19/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Sobre o quase amor

7 min read

 

“Quem estará nas trincheiras ao teu lado?- E isso importa?- Importa mais do que a própria Guerra”                           

(Ernest Hemingway)

 

2020. Carros voadores. Androides dotados de uma incrível inteligência artificial, ótimos amantes, conversas sensacionais. Aquele papo que você pode pular do assunto maquiagem tosca do Pablo, dublador do Programa Qual é a Música , da década de 80, quando o Silvio Santos ainda rimava lé com cré, até questão crucial que permeia a literatura brasileira machadiana há 121 anos: Bentinho era corno ou não?

Entre a realidade e a expectativa enorme fosso. Cloroquina, desgoverno, mortes em massa, Os Inocentes do Leblon dando o exemplo do que é isolamento social, praias cheias, campanha anti-vacina antes da vacina ser aprovada, OMS comunista, índios e caboclos incendiários, e claro, um Brasil cristão, conservador e cristofóbico. Tudo isso rolando na Terra Plana. Ver aquele ajuntamento caloroso em bares, só lembra aquele pagodinho antigo:” Deixa Acontecer Naturalmente” …A música é praticamente uma profecia.

Mas nem tudo é “o horror, o horror”, como gritava o Capitão Kurt em Apocalypse Now. Se a vida te dá limões, acrescente vodka. E foi num intervalo entre um home office e outro que ela, solteira por forças das circunstâncias, conheceu uma alma. Atrás da tela. Bonito. Cumprindo a quarentena. Conversaram muito, trocaram zap, aquela comunicação de quem não tem nada a perder. Até que ele, por mero acaso, falou o ano que entrou na universidade. Eis que ela se tocou do óbvio e perguntou quando nasceu, curiosidade de horóscopo chinês, só de onda, nem curte (mentira) e viu que tinham 14 anos de diferença. Elucubrações mentais tomaram conta do seu cérebro: Gente, quando ele começou a ser alfabetizado eu já estava na faculdade. Transando. Mas pera, “Eu não tô fazendo nada, você também. Faz mal bater um papo assim gostoso com alguém” Conversar não arranca pedaço.

Como era mulher de mente rápida, foi fazendo uma escalação mental de casos semelhantes. Violeta Parra e Gilberto Fravré, (não conta, deu ruim), Fátima Bernardes e o boy. Agatha Cristie que foi casada anos com um arqueólogo 14 anos mais velho, e que com seu humor inglês dizia que ficou com ela a vida toda porque gostava de antiguidade. Brigitte e Emmanuel Macron caramba! A falecida Duquesa de Alba, uma das mulheres mais ricas da Europa, mas que deixou todos os bens para a família, infelizmente só um teste de carbono 14 para ter precisão da idade dessa senhora, mas o marido bonitão era 25 anos mais jovem. E isso porque estamos falando de mulheres. O Temer com certeza escolheu a Marcela, 43 anos mais jovem, no berçário, até que chegasse a maior idade. E outra: Qual a diferença entre o homem e a manga verde? É que a manga um dia amadurece. Sorry meninos, é uma máxima da vida.

Então ela pensou: Vamos dar aquele abraço no Einstein, mesmo sem saber resolver as quatro operações matemáticas, só se ligando na parada coach científica quântica: Na teoria da relatividade geral, o tempo espaço passou a ser considerado uma unidade cósmica. Seja lá o que for, unidade cósmica parece algo bem simpático.

Hora do encontro na tela. Ela dá uma amansada no cabelo, bota uma roupa nem tão freira, nem tão puta (parafraseando Santa Rita Lee), camisetinha casual (que demorou horas para escolher), e ele ali. Cabelo lindo. O infeliz deve passar sabão de coco ou pedra, homem é foda. Lindo. A princípio raciocinou: Gente, muita areia pra meu caminhão. Depois foi tomada por um espírito de operário de construção civil e vaticinou: “Problema nenhum, faço três viagens”… Amigos em comum, do lado do genocida não tá, e nos tempos de hoje isso é o suprassumo da alegria: Ele não muge, ELE fala!

