03/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Tá certo, ou não tá?

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Rotina de aglomeração. Aí pelo finzinho da tarde, nos reuníamos em torno de um móvel imponente que demandava um ritual para ser apreciado. Primeiro, o adulto girava um botão. Cerca de um minuto depois, as válvulas esquentavam e começavam a aparecer imagens, de início meio opacas, aos poucos mais nítidas, não raro instáveis. Um chumaço de Bom Bril na antena ajudava a melhorar a nitidez. Nós, televizinhos, não tínhamos do que reclamar. Habituados a imaginar personagens pelas ondas do rádio, agora a televisão permitia ver rostos e corpos por trás das vozes. Bem verdade que em preto e branco, mas não precisávamos mais ir às matinês do Metro Tijuca para assistir desenhos animados.

A primeira transmissão da televisão brasileira completa setenta anos. Nos anos 50, os aparelhos, tal como as rádio vitrolas, eram decorativos, destaque nas salas da classe média mais abonada. Sem essa de controle remoto. Para mudar de canal, alguém tinha que se levantar e girar um botão (que se desgastava com facilidade; “chama aí o técnico” era um mantra bem conhecido na época). A corrente elétrica oscilava muito, alguns modelos traziam um estabilizador embutido, quebra-galho que nem sempre funcionava.

Fomos colecionando tipos, heróis, jingles, sonhos, humores. No início, tudo ao vivo, com acidentes inesquecíveis. Falcão Negro, um capa-espada de fundo de quintal, apresentado na hora do jantar, levou Gilberto Martinho para o estaleiro várias vezes. Cortes, tombos, pancadas, tudo fora do script e nas nossas barbas espantadas. A gente descobria que o mocinho tinha carne fraca, ossos frágeis e sangue que jorrava.

O Vigilante Rodoviário, que surfou o boom automobilístico dos anos JK, brigava e o quepe jamais caía do cocuruto. Como John Wayne, na tarefa interminável de dizimar peles-vermelhas e bandoleiros. Aliás, o cão Lobo era melhor ator que o canastrão Carlos. De noite ou de dia, firme no volante, vai pelas rodovias, bravo vigilante ! Flávio Migliaccio e Stênio Garcia fizeram pontas valiosas. As histórias eram invertebradas, mas, oh !, como a gente vibrava.

Depois do almoço dominical, corre pra frente do tubo de imagem. Era o Teatrinho Trol. Zilka Salaberry, Norma Blum, Roberto de Cleto, Fábio Sabag, nos introduziam ao faz-de-conta dos contos de Grimm e outros craques. Numa das histórias, a bruxa transformava alguém em coruja. O câmera vacilou e mostrou o contrarregra, quase rastejando, trazendo a ave empalhada e colocando no lugar do personagem, que se escafedia sem saber que era flagrado na fuga. Queixos caídos.

Durante a semana, éramos informados de que Tonelux era a mais bonita loja da cidade, que a Galeria Silvestre era a galeria da luz, que Phymatosan era o amigo que nos convinha, que a bola Pelé ia nos tornar campeões. Daniel Filho, Dorinha Duval, Grande Otelo, Zélia Hoffman e várias certinhas do Lalau estavam no musical Times Square, da Excelsior, onde se cantava: Diga madame, diga madame,/que quer que eu faça/pra que lhe ame?/Quero que empenhe/seus capitais/pra ter meu nome/entre as dez mais.

No circo do Carequinha, o malabarista mambembe tropeçava e caía nos braços do Oscar Polidoro, de cartola como convinha aos mestres de cerimônia. O Arrelia perguntava como vai, como vai, vai vai ? Bat Masterson, de chapéu coco e bengala, enfrentava os mal-encarados sem amarrotar o terno preto, nem desabotoar o colete. Traje estranho para paisagens desérticas. Teddy Boy Marino podia não beber rum Montilla, mas aplicava voadoras no Verdugo e no Tigre Paraguaio. Gostava da TV Continental, a 100% esportiva, mas via mesmo era a Resenha Facit, com Saldanha, Nélson, Scassa, Armando.

Inverno ? Não adianta bater, eu não deixo você entrar. É nas Casas Pernambucanas que eu vou aquecer o meu lar. Para encher o tanque, só Esso dava ao seu carro o máximo. E tudo andava bem com Bardahl. Mercado ? Vou dançar o chá-chá-chá, Casas da Banha, alegria vem de lá, também vou aproveitar, é lá que eu quero comprar. De manhã, pla ple pli plo Plus-Vita. Marcou aquele encontro ? Brylcreem, apenas um pouquinho, você irá brilhar, é o melhor caminho, para mil pequenas conquistar. Bateu aquela fome ? Alô, alô, quem fala? É do armazém do seu José ? A mamãe pediu para comprar uma lata de biscoitos Aymoré. Ah, para acompanhar, bom mesmo era o café Capital.

Pensando bem, ou melhor, sentindo bem, esta suave nostalgia está tatuada nos meus melhores afetos. Sou um pouco disso tudo. E como já sabiam os cobertores Parahyba, já é hora de dormir, não espere a mamãe mandar, um bom sono pra você, e um alegre despertar. Despertar ? Mesmo ?

Tá certo ou não tá ?

Abraço. E coragem.

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