ter. ago 4th, 2020

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capitulo 06, parte 02

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Nietzsche, o filósofo anti-religioso alemão, escreveu que as grandes mudanças entram em nossas vidas como pombos pisando leve ao entrar em uma catedral, ou no caso uma sinagoga. Tudo começou com uma inocente partida de futebol. Todas as terças e quintas a Escola Britânica nos levava a um campo de futebol oficial em Botafogo. Tal como a confusão que estava por acontecer, tudo naquelas partidas era desproporcional: o campo era grande demais para jogadores de dez anos e a distância entre as traves era grande demais para os goleiros. Quando driblávamos um adversário e olhávamos adiante, ainda parecia haver quilômetros para se chegar ao gol. Para os passes, quase não dava para ver os companheiros e as corridas eram exaustivas. Para piorar as coisas, o professor levava as nossas atuações a sério e parava tudo para marcar o menor dos erros.

Foi um alívio ouvir o apito final. Não via a hora de pegar o ônibus da escola que nos levaria ao clube Paissandu onde iria jogar uma partida muito mais agradável de futebol de salão. No entanto, quando entrei o motorista perguntou meu nome, olhou a lista e me mandou descer. Alguém na secretaria tinha se confundido e havia me colocado na lista das crianças que iam voltar para casa em vez das que iam ao clube. Sem saber o que fazer e ansioso pela confusão que o erro ia causar, contei o problema ao professor mas ele disse que não podia fazer nada. Sem querer aceitar um não como resposta, pedi uma carona a um amigo que estava indo para o clube após sua aula de judô na escola. Ele disse que sim e o professor concordou, mas não deve ter contado para mais ninguém.

Voltamos para a escola onde todos, fora nós dois, pegaram seus ônibus para casa. Fiquei uma entediante hora e meia no pátio vazio assistindo o instrutor jogando o Martin para lá e para cá ao redor do tatame. 

Depois da aula, quando sua mãe chegou e ouviu sobre a promessa de carona, deu uma bronca no filho dizendo que ele sabia que não ia ao clube depois do judô. Com pressa de voltar para um compromisso em casa não ia dar para me levar até o Leblon. Contudo, entendendo a situação que o filho tinha me colocado e sabendo que não tinha como me deixar sozinho na escola, ela se viu obrigada a me dar uma carona até Copacabana, que ficava mais à mão. 

A caminho de casa, fiquei pensando no tamanho do problem.

Quando não apareci no clube com o ônibus escolar, dona Renée telefonou a escola para perguntar o que havia acontecido. Alguém atendeu e deu a resposta inacreditável de que não sabiam. Essa era uma época em que a guerrilha urbana estava sequestrando estrangeiros para trocá-los por camaradas na prisão. Obviamente não pertenciamos ao grupo de risco – diplomatas e altos executivos – mas a paranoia fez com que, em pânico, Renée saisse ligando para todo mundo. 

Ao me ver chegar em casa, a empregada enlouquecida pelos telefonemas incessantes da patroa, entrou em parafuso. Alguém teve a ideia de me colocar num táxi para ir ao clube. Ela e o porteiro, Zé, desceram na rua e chamaram o primeiro que apareceu. Da minha parte, aquilo era uma aventura eletrizante; ali estava eu, com dez anos de idade, andando de carro sozinho com um motorista desconhecido e me abaixando sempre que passávamos por policiais porque, na minha cabeça, aquilo era ilegal.

Quando minha mãe descobriu o que havia ocorrido, ficou furiosa. As coisas pioraram quando ficou sabendo que o novo diretor, um ex-oficial disciplinador da Marinha Real, havia me culpado pelo incidente. Começaram a aparecer avisos nos murais dizendo que todos podiam fazer isso ou aquilo menos eu porque que era um irresponsável. Meus pais decidiram que a marcação do diretor era inaceitável.

