qui. abr 9th, 2020

Mauro Nadvorny & Amigos

A Voz da Esquerda Judaica

Samba Perdido – Capítulo 02, parte 2

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Igual a inúmeros imigrantes que através dos séculos partiram da Europa em busca de ares mais brilhosos, ao decidir imigrar para o Brasil meus pais estavam mais interessados na promessa de felicidade do que a realidade que iriam encontrar. Na empolgação, sem conhecer nada do país, foi como se tivessem sido influenciados por um comercial enganoso: se encantaram com as cenas lindíssimas de praias mas não prestaram atenção no contrato mencionando o pântano traiçoeiro logo atrás. A verdade é que o Brasil, mesmo naqueles anos dourados, era muito mais complexo do que a Zona Sul carioca. Atolar a vida num terreno perdido e lamacento era uma possibilidade muito real.

Enquanto suas vidas gravitavam em torno da criação de um personagem especial, sucesso financeiro e um processo de adaptação mal resolvido, os filhos chegaram. Primeiro veio minha irmã, Sarah, e cinco anos mais tarde foi a minha vez. Quanto ao nosso futuro, havia um sinal de aviso na passagem mais bonita do Hino Nacional: “Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil”.

Foi assim que nasci em 1962 no há muito demolido Hospital dos Estrangeiros, no morro da Babilônia, entre os bairros de Botafogo e de Copacabana. Como veremos, o local e o endereço não poderiam ter sido mais emblemáticos.

*

Talvez para se manter são, meu pai se reconectava com o seu universo em caminhadas de madrugada pela praia deserta. A paz e a simplicidade daquelas horas lhes eram familiares. Rafael se sentia bem dividindo o bairro com empregadas em busca do primeiro pão quentinho – seu cheiro maravilhoso saindo das padarias e se dissipando na maresia fria das ruas desertas –, com raros porteiros zelosos limpando as entradas dos edifícios e com bandos de cachorros vira-lata correndo atrás de caminhões de leite e de jornais.

Às vezes, ele me levava junto e eu adorava. Depois de atravessar a avenida deserta, tiravamos os chinelos e cruzavamos a areia húmida até chegar na beira da água. Lá, com a praia só para a gente, começávamos nossas caminhadas. Na falta de outro assunto, e talvez precocemente, eu puxava conversas existenciais lhe perguntando sobre o significado da vida, sobre a existência de Deus, do porquê das coincidências, de como era possível explicar a sorte e outras coisas que não conseguia entender. O que​ sabia, Rafael respondia da maneira mais fácil possível e quando não tinha resposta, mudava de assunto. Conforme as conversas iam ficando mais interessantes, o sol dissipava a bruma enquanto o mar desmanchava nossas pegadas na areia molhada.

As andadas eram sempre até a colônia de pescadores no Posto Seis, na ponta da praia de Copacabana. Sua sede era uma das primeiras construções do bairro: um velho barracão de madeira onde vendiam sua pesca aos donos dos restaurantes, ao comércio e aos moradores dos arredores. Ao lado do depósito, dúzias de pequenos e coloridos barcos pesqueiros de madeira descansavam sobre a areia em meio a redes. Gaivotas disputavam os restos da pescaria com cachorros magros, observados por jumentos sonolentos e bodes amarrados. Ao seu redor, enxames de moscas zuniam no cheiro forte de sal e de peixe podre que permeava o ar.

Os pescadores, morenos de ar não urbano, partiam em grupos de cinco ou seis antes do amanhecer. Os mais experientes ficavam na praia coordenando a atividade através de gritos, assobios e sinais. Quando chegávamos à colônia, os barcos já estavam voltando. Para tirá-los da água, os homens deitavam troncos de árvores na areia à frente das embarcações e as empurravam com toda força até que chegassem na área seca já próxima da avenida.

Os peixes vinham logo depois, presos em redes gigantescas. O momento de puxá-las para fora do mar era um mini festival. Os pescadores sempre precisavam de reforços e nunca faltavam voluntários. Um grande círculo humano se formava trazendo as centenas de criaturas, pulando em todas as direções tentando se libertar. Enquanto se contorciam na areia em busca de ar, os patrões separavam os melhores pescados e deixavam o resto para os que haviam ajudado.