O problema dela é a verborragia. Fica nervosa e fala sem parar. Começou uma conversa teológica com pegadas de Poltergeist que a vida é uma novelinha fuleira, cuja assessora do Eterno é a Janete Clair. Pôs-se a lembrar de uma história deliciosa, passada nos idos dos anos de 1967, na Novela Anastácia, a Mulher Sem Destino. Protagonizada pela inenarrável e saudosa Leila Diniz (“ah, a do biquini na praia, libertária”, ufa…podia ter confundido com a Pantera de Minas, deve ter ouvido numa música da padroeira Rita Lee Jones). O folhetim foi escrito inicialmente por Emiliano Queiroz. Acontece que houve uma profusão de personagens, um entrelaçamento de tramas, que nem o espectador, nem os próprios artistas, entendiam nada. Então alguém da direção da emissora falou: “Chama a Janete Clair, ela dá um jeito em tudo”. E deu. Como a história se passava numa Ilha Vulcânica, Janete sacou da cartola uma erupção modelo Vesúvio, capaz de corar Pompeia, com direito a um grande terremoto, matando assim todos os personagens, dos quais só sobraram 20. E recomeçou o folhetim do zero. Ao inserir uma catástrofe natural, ela deu seguimento a uma história da TV Brasileira. O interessante são os atores cujos personagens não estavam na ilha na hecatombe, e mesmo assim foram declarados mortos na trama. Ouviu de volta: “Minha mãe se amarra em novela, boa história”. Com essa pensou em trocar o nome para Jocasta, teve uma professora chamada Medéia, nem tudo está perdido. Só que ele emenda: “Mas porque você está contando essa história?”. E ela responde sem graça: “por que uma hecatombe viria em boa hora”. Pronto, fudeu, agora acha que sou uma psicopata. Melhor não falar o que desejo para o Bozo.

Perguntou se podia abrir um vinho. “Claro, não bebo nada porque amanhã pego cedo, tenho reunião”. Ora vá…Deixa ele falar. Trabalha numa produtora, com imagens, falou dos problemas da área, tá difícil pra todo mundo. Sem álcool então né? O papo vai para cinema, tem uma vasta cultura cinematográfica. Filme de lugares diferentes, tipo Ubezquistão. Nunca ouviu falar. Teve vergonha de contar o dia que caiu na falácia da crítica do Globo e foi assistir O Cheiro do Papaia Verde. Além dela, três pessoas no cinema. Dez minutos com a câmera mirando na respiração de um sapo. Foi acordada pelo lanterninha, não sobrou ninguém. Melhor ficar no basicão, Tarantino, clássicos de guerra, Godard será seu segredo, odeia.

Bom leitor. Saiu melhor que a encomenda. O vinho ajudava, é verdade. Ele tentando acompanhar os pensamentos rápidos dela, ela com paciência para as reflexões dele. Já se imaginava casada. Cachorro, pato, gato, jardim, rede, óvulos congelados, filhos, horta, flores. Aprender a fazer pão e, num pulo no quarto, onde a TV estava ligada, um leilão de um nelore. Três pratas. Pensou: Vendo carro, abro espaço, arrumo um boi. Um gado de verdade, não esses falsificados bozolóides. Até que entendeu que três pratas era uma das mais de dez prestações.

Voltou. Depois de passar uma máquina leve. E sabe-se lá por que o papo caiu em Virginia Wolff. Na verdade, não na obra, mas no filme As Horas. Ela lembrou de um editorial que viu no FB de Moda da Vogue espanhola sobre a Silvia Plath. Ele conhecia Silvia por alto. Havia uma serie de roupas do estilo da Silvia. Sapatos bicolores. Blusas de seda. Saias de bom corte. No meio de tudo, UM FORNO ROSA RETRÔ. Que devia valer um rim. Explicou ela que nada mais odioso do que esse voyerismo macabro pelo espetáculo da morte. Silvia era jovem, talentosa, sofria de depressão, deixou dois filhos pequenos e meteu a cabeça com uma toalha no forno. Para falar a que ponto chegamos da banalização de algo tão sério disse: Imagina um ensaio com Virgina Wolff. Uma saia de bolsos fundos, com pedras estilosas e coloridas. Ou pior. Imagina um Hemingway de papelão, garoto propaganda de uma espingarda de caça calibre 12.

E foi aí que o encanto se perdeu. “Odeio Hemingway. Acho ele superestimado”. Não, ele não lembrava de Manhattan de Allen. Repetiu a fala sem saber. Para quem não viu, Allen namora no longa a neta de Hemingway, Mariel, que na época tinha 17 anos. É um filme de 1979. Diane Keaton, depois de mil piadinhas sobre a idade da garota, enquanto caminha com eles pelas ruas, fala: “Acho Hemingway superestimado”. E Allen, como a nossa personagem, não acredita no que ouviu. Vocês podem ter todas as diferenças com Allen. Mas não gostar de Hemingway (o autor, a pessoa jurídica, não a física) é contra todos os princípios. Meus e da moça do conto.

 

PS:Quando é que vai sair o andróide mesmo???

 

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