Foi assim que deixei o casulo protetor da Escola Britânica para entrar no universo escolar brasileiro. Na verdade, o início da experiência não foi cem por cento brasileiro. Meus pais resolveram me colocar numa escola judaica, o Eliezer Steinberg, uma aposta segura, pelo menos até que soubessem o que fazer comigo. De minha parte, a mudança foi bem-vinda, mas havia obstáculos. As salas tinham pelo menos o triplo de alunos, as aulas eram todas em português, o currículo era mais avançado em ciências e em matemática e havia matérias que teria que começar do zero: o hebraico com seu alfabeto diferente, o iídiche e a história judaica. Quando a poeira baixou me dei conta de que era bem diferente dos meus colegas. Como era de se esperar, diante de minha situação social frágil havia novos inimigos para pegar no meu pé.

*

Apesar da escolha da escola judaica e da inescapável herança cultual, meus pais – assim como todos seus amigos – se viam como ateus. No entanto, quando ficou patente que a estadia no Brasil era permanentemente,  decidiram utilizar a religião para dar a Sarah e a mim um senso de identidade. Os rituais foram ficando mais presentes. Começamos a acender velas de Shabbat nas noites de sexta-feira e a observar os feriados religiosos mais importantes. Nos tornamos sócios de uma sinagoga, a ARI, a Associação Religiosa Israelita, uma congregação não-ortodoxa de judeus asquenazis – provenientes da Europa do Leste. 

Embora fosse divertido encontrar com amigos no templo, não gostava da formalidade pretensiosa daquela congregação orgulhosamente pertencente à classe média alta. Nas datas importantes o lugar lotava. Igual a todos, íamos para marcar presença. Tinha que colocar minhas melhores roupas e ficava incomodado de ter que andar pelas ruas de Copacabana parecendo um principezinho gay enquanto todos continuavam levando suas vidas normalmente. 

No dia mais solene do calendário religioso, o Yom Kippur – o dia do perdão – a nação inteira jejuava por vinte e quatro horas e a vida girava em torno de súplicas pelo perdão divino. Na ARI, os adultos permaneciam dentro da Sinagoga se submetendo à uma maratona interminável de sessões de orações. Conforme o dia ia passando, lutavam contra suas culpas e contra fome e a sede crescentes. Enquanto isso, meus amigos e eu ficávamos do lado de fora, sem ter o que fazer. 

O ponto alto deste feriado – e do calendário Judaico – era seu fechamento apoteótico. Concluídas as rezas e as meditações silenciosas, fechavam a arca com os textos sagrados. Em seguida o rabino chamava um especialista para tocar o Shofar; um chifre de carneiro transformado em instrumento musical. Seu toque ritual soava como um trompete alto. Aquele som era como um chamado de um passado longínquo no deserto, conclamando o povo nômade a despertar para algo que ainda estava muito vivo. 

*

A verdade é que o único milagre alcançado nessa, e em outras, datas importantes era o de nos sentirmos mais judeus. No entanto, acima das tradições religiosas e da memória do Holocausto, naquela época o que mais unia a nação era o Estado de Israel. O mundo havia ensinado à geração de meu pai que, se você fosse um judeu vivendo numa terra estrangeira, por ódio e por preconceito o povo local podia atirar você e sua família numa câmara de gás. Fariam isso sem se importar no que você acreditasse ou como você fosse enquanto indivíduo. Tudo isso com a benção do Estado. Para aquela geração, uma pátria judaica era a única forma de garantir a sobrevivência dos seus descendentes. O fato de que isso tivesse acontecendo na terra prometida ao nosso povo na Bíblia era nada menos do que intervenção divina.

