09/03/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Solidão

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Pensei em pôr uma palavra ao lado de solidão no título, para diminuir sua solidão, e a minha. Entretanto, percebi que a palavra desejava ficar só, a solidão é a essência da condição humana. Em tempos de pandemia cresceram as solidões –há diferentes formas de solidão–, caminhamos por novos labirintos com encruzilhadas desconhecidas. Um exemplo, entre tantos, é a psicanálise pelo celular, impossível imaginar essa possibilidade antes da pandemia. A vida está sofrendo uma metamorfose, enfrentando novos desafios. Estamos com medo de nos aproximar, o isolamento é recomendado e as relações humanas se ressentem. Saudades das conversas presenciais, dos abraços e beijos, de se encontrar no teatro ou no cinema.
A solidão tem história, e o livro “História da solidão e dos solitários”, de George Minois, começa nos primórdios da humanidade. Não havia solidão, pois todos viviam em grupos, tribos, para se defender dos perigos da vida selvagem. Depois o homem antigo ficou preso a uma rede fechada de instituições sem espaço para o isolamento. Assim ocorreu na civilização greco-romana, e foi Sêneca um dos primeiros a valorizar a solidão. Já nas artes tem personagens solitários como Odisseu, Édipo, Electra. Entretanto, foi Francisco Petrarca em 1346 quem se isolou para escrever poesias, cartas e seu famoso tratado sobre a solidão. Depois Montaigne, nos “Ensaios”, tem um capítulo para elogiar o solitário, como ele foi, mas também escreveu que a melhor arte era a de conversar.
O livro de Minois segue até o século XX, o século da multidão, também foi definido como o da multidão solitária. Em “Mal estar na Cultura” Freud faz referência ao eremita, que se isola do mundo, a solidão narcisista. Também há a fobia social, as reações paranoides, em todas há certo recuo narcísico diante de uma angústia ameaçadora. Tem a capacidade de estar só sem sentir-se desamparado, ou a possibilidade da ausência, como segurança da presença, na brincadeira do ausente/presente, do Fort/Da.
O sentimento agudo de solidão pode desencadear situações de raiva, abatimento, com saídas agressivas. Há uma tensão entre a solidão e a reconciliação com os vínculos amorosos. Assim como há muitos solitários que sofrem, há os solitários que aprendem a conviver consigo mesmos, e assim se transformam. Há uma outra forma de solidão na História, vivida por um povo ou uma raça vítimas do preconceito e do racismo. Ocorreu na escravidão e ocorre ainda aqui com os negros, índios e pobres. O escritor Garcia Márquez, ao receber o Nobel da literatura falou do “Nó da nossa solidão”, como a solidão social, porque há governos que atacam os mais fracos.
Agora atacam a vacina como se torcessem pela morte, é a política da morte, é quando forças com diferentes armas desprezam a guerra contra o vírus. Os efeitos da solidão podem se estender ninguém sairá ileso da pandemia, o alívio é o caminho da poesia e a busca da reconciliação. Em “A dupla chama: amor e erotismo”, Octavio Paz escreveu: “O amor não é grande nem pequeno, não é o tempo do calendário, e dos relógios, é a percepção de todos os tempos num só, de todas as vidas num instante. É a reconciliação com a totalidade que é o mundo, um estado que nos reconcilia com o exílio do paraíso”. Hoje o País vive um dos seus piores infernos, e ainda assim, a gente busca a reconciliação com a nossa frágil humanidade.
Um velho plantava, calmamente, uma árvore, quando um arrogante passou e ironizou o velho. Disse que ele era um tolo, nunca veria a árvore crescer, pois estava próximo a morte. O homem seguiu plantando, calmamente, e disse, sem levantar os olhos: “Quando vim ao mundo já havia muitas árvores plantadas aqui, e essa que planto ficará para os que vão nascer”.

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