ter. ago 11th, 2020

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Tecidos da vida

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A palavra tecido é usada, em geral, numa conversa sobre roupas, se o tecido é de algodão, seda, linho, entre tantas combinações. Entretanto, há os tecidos da vida, pois o tecido, o fio, com que é feita a vida de cada um, são símbolos do destino. A vida é feia por tramas, que se originam nas identificações como é eleição do nome próprio, uma expressão do desejo dos pais. A palavra tecido vem do latim “texere”, construir, tecer, mas já no século XIV a palavra atingiu o sentido de tecelagem como estruturação de palavras, ou composição literária. E aí se cria a palavra “texto”, que faço neste momento, costurando as palavras fios invisíveis.

E foi num texto de Antonio Candido que li sobre o tecido da vida:
“O capitalismo é o senhor do tempo.
Mas tempo não é dinheiro.
Isso é uma monstruosidade.
O tempo é o tecido da nossa vida”.
Muitos caminhos se abrem a partir da expressão “tecido da nossa vida”, pois a vida de cada um é um drama, uma trama, assim como a vida de uma família, a história de um país. Em Psicanálise se parte do drama de uma pessoa, e agora, por exemplo, recordo um conhecido que me escreveu sobre não saber mais quem ele era. Funcionário federal, trabalho enfadonho em suas palavras, tinha encontrado na música, na bateria, sua alegria. Tocava muito bem, integrava vários conjuntos, e agora se sente perdido, sem banda, sem tocar sua bateria, inquieto, e se pergunta quem mesmo ele é hoje e o que será o amanhã. Pensei na cigarra vivendo seu inverno, e hoje os artistas vivem seu pior inverno, e nós com eles. A vida sem arte perde o brilho, é uma vida tristonha, empobrecida.

Em tempos de pandemia, cada história pessoal, as insônias, as ansiedades, o cotidiano vai sendo tecido em tempos lentos e inquietantes. Ainda bem que a primavera se aproxima, e depois virá o verão, e, lentamente, a vida vai melhorar, pois chegarão os tecidos coloridos. As roupas serão outras, devem diminuir as mortes, e com coragem e sorte serão construídos novos caminhos. Todos estão desafiados a criar, a inventar as estradas novas que hoje passam pelas redes, pela realidade virtual, mas já, já se encontrarão com a realidade presencial. Mais do que nunca é indispensável a imaginação, cada dia é preciso paciência para seguir tecendo a vida nas parcerias solitárias e solidárias.
O tempo é o tecido de nossa vida, ao contrário do que escutamos, de ser o tempo é dinheiro como se aprendeu com essa frase em inglês: Time is Money. Frase pobre com que os milionários gostam de encher a boca e os bolsos. Um dia escutei que nos Estados Unidos, quando alguém se exibe, lhe perguntam: “Quantos milhões já fizeste?”. No capitalismo o poder é medido pelo dinheiro. Que maravilha os que perguntam sobre os amores, os ardores, as graças, a música que toca o coração, ou conversar sobre as histórias que a gente vive e já viveu.

É tempo de aprender, e a cada dia se pode aprender algo novo ao ler, ao ver um filme, ou os encontros nas redes. É bom sonhar, plantar, e lutar para levantar o ânimo, levantar a cabeça, levantar o astral, para não sucumbir. É verdade que os tempos são traumáticos, tempos de medo, logo convém buscar bons amparos, apoios seguros. Há motivos de sobra para queixas, mas um dia essa loucura irá diminuir, e a gente se abraçara e novos amores nascerão. E então as pessoas irão para os parques, o Jardim Botânico, museus, shows, num congraçamento como nunca antes já se viu. Esse dia há de chegar, e eu estarei lá, com certeza, e convido a vocês para comemorar a vida sem medo.

P.S.: Agradeço muito a turma do face, pelas palavras e os cliques da semana passada, pois é assim que se podem afrouxar os nós da nossa solidão.

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