Com os triunfos militares, veio a euforia da transformação de uma nação de vítimas indefesas em uma potência militar. Essa febre varreu o mundo judaico e nossa casa não foi exceção. Rafael só lia livros escritos pelos líderes sionistas e fazia doações generosas à causa. Em nossos círculos, a mera menção dos palestinos era considerada uma traição. Mesmo assim, uma parte de mim não comprava aquele entusiasmo. Por toda a história da “terra prometida”, pouquíssimas partes envolvidas em seus inúmeros e infindáveis conflitos entenderam que estabilidade e segurança exigem compromissos. A agenda de nacionalistas ateus em usar a Bíblia como justificativa para tomar posse exclusiva de uma terra considerada santa pelas três maiores religiões do mundo, lar de uma população que vivia lá a séculos, pronta para lutar para reaver o que era dela, acabaria certamente em tragédia.

Eu pude ter uma ideia clara sobre a realidade da vida em Israel por intermédio de um de meus melhores amigos, Uri. O pai dele, Ossi, cunhado do Paulo, trabalhava com meu pai. Quando jovem, havia servido no exército de Israel na guerra da independência e veio para o Brasil logo depois. Nascido e criado na França, com um charme a lá Humphrey Bogart e um senso de humor seco, fazia sucesso com as brasileiras. Porém, como mandava a tradição, acabou se casando com uma belíssima ex-atriz israelense, mãe do Uri e do seu irmão mais novo, Dicki. O casamento acabou não dando certo e ela voltou para sua terra com os filhos 

Os irmãos tinham uns dez anos quando isso aconteceu e não queriam ir. Também não queria, a gente era como família, mas pelo menos a amizade sobreviveu.  Os dois passariam a vir todos os anos para o Rio a fim de passar as férias com o pai. Nas nossas conversas, me fizeram ver como era difícil a vida na “Terra Prometida”. Israel era um país sitiado, sempre em pé de guerra, com alistamento obrigatório de três anos para todos os meninos e todas as meninas e com constantes ações e ameaças terroristas. Os dois me fizeram reconhecer a sorte de estar crescendo no Rio. No entanto, o que mais chamava a atenção sobre a maneira deles encararem o conflito, era que enxergavam os palestinos como seres humanos, mesmo durante e depois de servirem o exército. Por outro lado, Rafael e seus amigos – que nunca teriam que enfrentar um inimigo armado em um campo de batalha – os enxergavam como sub-humanos e tinham opiniões muito mais agressivas. Eu via em Uri e em seu irmão uma forma mais saudável de ser judeu, livre da claustrofobia da comunidade judaica do Rio de Janeiro. Aquela perspectiva me ajudou a impedir que o antissemitismo, real ou imaginário, moldasse meu caráter.

*

Como é o caso com qualquer garoto “brimo”, quando fiz treze anos chegou a hora do meu Bar Mitzvá. Essa é uma cerimônia de iniciação em que iniciantes são convidados a ler das escrituras sagradas pela primeira vez na frente da comunidade. Todos tinham que fazer. 

O primeiro passo foi conseguir um professor. Nossa preferência era o cantor principal da sinagoga, o chasan Aaronson, um homem imponente com uma voz poderosa. Quando entoava as preces com sua voz ensurdecedora, balançava seu corpo freneticamente enquanto contorcia seu rosto. Inacreditavelmente, o cuspe que jorrava da sua boca acabava parando até em seus óculos “fundo de garrafa”. O problema era que suas aulas eram caras demais. Daí partimos para a segunda opção: um cantor baixinho e gorducho, também por volta dos 60 anos, que também usava óculos “fundo de garrafa” mas que cantava mais introspectivamente e usava uma indumentária menos dramática. Seu status era secundário, principalmente depois de caír em desgraça pelo de seu hábito de cochilar em frente à congregação em ocasiões importantes.

No começo, fiquei fascinado pelas aulas. A parte da Torá que ia recitar versava sobre o ano sabático, algo que a partir dali consideraria como um conceito utópico que, caso adotado, colocaria o mundo de volta nos trilhos. A lei ditava que a cada sétimo ano, todos os israelitas – bem como sua terra e seus servos – deveriam descansar por um ano inteiro. Ao fim de 49 anos, isto é, depois de sete sabáticos, quem quer que houvesse comprado terra nesse período, deveria devolver a propriedade aos donos originais para que, no final, ninguém se tornasse mais rico ou pobre que os demais.

