16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Sobre amizade, sincronicidades e resistência

11 min read

Já chegou a hora quem lá no mato mora
É que vai agora se apresentar
No chão do terreiro, a flecha do Seu Flecheiro
Foi que primeiro zuniu no ar

Vi Seu Aimoré, Seu Coral, vi Seu Guiné,
Vi Seu Jaguará, Seu Araranguá,

Tupaíba eu vi, Seu Tupã, vi Seu Tupi,
Seu Tupiraci, Seu Tupinambá

Vi Seu Pedra-Preta se anunciar,
Seu Rompe-Mato, Seu Sete-Flechas,
Vi Seu Ventania me assoviar
Seu Vence Demandas eu vi dançar
Benzeu meu patuá

(Linha de Caboclo)

 

Assisti com décadas de atraso, por indicação de um amigo, o premiadíssimo filme argentino A História Oficial. Lançado em 1985, dois anos após o final da ditadura  mais sanguinária da América Latina, as feridas estavam abertas e em carne viva. A protagonista é uma professora de História, pertencente a burguesia portenha, cujo marido é um empresário beneficiado pelo governo militar, conservadora e alienada ao que acontecia em seu país. Em uma cena marcante, ela lecionava em uma escola só para meninos, numa classe composta por adolescentes, é confrontada por um aluno que dá uma versão diferente para determinado fato do passado. Diante da afirmativa dela, de que ele está distorcendo o que está registrado nos livros de história, ele responde:”A história é escrita por assassinos”.

Essa passagem me remeteu a época que fui aprovada na seleção de Mestrado em Literatura Portuguesa. O programa que abrangia literatura clássica e medieval, me atraiu por ser uma forma de entender o início de tudo, da língua, da nação, de seus desdobramentos no meu próprio país. Passei dois meses indo religiosamente ao Gabinete Português de Leitura, onde tive acesso a livros como As Crônicas de Fernão Lopes em português arcaico, e a impaciência do bibliotecário português, por ser uma das primeiras a chegar, pedir livros de difícil acesso  e invariavelmente ser  a última a sair. Ao saber dessa antipatia gratuita, minha avó separou uma latinha de biscoitos feitos pela D. Genoca,sua amiga doceira, as famosas madeleines e mandou um bilhetinho agradecendo a paciência (ou a falta dele) para com minha pessoa. Não consegui por mais que me esforçasse ler Proust e Em Busca do Tempo Perdido, mas uma coisa eu sei: madeleines tem poder. Se não for para recordar o passado, ajudam a melhorar o presente. E a partir daí ele passou a me chamar de Ceuzinha e a mandar recomendações para D. Lucila.Vovó sabia das coisas.

Preparada para a prova eu estava. Porém, como postou Constantino num de seus twittes idiotas: ” Não honrei a liturgia do cargo”. Meus colegas eram, em sua maioria, professores universitários há anos, estavam lá por uma exigência do MEC, que passou naquele ano  a cobrar diploma de mestrado para docentes de ensino superior. Era um ambiente sisudo, sério, de camisas abotoadas no punho e echarpes esvoaçantes .Não me sentia a vontade nem no figurino e nem preparada a altura. Meu primeiro seminário foi sobre o livro Os Bichos, de Miguel Torga. Foi sorteio e caiu para mim o Cachorro Nero. Fui a primeira a falar.  Preparei um seminário sobre o autor, que muito admiro, sobre as características do cão, sobre a narrativa, sobre os cães na literatura e sobre meu convívio com eles na vida real. Terminei minha explanação e o colega ao lado iniciou sua exposição, falou sobre  outro animal (no livro Torga em cada conto trata de um animal diferente) que não me lembro qual foi, só sei que ele começou assim:”Torga me lembra aqueles realistas russos, tem a maestria de um Tchechov… e pôs- se a falar em teoria literária. Mais em teoria literária do que no personagem?  Pensei: O que eu to fazendo aqui?  A professora, nada mais nada menos que D. Cleonice Berardinelli, elogiou minha abordagem do conto, mas minha autocrítica me chicoteia até hoje. Doida pra meter um realismo russo num artigo sobre o autor e acabar com esse trauma.

Eu me vestia como era. Cabelos soltos, compridos, vestido indiano, sapatilhas boneca chinesas de veludo compradas no Largo do Machado a vinte contos cada uma. Uma profusão de colares, adorno que sempre amei. E foi exatamente por esse estilo de vestir que uma das poucas pessoas que não me olhava torto, tornou-se minha amiga e guardiã. Ela se aproximou porque, nas palavras dela, eu fazia com que ela recordasse de seu tempo de UFRJ, da década de setenta. Seu nome era Icléia, foi de uma turma de graduação em que quase todos os nossos professores da pós foram seus colegas. Entrou no mestrado com eles, cumpriu os créditos, já estava com a dissertação encaminhada, mas a contragosto de seu orientador jogou tudo para cima para viver um grande amor. Foi viver em Paris , casou-se e passou por  situações surreais, que envolvia uma sogra cafetina, horário de visitação a coroa, para não ser confundida com uma das Belas da Tarde. O romance terminou depois de quase duas décadas, ela regressou ao país, o pai estava adoentado e dava aulas numa faculdade da Região dos Lagos. Como ela dizia firme: ”Estou vivendo um recomeço. Recomeços não me assustam”.

