ter. ago 4th, 2020

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Jair Bolsonaro, o nazismo e a banalidade do mal

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O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em manifestações contra medidas de isolamento e distanciamento social, feitas para combater o novo coronavírus

Ao cobrir para a revista The New Yorker o julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann, em 1961/62, a filósofa judia de origem alemã, naturalizada americana, Hannah Arendt, criou um conceito que entraria para a história: a banalidade do mal.

Enquanto o processo corria em Jerusalém em torno dos muitos ismos – nazismo, antissemitismo, racismo, eugenismo – Arendt se consagrava a tentar compreender a relação entre o homem Eichmann e os seus atos. Chegou assim à conclusão que o oficial SS, apesar de ter sido um dos altos responsáveis da “solução final”, que visava exterminar os judeus da face da Terra, não era uma “bête furieuse” como ela própria imaginava e sim um funcionário medíocre do 3° Reich. E de forma mais ampla, que o “mal não reside no extraordinário e sim nas pequenos atos cotidianos que levam a cometer crimes abomináveis.”

Nessa série de artigos, depois transformada no livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil – Eichmann em Jerusalém Uma reportagem sobre a banalidade do mal -, Hannah Arendt defende a tese de que o nazista abandonou o poder de pensar para obedecer ordens cegamente. Em outras palavras, que ele perdeu a capacidade humana de distinguir entre o bem do mal, sem nenhum motivo, convicção pessoal nem intenção. Resumindo, Eichmann perdeu a capacidade de elaborar julgamentos morais.

Do ponto de vista filosófico, isso equivale a dizer que os crimes terríveis cometidos pelo responsável da logística da Shoá não foram cometidos porque ele era mau, e sim porque era medíocre.

Para Arendt, continuar a pensar e se questionar sobre si mesmo e seus atos, é uma condição sine qua non para não cair na banalidade do mal.

As reflexões da filósofa-jornalista me parecem importantes para tentar entender o fenômeno Bolsonaro.

Um simples exemplo: na sexta-feira, dia 8 de maio, mais um dia de recorde de mortes pelo coronavirus, o presidente ignorava voluntariamente 10 mil mortes para ironizar e anunciar um churrasco no Palácio da Alvorada no final-de-semana para 30 ou 3.000 convidados. No fundo, o número pouco importa, pois ao organizar o churrasco desobedeceria as recomendações das autoridades de saúde, do Brasil como do resto do mundo.

Questionado pelos jornalistas se promover um churrasco com aglomeração de pessoas não seria um mau exemplo, o Jim Jones brasileiro convidou os apoiadores que estavam na frente do Alvorada a participarem da festa.

O presidente foi questionado seis vezes pelos veículos de imprensa se o gesto não era um exemplo negativo para a população. Ele, no entanto, não respondeu e continuou a brincar, ameaçando, com um largo sorriso, retirar a classificação do trabalho jornalístico como atividade essencial durante a pandemia, em mais uma ameaça à liberdade de imprensa.

O churrasco não se realizou; Bolsonaro trocou a carne assada por um passeio de moto aquática, sempre desrespeitando o distanciamento social. Naquele exato momento, o Congresso hasteava a bandeira a meio-pau em sinal de luto pelos mortos da pandemia.

Os apoiadores do capitão, sempre prontos a gritar “Mito! Mito!”, poderiam me perguntar o que um churrasco fake e um passeio de jet ski têm a ver com Eichmann e a banalidade do mal. Explico:

Hannah Arendt talvez tenha se enganado ao ver em Adolf Eichmann “apenas” um funcionário medíocre e não o monstro que ele era realmente, além de um artista hors pair, capaz de mentir descaradamente durante todo o processo sem um piscar de olhos nem um pingo de arrependimento.

Jair Bolsonaro, outro mentiroso contumaz, talvez não tenha entendido o recado dos jornalistas, que o fato de organizar uma aglomeração em meio à pandemia era um mau exemplo. Ou talvez se comporte assim por incapacidade de diferenciar o bem do mal, que nos guia desde Adão, Eva, deus e a serpente.

Um estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, concluiu que ao menos 10% dos casos de covid-19 no Brasil se devem aos atos e palavras do presidente. Municípios bolsonaristas têm quase 30% mais casos de infecção que os demais.

Talvez Jair Bolsonaro sofra de alexitimia, uma espécie de analfabetismo emocional. Ou de esquizofrenia, por ter tido uma aprendizagem deficiente da expressão dos sentimentos na infância e adolescência, no seio familiar. Ou seja, um psicopata perverso. Pouco importa o diagnóstico, para o Brasil e os brasileiros só interessa o resultado … catastrófico.

Do ponto de vista filosófico, a banalidade do mal, tal como descreveu Arendt, deve-se assim a uma “ausência de pensamento crítico”. O que parece ser o caso do presidente e de seus seguidores. No período nazista, poucos foram aqueles que pensaram por si mesmos e souberam distinguir o bem do mal, agindo de acordo com estes conceitos.

Mas a maioria preferiu ignorar o imperativo categórico kantiano dos princípios morais que devem ser observados incondicionalmente.

Para a filósofa-jornalista, o fato de “não pensar” não constitui uma fatalidade imposta por uma força externa insuperável. É antes o resultado de uma escolha pessoal.

“Pensar”, escreveu, “é uma faculdade humana, seu exercício é responsabilidade de cada um” – tanto no caso de Adolf Eichmann, como no de Jair Messias Bolsonaro.

Ambos parecem incapazes de formular julgamentos morais.

Assim também, os apoiadores e próximos de Hitler optaram por desistir do pensamento crítico para seguir irrefletidamente seu líder, da mesma maneira que os fanáticos de Bolsonaro.

Na “Banalidade do Mal”, Hannah Arendt conclui que o fato de abandonar voluntariamente a capacidade de pensar não faz de alguém um inocente, ao contrário, é um fator agravante: os crimes de Eichmann são portanto imperdoáveis. Ao que eu acrescento: os de Bolsonaro também.

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