14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Terror & Paz

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final de contas a quem interessa a continuidade do conflito? Quem são os grupos, ou pessoas que tem algo a ganhar enquanto a carnificina terrorista for mantida?

O Hamas e a Jihad, os principais grupos fundamentalistas precisam manter o terrorismo por que acreditam que desta forma poderão obter o poder político num futuro Estado Palestino. Com uma população praticamente vivendo da ajuda que recebem (até para comer), estes grupos cumprem a função que seria do estado, de prover alimentação e saúde para o povo. Misturam religião e política e são muitas vezes, as únicas fontes de ajuda para muitas famílias. Em troca, exigem o sacrifício de alguns pela causa. O suicídio é saudado como um ato de “martirização” e a família é bem recompensada.

Iasser Arafat e os grupos ligados a Al Fatah também precisam manter o terror como forma de se contrapor aos fundamentalistas. Arafat precisa mostrar ao povo palestino que a luta continua, e que ele não os abandonou. O terrorismo que ele praticou por toda sua vida continua sendo uma forma de se manter no poder. Impossibilitado de combater os grupos radicais sem causar uma guerra civil, não lhe resta alternativa senão usar da mesma tática. Ainda assim, Arafat apesar do descrédito que possui junto aos EUA e ao atual governo de Israel, continua sendo a chave para o sucesso de qualquer acordo de paz.

Ariel Sharon também tem interesse em manter as coisas como estão. Mesmo tendo sido eleito prometendo paz e segurança, ele continua fazendo do combate ao terrorismo seu maior trunfo para se manter no poder. Com a economia do país fazendo água, não lhe resta alternativa já que ardilosamente colocou na pasta de economia seu maior rival político. Sharon sabe que enquanto o terror continuar não será pressionado a desmantelar as colônias ou entregar território, o que poderia ameaçar a coalizão que o mantém como primeiro-ministro. Desta forma ele alimenta o terror, e se alimenta dele.

Os colonos israelenses também têm interesse direto no terrorismo e não disfarçam isso. Sabem que enquanto ele continuar, têm garantido sua permanência nos territórios. Enquanto isso, um muro é construído para que ocupem mais terras e impossibilite a criação de um Estado Palestino viável. Os vilões tentam passar como heróis que fazem a linha de frente daqueles que ainda sonham com a Grande Israel.

Qualquer um sabe que não se combate violência com mais violência. Só o fazem assim os desprovidos de qualquer propósito lógico, ou os que desejam viver se alimentando dela. Empregar força bruta pode até abortar algumas ações de curto prazo mas são a fonte de inspiração para o planejamento de outras a médio e longo prazo. Toneladas de bombas foram jogadas no Afeganistão e nem assim o terrorismo foi contido. Os EUA já perderam mais soldados depois da guerra do que durante as batalhas para a conquista do Iraque.

A única forma de se combater o terrorismo é atacando as suas causas. No conflito israelense-palestino elas são bastante claras e conhecidas: a ocupação dos territórios que poderia ser resolvida com a retirada de Israel para a linha de 1967, com a criação de um Estado Palestino na Cisjordânia e Gaza, a entrega dos bairros árabes de Jerusalém para transformá-la na capital de dois estados, e uma solução justa para o problema dos refugiados. Isto faria com que tivesse inicio uma imediata recuperação das duas economias, e um processo de reconciliação que permitisse acordos bilaterais em todas as áreas do desenvolvimento. As pessoas empregadas e livres para prosperarem, deixariam de ser reféns dos grupos radicais. Ninguém nasce terrorista.

O terrorismo é raro e praticamente não existe mais em países desenvolvidos onde a democracia está bem assentada. A prosperidade e o conforto de um futuro sem guerras são a chave para acabar com as desavenças e permitir aos dois povos viverem em paz. Esta é a única fórmula viável para se acabar com o terrorismo e o sofrimento dos dois povos.

Uma vez conhecidas às causas e a solução, ainda cabe aqui uma última pergunta: a quem interessa a paz e a reconciliação?

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