Ela era a mão que me guiava naquele mundo acadêmico cheio de códigos e que ser sincera era quase que uma sentença de morte. Numa matéria que fiz sozinha, ela não se matriculou, passei quarenta minutos ouvindo o professor e alunos exaltando uma biografia de uma certa autora. Como não sou de falar o que não conheço, não apenas havia comprado como tinha lido o livro.  Acreditando ingenuamente que o canal estava aberto, ergui as mãos e pedi licença para falar: ” Desculpem, acho que sou uma exceção. Achei esse livro pretensioso, sem informações novas, só não fiquei totalmente decepcionada por causa das fotografias,  muitas são inéditas e lindas”. Fez-se silêncio. Alguns colegas vieram me elogiar depois pela coragem, mas hoje acho que foi falta de noção mesmo. O professor me fuzilou com os olhos. Chamei o livro que ele incensava  praticamente de álbum de fotos. E olha que Caio Castro ainda não tinha iniciado essa moda. O que eu não sabia, sequer desconfiava e Icléia me contou isso dividida entre a vontade de rir e dar uma bronca a altura, é que a autora, que praticamente chamei de embuste, era uma das melhores amigas do mestre. Isso me valeu um semestre de perseguição. E a lição de nunca mais falar mais de um acadêmico para outro.

A história que ficou inscrita na minha vida, para sempre, foi o dia que Icléia me telefonou e fez uma estranha pergunta: ”Seu pai foi aluno da artista Giorgina de Albuquerque?”. Para quem não sabe Giorgina é considerada pioneira na pintura nacional e uma das primeiras mulheres a se firmar nacionalmente como artista. Diante da afirmativa do meu pai, Icléia explicou. Sua irmã, que trabalhava no Arquivo Municipal, que abrigava vários desenhos de alunos de Georgina, se encantou com uma aquarela. Décadas atrás. Como esses trabalhos seriam descartados, ela levou para a casa esse em especial, com o intuito de colocá-lo numa moldura. O tempo foi passando, a pintura ficou lá, guardada. Nesse dia específico, da ligação, as duas vasculhavam o armário procurando antigos documentos do pai. A irmã de Icléia desenrolou a pintura e disse: ”Olha que lindo, estou para emoldurar faz tempo”. No canto da pintura um escrito com letra infantil: LCMBahiense, nove anos de idade. Sabendo da inclinação artística do meu pai e do sobrenome, achou grande a possibilidade de ser dele. Sim, era a aquarela do meu pai. Não consigo descrever a emoção do homem de mais de 50 anos se encontrando com o menino de 9 que foi um dia. E as voltas que o mundo deu para que por vias tortuosas fosse parar de novo em suas mãos. Hoje ela está emoldurada, na sala de estar.

Icléia faleceu precocemente. Mas por que estou falando dela? Natural de Palmeiras dos Índios, neta direta de uma indígena com quem conviveu, me falava de uma infância de chás curativos, de lendas que ouvia como grandes verdades ( e quem há de dizer que não eram) de simplicidade e sabedoria. No seu pequeno apartamento no Grajaú, onde comíamos camarão frito e encharcávamos a alma de cerveja, ela me falava desse elo tão forte. Não eram só alguns traços físicos herdados geneticamente , mas uma imensa desconfiança. De tudo. De caráter, de intenções, estava sempre na retaguarda. Muitos dos nossos colegas sequer lembram dela, pela vida corrida de dar aula em outra cidade e porque paciência não era sua maior virtude. Mas a mim adotou. Conversávamos muito sobre o fazer a história,  e como ela era contada. Ou como não era contada. E aí que aporto na frase do rapaz do filme: todo cuidado é pouco quando a história é escrita pelos assassinos.

Todas essas rememorações me chegaram através de um artigo do professor Ronaldo Vainfas que li recentemente. Os índios brasileiros , pelo menos na época que eu frequentava os bancos letivos, apareciam como figuração daqueles cadernos escolares em que a capa era a Primeira Missa e a contracapa o Hino Nacional. Sobre eles sabíamos que caçavam, pescavam, dormiam em ocas, eram figurantes no grande  acontecimento do Descobrimento do Brasil  e saíam de cena. Só reapareciam magistralmente no episódio do Bispo Sardinha, sobre o qual já discorri , esse era o palmo que lhes cabia nesse latifúndio. Com a lei promulgada em 2008, numero 11645, instituiu-se a obrigatoriedade de ensino e culturas indígenas na educação básica. Algo que transcendesse as carinhas pintadas das crianças no dia 19 de abril. Tenho informações que alguns professores se esforçaram nesse sentido. Discorrendo sobre a participação indígena em alguns episódios da História Brasileira, como Confederação dos Tamoios, Guerra Guaranítica, Cabanagem, entre outros.