O professor morava em Laranjeiras, um bairro que para mim era afastado. As aulas eram num quarto abafado cheirando a mofo. Nelas, aprendia como cantarolar o trecho em hebraico bíblico. Ficávamos repassando aquilo uma vez atrás da outra, sentados em cadeiras desconfortáveis e nos escorando numa velha mesa de madeira coberta de pilhas de livros religiosos. Depois da terceira ou quarta aula, a experiência passou a ser insuportável. Tinha que lutar para me manter acordado todas as vezes que aquelas páginas se abriam na minha frente. 

Um dia, completamente do nada, senti – e depois vi – a mão gorda do meu mentor rastejando pela minha coxa e indo parar no meu “shlong” de treze anos de idade. Ele continuou a ler o livro e a agir como se nada estivesse acontecendo. Apesar de ter sido só uma apertadinha, fiquei completamente chocado e sem vontade nenhuma de voltar para aquela salinha.

Quando contei para meus pais o que havia acontecido e pedi para não ter mais que pegar aulas, acharam que a minha “história” era só mais uma desculpa. Para minha sorte, de acordo com o plano de curso da sinagoga, aquelas aulas  terminaram logo e passei para a próxima etapa; os ensaios finais no shul – ou sinagoga em iídiche. Com isso, de uma só tacada, me vi livre da chatice tortuosa e da bolinação. Porém, meu respeito pela religião organizada tinha sido abalado.

No dia da grande ocasião, a sinagoga estava cheia de rostos conhecidos; amigos do meu pai, amigas da minha mãe a amigos de turma e do futebol. Até a Bibi tinha comparecido. Estava tão nervoso que fiquei com um tique no olho que durou semanas. Quando minha hora chegou, o jovem rabino de Nova York, ruivo com um bigode e óculos redondos – parecido com o Ned Flanders dos Simpsons – me chamou para ler a Torá. Quando acabei, deu um sermão constrangedor dizendo entre outras coisas supérfluas, que eu gostava de dançar rock e de fazer surfe.

Caso fosse um judeu ortodoxo, aquilo teria sido um rito de passagem. Daquele dia em diante seria responsável por meus atos em termos de punições e de recompensas divinas já que passaria a ser um estudante das leis sagradas. Para os meus pais aquilo tinha sido o prosseguimento de uma tradição obsoleta e uma oportunidade para mostrar seu status social. Para mim tinha sido uma desculpa para ganhar presentes caros. 

Depois de tudo terminado, havia de fato passado para uma nova etapa de vida: meu cabelo estava crescendo ao mesmo tempo que os hormônios estavam modificando meu corpo e a minha voz. Minha iniciação para ser homem tinha acontecido na praia pegando ondas grandes e nas machanés. Passei a ver a sinagoga como um ponto de encontro para coroas que, sob a pretensão de serem religiosos, iam ali para fazer e cultivar contatos comerciais e profissionais. No meu entender, aquele teatro e a pegadinha do professor nunca representariam o caminho para uma verdade superior.

Já que a norma adotada pelos judeus modernos era a de ser ateu, por que deveria perder meu tempo com aquilo? Se queriam usar tradições do Leste Europeu e o medo para me manter preso dentro de uma cerca, o plano não funcionaria no Rio de Janeiro dos anos 1970. Além disso, apelar para o sionismo como forma de manter a comunidade unida parecia ridículo: se nossos pais haviam escolhido emigrar para o distante Brasil em vez de terem tido a coragem de lutar por Israel, que comprometimento podiam exigir de nós? 

Um dia durante o jantar tentei conversar com meu pai em ídiche, que estava aprendendo mal e porcamente na escola. Ele ficou horrorizado ao me ver falar a sua língua natal e resolveu me tirar do Eliezer Steinberg. Vai entender…

… 

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