19/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Uma empresa chamada Brasil

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Finalmente chegara o grande dia do julgamento. As coisas na justiça são muito demoradas, mas dizem os advogados que precisam ser assim mesmo. Eu não podia reclamar porque comigo ela andava a galope.

Meu caso deveria ser muito simples. Eu trabalhei oito anos em uma empresa chamada Brasil e ela pagava o meu salário. No entanto a empresa afirma nos últimos meses que havia me pago a mais, ou seja, além do que eu deveria receber.

Como podiam dizer isso, eu ainda não entendia. Explico: durante o processo, conseguiram uma ordem de busca e apreensão na minha casa, desbloqueio dos meus sigilos bancários, escutas nos meus telefones e o escambau. Reviraram a minha vida de cima abaixo, de trás para frente, dos meus parentes, dos meus amigos, dos meus cachorros etc. Ainda assim depois de nada encontrarem, lá estava eu sentado como réu.

Confesso que ainda hoje quando penso nisso, me passa na cabeça que aquilo tudo ia acabar em pizza numa grande confraternização entre promotores e advogados. Eu e o juiz repartindo fatias para todo mundo. Não foi bem assim.

Interrogado eu expliquei que nunca havia recebido um centavo a mais do que deveria. Que não tinham uma única evidência disso e achei, sinceramente, que o ônus da prova ainda era da acusação. Claro que me imaginava em um tribunal normal, num julgamento real como manda a lei. Não era bem isso.

Trouxeram uma testemunha, o novo contador da empresa. Ele afirmava que além do salário normal, haviam me pago valores a mais e que eu apesar de saber que estava errado, os recebi sem chamar atenção. Que todos na empresa, desde que ele fora admitido nela, sabiam que aquele dinheiro a mais era destinado a minha pessoa.

Assim que ele terminou, meu advogado perguntou o óbvio: como é que ele pagava além do que devia sem nenhum questionamento? Como é que ele contabilizava estes valores? Bem, segundo ele, quando assumiu o cargo na empresa, foi dito a ele que assim era. Que teria inclusive conversado com a minha esposa já falecida, e na conversa questionado  se ela estava feliz com o que eu trazia para casa no final do mês, ela respondeu que sim.

Neste ponto o juiz me questiona se eu estava a par disso. Minha esposa foi até bem objetiva na sua resposta, mas agora já não podia falar por si. Disse ainda que até onde eu me recordava, ela só poderia ter respondido que estava feliz com o valor do meu salário, que era o que eu levava para casa todo final de mês.

Então veio a maior surpresa. O juiz mostra um holerite encontrado na minha residência, preenchido com o meu nome, com o valor do meu salário e onde deveria constar o valor, havia uma rasura com outro valor. Perguntava ele, se eu reconhecia o tal holerite.

Examinei o papel e perguntei, devolvendo-o ao juiz, se havia alguma assinatura nele. Não esperei pela resposta e falei que se não existe assinatura não tem valor nenhum. Além disso, eu não me lembro dele.

Com isso, o julgamento foi se encaminhando para o final. Na minha ótica, e do resto do mundo, a empresa não foi capaz de comprovar aquela acusação. Não tinham uma única prova cabal do que alegavam. Nem poderiam porque eu nunca havia recebido nada mesmo.

Hoje, sentado na minha cela, lembrando aquele dia, vejo que eu estava enganado. Minha condenação foi publicada poucos dias depois. Eu deveria cumprir pena por apropriação indébita de valores recebidos além do meu salário, mas preciso explicar melhor para que seja compreendido.

Segundo o juiz, eu teria que pagar pelo crime de intenção de receber valores que não recebi. De acordo com ele, o testemunho do contador alegando que havia dinheiro destinado a minha pessoa, mesmo que de fato nunca tenha me sido depositado, além do holerite sem nenhuma assinatura, eram suficientes para comprovar minha intenção de receber dinheiro a mais e, portanto de cometer um crime. E por esta intenção aqui estou.

Eu estava cotado para assumir a presidência da empresa e com a minha detenção isto não foi possível. O novo presidente acaba de tomar posse e já convidou o juiz que me condenou para um alto cargo, prontamente aceito por ele.

Já estava suficientemente indignado quando vieram me informar que ganhei uma cozinha nova daquela empresa, mas como mandaram entregar no lugar errado, um sítio de um amigo, resolveram me processar outra vez. Agora dizem que foram induzidos a erro porque havia um guarda-chuva de minha propriedade no local e exigem que eu restitua tudo.

PS: Meu carcereiro acaba de me avisar que tem um visitante querendo falar comigo sobre a compra do prédio onde sou mantido. Disse que sou o dono porque estou aqui há sete meses sem pagar aluguel com comida e roupa lavada.

Coisas incríveis acontecem nesta empresa.

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