus familiares, ficou completamente curada.

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