ter. jun 2nd, 2020

Mauro Nadvorny & Amigos

A Voz da Esquerda Judaica

Raízes do Ódio

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Santo Agostinho, em seu livro “Confissões”, escreve sobre uma criança dominada pela inveja. Inveja de um irmão menor que mamava no seio de sua mãe: “Ele ainda não falava e já contemplava, muito pálido e com um olhar envenenado, seu irmão de leite”. A criança, de um ano e sete meses, foi despojada do objeto de seu desejo escreveu Lacan. Ver o bebê mamando reativou a dor da frustração primordial do menino na separação da mãe. Essa inveja fraterna gera ódio, afeto anterior ao amor. A chocante frase “o ódio é anterior ao amor” foi escrita durante a Grande Guerra, que revelou o quanto à crueldade em busca do poder não tem limites. Na cena da inveja do menino pelo seio da mãe está em jogo o poder, diferente do poder em jogo entre as nações, mas em jogo está sempre o poder. Poder fálico baseado numa equação de equivalências simbólicas como o dinheiro, o ouro, entre outros. As relações entre o individual e o social constam na abertura do livro “Psicologia das Massas e Análise do Eu” de Freud. Escreve que a psicologia individual é simultaneamente social num sentido mais amplo. Entretanto, o “Eu” pode ser analisado, a massa é só objeto da Psicologia, onde são abolidas na massa as diferenças individuais. Do semelhante ao mesmo é o lema da massa, o incompatível é atirado para fora.

O primeiro crime narrado no Gênesis é efetuado por Caim, que mata seu irmão Abel por inveja. Sobram crueldades na Bíblia, bem como na “Ilíada” e “Odisseia”. A inveja, nesse sentido, advém como protótipo de um drama social: o outro constitui, ao mesmo tempo, o modelo e o obstáculo à satisfação do desejo pela substituição dos objetos desejados. O assustador nessa história é quando o ódio está a serviço da paixão fanática, do amor ao ódio, dos irmãos que se unem no ódio ao inimigo. O inimigo precisa ser torturado, preso, eliminado, como no racismo, nas guerras religiosas, a guerra civil.

Há ao menos dois destinos para o ódio: um é o ódio como potência de ação, gerando um renascimento, a criação do novo. É o ódio transformado através das sublimações: amor, trabalho, esportes, arte, humor. Um segundo destino ao afeto do ódio é o do amor à destruição dos adversários, que podem ser irmãos, guerras fraternas, ou o ódio da melancolia voltado contra si próprio. O ódio é central nas paranoias, nos fanatismos, em que o inimigo é o culpado por tudo de ruim que ocorre. E sempre é o poder que está em jogo através dos preconceitos, a segregação, como a que existe contra os negros, os estrangeiros, índios, pobres. São pesadelos sociais, capazes de maldades como ocorreu, por exemplo, na Alemanha Nazista. Impressiona como a pátria de Goethe, Kant e Beethoven, projetou nos judeus o grande inimigo a destruir. O livro “Os Alemães”, de Norbert Elias, narra como os alemães abandonaram os valores humanistas a partir do século XVII. No Iluminismo cresceu o antissemitismo chegando ao nazismo; muitos não acreditaram nas ameaças de Hitler. Foi a partir de uma vitória eleitoral, de uns trinta por cento do eleitorado, que se chegou a uma das mais cruéis ditaduras.

Porque o ódio no Brasil cresceu tanto? Após 25 anos da vitória da Constituinte de 1988, foi sendo organizada uma poderosa força conservadora. A sociedade brasileira, é bom lembrar, tem suas raízes na escravidão, em sistemas autoritários como a ditadura militar. O ódio represado contra a democracia irrompeu, pois já Maquiavel tinha alertado que preconceitos são mais poderosos que princípios. Hoje uma minoria pode tudo: corromper, destruir a natureza, matar. Seu lema: Tudo para nós, nossas famílias, as migalhas para a maioria. Um exemplo recente teria espantado Santo Agostinho com a violência do restaurante de Gramado, festejando a morte. Agora, lentamente, os artistas se levantam, assim como um grupo da torcida do Corinthians. O povo silencioso segue os corajosos governadores e prefeitos. O confronto é entre a crueldade dos que ambicionam tudo e a maioria que luta para sobreviver.

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