16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Sobre o desconcerto do mundo, Camões,  Roberto Jefferson e mundo cão

8 min read


Ao Desconcerto do Mundo

 

Os bons vi sempre passar

No Mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só pera mim,

Anda o Mundo concertado.

 

Das temáticas abordadas por Camões, no que se refere a sua produção lírica, a que mais me fascina é o desconcerto do mundo. Nela o artista manifesta as contradições e complexidade do século que viveu, pulsando em seus versos o sentimento de um mundo desordenado, às avessas, subvertendo a visão equivocada de que o Renascimento foi marcado pelo equilíbrio, pela harmonia, pela clareza. A Renascença foi sim uma fase de ruptura entre dois modos de pensar e agir. Não ocorreu de um dia para o outro, como se num estalo vieiriano, o homem abruptamente se percebesse como medida de todas as coisas, rejeitando veementemente as concepções e valores medievais. Foi um período de transição, e como tal, enigmático e contraditório, em que o novo ainda não nasceu e o velho ainda não morreu”. Em um artigo para a Folha de São Paulo, Moacyr Scliar assim o define: “É a época em que Copérnico descreve o sistema heliocêntrico, Harvey estuda o sistema circulatório, tempo da invenção da imprensa e do uso bélico da pólvora, época dos grandes descobrimentos marítimos. Simultaneamente é o período de guerras e conflitos entre os Estados que emergiam do mundo feudal, uma época de pobreza e de doenças epidêmicas, depois da peste, a sífilis se dissemina”. Camões, gênio que foi, captou e traduziu esse desconforto de estar no mundo de otimismo e desesperança, de exuberância e abominável pobreza, de idealismo e corrupção.

Em que se estabeleçam as diferenças, esse sentimento de um mundo de ponta cabeça, tem tomado a minha alma. Muitas vezes tenho a sensação de estar vagando em algum limbo. No dia Primeiro de Maio isso ficou patente. Há 50 anos acompanho o Dia do Trabalho pelo mundo. Neta de Arthur, comunista, assistir nos telejornais os movimentos que ocorrem no planeta, mais que um dever é um prazer. E assim foi nos registros da França, da Alemanha, da Turquia, do Quênia. Confronto entre polícia e trabalhadores, Reinvindicações, bombas de efeito moral, nada de novo sob o sol. Aqui, porém, o impensável. Pessoas vestidas de verde e de amarelo, bandeiras do Brasil em profusão, nosso Hino Nacional sendo entoado pelas ruas das principais cidades de Pindorama…Sim, se isso não se chama usurpação de símbolos nacionais, não sei de que chamar. Carreatas e passeatas (aglomerações) pelas avenidas do Brasil. E nenhuma, repito, nenhuma delas foi contra o estado lamentável que se encontra o país. Não saíram para pedir para agilizarem a vacina para a população. Muito menos para protestar contra a taxa imensa de desemprego. Foram apoiar o presidente, com faixas pedindo o fechamento do STF, críticas as medidas de isolamento social, defesa da volta das atividades normais e a instauração do voto impresso. E foram sapateando em cima de 400.000 mortos por covid no Brasil. Claro, pró-governo, não teve bomba de efeito moral, corre corre da polícia, mas teve morador de BH preso em casa acusado de jogar ovos nos manifestantes,

Aqui paro para me deter numa figura específica. Que conheço de priscas eras e estava em cima de um trio elétrico incitando a multidão em São Paulo a gritar por todas as medidas antidemocráticas que estão na cartilha dos ruminantes. Roberto Jefferson…Minha lembrança mais nítida desse senhor, é do início da década de 90, quando ele pesava uns 200 quilos (antes da bariátrica). Horário Eleitoral Gratuito, casa da minha avó Lucila, esquerdista claro. Vovó tinha um dos cachorrinhos mais feios do universo, um gremlim que se alimentou depois da meia-noite, o Dico, conhecido também pela alcunha de Pornô-Cão. Não importava sexo ou idade do visitante, uma coisa era certa, sua perna seria devidamente serrada pelo pet. Sentada na sua cadeira de balança, com o Dico no colo, minha avó se balançava e repetia: “Esse homem é uma besta, minha filha”. Minha avó morreu, Dico também, mas Bob Jeff continua aí. Sendo uma besta,

Petropolitano, Roberto é filho de um professor aposentado com veleidades artísticas. Durante três décadas seu pai presidiu a União Brasileira dos Trovadores. Cometia versos. Parnasianos. Espelhava-se no autor de Via Láctea. Li alguns. Só tenho a dizer que ainda bem que Olavo Bilac não está mais entre nós. Roberto, na Revista Piauí, diz ter crescido entre as trovas do pai e as lições de vida do avô. Aqui ele narra um momento inesquecível: Estavam os dois caminhando, chuviscava e se depararam com um homem regando plantas: “O que você vê meu neto?” “Um homem regando uma planta”. “E o que cai do céu?”. “Chuva”. “Então dirija seus olhos para a Catedral de Petrópolis e dê graças a Deus. A vida é uma competição, e um homem que rega plantas em dias de chuva jamais será seu adversário. Um a menos” Vovô sendo didático. Tenho que confessar que acreditei que ele fosse falar algo poético para o neto, no fim só dando spoiler de livro de autoajuda competitivo como Oportunidades Exponenciais. Bom, tanto o pai quanto o avô de Bob Jeff foram vereadores.