O movimento mais expressivo, de resistência sociocultural indígena, que só fui ter ideia agora, foi  A Santidade de Jaguaripe. Vários movimentos foram chamados de Santidades, pelos próprios jesuítas, o que é um paradoxo, O primeiro a descrevê-lo foi Padre Manoel da Nóbrega, era uma cerimônia comandada por um pajé, em que os nativos em transe se comunicavam com seus ancestrais e eram rogados a batalhar contra seus inimigos ou migrar buscando outras terras.A cerimônia era associada ao pajé açu ou caraíba, o poderoso pajé que tinha como dom se comunicar com os mortos e muitas vezes de encarná-los.

Nada porém supera a Santidade de Jaguaripe, localizada no sul da Bahia. Ela surgiu em 1580, liderada por um índio que viveu num aldeamento em Ilhéus , aprendeu o básico da catequese jesuítica , foi batizado pelo nome de Antonio e fugiu. Quatro anos depois o movimento já estava organizado, nos sertões de Jaguaripe e sua função era estimular revoltas e fugas dos engenhos em toda a capitania. Incontáveis portugueses foram mortos e engenhos queimados. Segundo Vainfas: “Os pregadores da Santidade  exortavam os fiéis a fugir dos brancos e atacá-los, acenando que o triunfo total estava próximo e com ele viria uma nova era de prosperidade a abundância. Os índios não precisariam mais trabalhar porque as flechas caçariam sozinhas nos matos, os frutos brotariam sem que ninguém plantasse. As índias velhas voltariam a ser jovens e os homens se tornariam imortais. Todos os portugueses seriam mortos ou tornar-se-iam escravos dos mesmos índios que também escravizavam. O triunfo seria a Terra dos Sem Males, o paraíso tupi”.

O crescimento da revolta apavorou os portugueses. O governador Teles Barreto até tentou organizar uma expedição no sertão, mas não conseguiu atingir o núcleo onde estava o líder Antonio. Aí que entra um personagem que acaba sendo protagonista desse evento. Um senhor poderoso de Jaguaripe, Fernão Cabral de Taíde, fidalgo, natural do Algarve, de confiança do governador. Fernão combinou com o governador que mandaria mamelucos de sua confiança, que falavam a língua dos nativos,  que deveriam atraí-los para as suas terras, prometendo que o lema seria liberdade: Os homens poderiam possuir varias mulheres, poderiam bailar e fumar a vontade, teriam toda a liberdade de cultuar seus ídolos, sem a presença de padre e nem cativeiro. O governador concordou achando que era a preparação de uma emboscada.

O que Teles não contava era que esse senhor Fernão não valia um pequi roído. Ele não tinha intenção alguma em devolver os índios. Ainda que se tenha sérias desconfianças que ele estava mesmo era formando trabalho braçal para ele, o que se sabe de sua biografia é que tinha tara por índias, assediou a própria cunhada, foi um senhor de escravos violentíssimo, mas gostava mesmo era de festa, orgia , birita e gandaia. Transe, sexo a vontade, cauim liberado,  música, muito maracá, igreja própria sem seguir ritual, só indo na onda do hibridismo que se formou entre a catequese e as crenças indígenas, ajudando inclusive a estimular fugas e rebeliões em todas as capitanias , numa escala muito superior que antes. A fazenda do homem foi transformada numa rave indígena, principal refúgio de índios aldeados ou cativados da Bahia. Foi assim que durante seis meses esse senhor construiu a primeira sociedade alternativa que se tem ideia no Brasil Quinhentista.

O fim da História é que o Governador cansou do abuso, organizou uma nova expedição, na minha humilde opinião tava todo mundo tão chapado que não houve resistência a prisão, os índios  foram reescravizados e devolvidos as antigas missões , os principais líderes desterrados e o líder Antonio, que não era bobo nem nada, sumiu sem deixar rastro. Em 1591, a Inquisição de Lisboa aqui esteve e prendeu o festeiro dono da taba.Foi encarcerado, denunciado, passou um ano fechado no Colégio dos Jesuítas. Sua condenação foi sair em auto público, ouvir a leitura de sua sentença, pagar uma grana bem elevada e foi desterrado  da Bahia por dois anos. Dessa visitação  resultam inúmeros documentos, que estão em Lisboa, sobre os seis meses mais lokos e bem vividos de toda a História do primeiro século do Brasil dominado por Portugal. Há coisas que por mais que tentem, não se apagam. E precisam, muito, ser contadas.

 

PS: Segue uma pequena bibliografia com os pormenores da história, para quem tiver interesse. Para quem quiser entender essa mitologia paralela entre a teologia cristã e a transposição para as crenças tupis, Alfredo Bosi e a sua Dialética da Civilização é essencial. ”Anchieta ou As Flechas Opostas do Sagrado”  é leitura Indispensável. O Dicionário do Brasil Colonial , de Vainfas, cita nome por nome, acontecimento por acontecimento, direcionando melhor a leitura e o entendimento. Mas é na obra A Heresia dos Indios: Catolicismo e Rebeldia no Brasil Colonial, de Ronaldo Vainfas, São Paulo: Cia das Letras , 1995, que o autor esmiúça todo esse movimento, traçando ligações que vão do imaginário europeu medieval a seus desdobramentos no Brasil recém descoberto.

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