14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Um tantinho de esporte e política

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Futebol não é questão de vida ou morte, é mais que isso (Bill Shankly, escocês, ex-treinador do Liverpool)

Ainda era o dia 8 de maio e o coronavírus já nadava de braçada, chegando a mais de 750 mortes no país em 24 horas. A UFRJ recomendava isolamento total no estado. O que fez a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) ? Publicou uma carta, pressionando autoridades para permitir que os clubes pudessem reiniciar as atividades “em poucos dias”. Este alinhamento letal com negacionistas irresponsáveis foi vergonhosamente seguido pelos presidentes dos clubes mais populares do Rio. No dia 19 de maio, Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, e Alexandre Campello, presidente do Vasco, se reuniram com Bolsonaro, defendendo o retorno do futebol. A média de mil mortos diários, o iminente colapso das redes hospitalares, a total falta de coordenação operacional na área da saúde, nada sensibiliza o trio.

O Flamengo, espetacular no campo de jogo em 2019, se torna instrumento político para as aventuras da extrema-direita. Não bastava a nós, torcedores de um time de fortes raízes populares, vermos o capitão celerado e seu ex-ministro da Justiça vestirem a camisa rubro-negra há cerca de um ano. Agora, a diretoria do clube adere à plataforma criminosa que defende o retorno imediato à “normalidade”, ameaçando a vida de milhares de brasileiros. Que ninguém se iluda: a manobra em curso é um passo na direção da suspensão do isolamento social. Bem disse o ex-jogador Alex, sobre a defesa de Bolsonaro para o retorno dos jogos sem torcida: “Não vejo possibilidade nenhuma de se voltar ao futebol. Sigo acreditando que devemos seguir as diretrizes da ciência”.

Esporte e política nunca andaram separados. Desde sempre, presidentes da República tiram sua casquinha da seleção brasileira. E não são exclusividade da direita. Os jogadores, imensa maioria com baixo nível de educação e interessados apenas no alpinismo profissional, são joguetes nessa trama. Vale uma análise do Sócrates, raro exemplo de jogador bem articulado e com sólida informação política. Durante a Mundialito de 1980, torneio que a ditadura uruguaia promoveu para celebrar a vitória num plebiscito (que não veio; mas isso é outra história), ele comentou a indiferença dos jogadores ao fato de estarem jogando num país sob ditadura. Sócrates, então, contou que, certa vez numa concentração, pegou os jornais do dia e separou em duas partes. Numa, colocou as páginas esportivas. Na outra, as seções de cultura, economia, política. Pois bem, nesta última ninguém tocou. Concluiu dizendo que gostaria de abrir um debate: que os jogadores de futebol fossem obrigados a ter uma formação em temas fora do esporte. Num país em que o futebol é fator de identidade nacional e os jogadores exercem grande influência sobre a população, isso poderia ter repercussões importantes. Claro que ficou apenas no desejo dele, liderança histórica da Democracia Corintiana e cidadão militante.

Pelo lado falsamente folclórico da ligação esporte-política, é inevitável lembrar do ex-juiz Mario Vianna. Membro da Polícia Especial no Estado Novo, era conhecido pela truculência. Em 1954, na Copa da Suíça, o Brasil perdeu da Hungria por quatro a dois. Nada de mais. Era o scratch húngaro celebrado pelo Nélson Rodrigues. Ao final da partida, os jogadores brasileiros, descontrolados, provocaram uma tremenda briga. Enquanto isso, Mário Vianna insultava o juiz, o inglês Arthur Ellis, pelo microfone de uma rádio, dizendo que ele fazia parte de um complô comunista. Investigado, descobriu-se que o senhor Ellis era mesmo filiado ao partido. Só que ao Partido … Conservador. Mário ainda deu vazão à sua fúria pacheca em duas outras ocasiões. Em 1962, na Copa do Chile, depois que o juiz peruano expulsou Garrincha na partida contra os anfitriões, xingou-o de “índio safado”. Em outra, creio que na Copa de 70, berrou que o árbitro israelense Abraham Klein “além de judeu, era ladrão”. Por trás dos maus bofes caricatos, reinou o ufanismo que se orgulha da ignorância.

Por fim, cabe perguntar o que significaria ter jogos de futebol sem público ? Quem já esteve num estádio, sabe que nada do que acontece dentro das quatro linhas terá muito sentido sem a participação da torcida, dos radinhos de pilha (ainda existirão ?), das bandeiras e faixas, das gozações ao vivo, dos afagos no juiz. Inesquecível o improviso da torcida do Flamengo num jogo contra o Botafogo, 1965. A peleja não valia nada, com qualquer resultado o Flamengo seria campeão. O Botafogo botou água no chope, um a zero, gol de Gerson. Na mesma hora, a torcida rubro-negra tascou: É ou não é/piada de salão/o Gerson faz o gol/e o Flamengo é campeão ! Eu estava lá ! Futebol sem esses confeitos, essas surpresas, é tão emocionante quanto um discurso do Ruy Barbosa.

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