E como essa pessoa veio parar nas nossas vidas? Agora surge um nome carregado de dubiedades para mim. Wilton Franco. Esse diretor, apresentador, nada mais é que o criador dos Trapalhões. Desculpem, meu carinho é enorme. Minha infância não existe sem as aventuras do quarteto, as risadas com os primos na sala da vó, meus amores eram o Mussum e o Zacarias. No entanto, esse mesmo ser, pelo qual nutro esse afeto, foi o mesmo que convidou Roberto Jefferson para apresentar o programa O Povo na TV.” A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Era o ano de 1981.Wilton Franco era o apresentador e diretor desse programa vespertino na recém inaugurada TVS (depois SBT) e escalou um elenco digno de figurar um ministério do Bozo: Cristina Rocha, Sergio Mallandro, Roberto Jefferson, Zenóbio Costa e Silva e a ainda impúbere Eliemary (deliciosa junção de Eliezer e Marileide).Para quem não sabe Wagner Montes é o nome artístico de Zenóbio e Eliemary foi rebatizada por Silvio Santos de Mara Maravilha. Realizaram? Roberto Jeferson, Wagner Montes, Sergio Malandro, Cristina Rocha e Mara Maravilha como repórter mirim dividindo o mesmo palco. Mas pera, aqui é Brasil. Então rolava também um curandeiro no meio desse mafuá todo: Professor Lemgruber.

Tentarei ser sucinta: O programa consistia num mergulho profundo no Mundo Cão. Datena é desenho da Disney perto daquilo. Era vendido como um programa de utilidade pública, onde reportagens policiais eram intercaladas por pessoas que iam ao palco, de classes populares, que precisavam desde ajuda domiciliar até hospitalar. Claro que o sofrimento era a moeda de troca. Essas pessoas tinham suas histórias narradas pelo apresentador, era um festival de desgraças. Autointitulado “a procuradoria geral do povo” o programa exibia conflitos familiares e, a parte mais esperada, eram as brigas entre compradores insatisfeitos com vendedores que iam até o programa. E sim, a porrada comia.

Wagner Montes, ator de fotonovelas Sétimo Céu, galã, era o repórter criminal. Dizia-se afilhado de Mariel Mariscot, O Homem de Ouro do Esquadrão da Morte, falava abertamente a favor do linchamento, da execução sumária e em alguns momentos ele silenciava e a câmera captava o símbolo do Esquadrão, uma caveira sobreposta a duas tíbias cruzadas. O papel de Jefferson era o “rábula”, sempre nervoso, socando a mesa, dispunha a resolver os problemas das pessoas desassistidas, a maior parte extremamente pobre. O curandeiro Professor Lemgruber, ia a caráter. Vestia uma roupa negra, um medalhão no peito, dizia possuir virtudes curativas únicas. Sua força era o pensamento, fez imenso sucesso. Começou a comercializar medalhões, sem formação alguma, foi preso por estelionato, enganando principalmente famílias de alcoólatras e drogados, que lhe davam dinheiro acreditando em seus passes curativos.

Esse programa, cruzamento de Ratinho com Marcia Goldschmidt, deu num dos episódios mais tétricos da história da Televisão Brasileira. No dia 14/12/1982 uma bebê de apenas nove meses, com um tumor em um dos olhos, depois da mãe recorrer a produção porque não encontrava atendimento em hospitais públicos, ao invés de tentarem hospitalizá-la ela foi exibida no programa já agonizante. A criança MORREU AO VIVO. E sim, Bob Jeff lá estava. Não sei por que quando ele fez aquele post antissemita falando que judeus sacrificavam crianças a Baal, deidade satânica, ninguém lembrou que ele participou de um sacrifício de criança em frente às câmeras. O Povo na TV durou até 1985, mas graças a visibilidade que Roberto Jefferson adquiriu naquele pântano foi um dos deputados federais mais votados em 1983, o seu primeiro mandato.

Bem, Bob Jeff vai a sabor do poder. Já colou com FHC, Dilma, Bolsonaro é só mais um. O gado que não tá ligado. O fato é que tivemos uma semana pra lá de difícil. CPI da Covid, bebês assassinados a facão, chacina no Jacarezinho…Quando Aldir Blanc morreu há um ano, uma amiga comentou que a esperança (equilibrista) tinha desistido do Brasil. No mesmo dia do aniversário de morte do artista, morre Paulo Gustavo, precocemente. Novamente ela falou: A comoção em torno da morte do PG, para quem o rir é um ato de resistência, fez parecer pra mim que o riso, tão característico nosso, também desistiu da gente. Eu quero dizer a ela, e a vocês, que assim como iniciei esse texto trazendo o tema do desconcerto do mundo, Camões é atemporal, lembrem que o vate lusitano, usando como figura retórica (ou não) fala muito da Fortuna. Sim, uma deusa ordinária. Meretriz, vulgar, caprichosa, sempre a enxergo, com a faixa do Zodíaco como uma Miss Chacrete. Numa mão a cornucópia, na outra a roda que faz girar. Roda, roda, roda e avisa…Uma hora será nossa. Nosso riso eles não tiram.

Deixe uma resposta