Às vezes, meu pai me deixava participar. Como todo mundo, depois de suar e de maltratar as mãos puxando as cordas, fazia questão de aceitar os peixes que ofereciam. De volta em casa, invariavelmente meus troféus acabavam no lixo, ou por serem pequenos demais ou por não serem bons o bastante para os jantares pretensiosos.

*

Poucas horas mais tarde, era a vez das famílias. Elas saiam dos prédios rumo à praia tal como cardumes surgindo das barras dos rios e nadando em direção ao mar. A manhã começava com babás ou mães girando o pé do guarda-sol para dentro da areia até que o cabo se firmasse. Quando não conseguiam, sempre havia por perto vendedores ambulantes de picolés, homens alugando cadeiras de praia ou salva-vidas para dar uma mão. Findo o processo, abriam os guarda-sóis que passavam a fazer parte do cenário de pontos coloridos na areia dourada. Depois era hora de estender as toalhas, desdobrar as cadeiras e, por fim, liberar as pranchas, bolas e baldinhos para a gente brincar com os amigos.

Para a criançada, a praia era um parque de diversões sob o sol escaldante. Brincávamos no raso correndo atrás de cardumes de peixinhos na água transparente, nos enterrávamos na areia, levantávamos barragens para conter as ondas, caçávamos tatuís – bichinhos que viviam debaixo da areia molhada – cavávamos túneis, construíamos castelos e fazíamos guerras de areia.

Para descansar, a gente se sentava na beira da água e ficava olhando o fluxo constante de pessoas que iam e vinham. De tempos em tempos, os adultos acenavam para a gente voltar ao guarda-sol. De volta às bases, mandavam a gente se limpar e paravam um dos vendedores ambulantes que cruzavam a praia carregando caixas de isopor com picolés da Kibon ou mini tanques de lata com Matte Leão. O gelado doce dos seus refrescos era perfeito para amenizar o sol forte.

Apesar de imprescindível, o sol não era o rei da praia, quem comandava o espetáculo era o mar azul, amplo e aberto na nossa frente. Ele era a liberdade completa que só a natureza pode oferecer. Depois da arrebentação, gaivotas mergulhavam para pescar suas presas que saiam do mar se debatendo nos seus bicos. Às vezes, golfinhos pulavam para fora d´água e cações inofensivos, mas com barbatanas parecidas com as de tubarões, passavam causando comoção na praia.

A água salgada do oceano era muito mais gostosa e refrescante do que qualquer chuveiro ou do que qualquer piscina. Conforme íamos adquirindo mais intimidade com ela, íamos descobrindo as ondas e aprendendo a mergulhar por baixo ou pelo meio da sua espuma.

Em tardes com vento, meninos desciam das favelas para soltar pipa. Não se aventuravam na água, a diversão deles era travar batalhas aéreas com seus brinquedos artesanais. Algumas dessas turmas passavam cola com vidro moído nas suas linhas que ficavam mais eficazes para cortar as dos outros. Uma pipa girando descontrolada no ar era o sinal de que um grupo havia tomado o escudo voador de outro. Quando finalmente caía na areia, a meninada saia correndo, às dezenas, para apanhar o troféu.

No fim do dia, quando o sol ia descendo, a praia parecia relaxar. O calor ficava menos intenso, uma brisa aparecia e a sombra dos prédios começava a cobrir a areia. As áreas ainda recebendo sol ficavam com um dourado que dava às pessoas e a tudo mais na praia um colorido especial. De vez em quando, grupos de amigos vindos do morro aproveitavam o pôr do sol para fazer uma roda de samba, oferecendo uma trilha sonora feliz àquela hora do dia.

Enquanto seu filho se esbaldava na areia de Copacabana dona Renée, já desinteressada da praia, preferia ir ao clube jogar tênis. Enquanto isso, Sarah já frequentava a escola e seu Rafael garantia o conforto da família no seu escritório no centro.

Minha companheira de praia era Pilar, uma babá portuguesa bonita, de vinte e tantos anos. A única coisa de que me lembro bem dela é de ficar espiando o seu corpo nu com marcas de maiô enquanto tomávamos banho juntos depois da praia. Na banheira, podia examinar todas aquelas coisas sobre as quais tinha conversado com meus amigos, que não sabíamos bem como funcionavam. Pilar acabou se casando com meu barbeiro, o gentil Sr. Ribeiro, que também era português, porém baixo, barrigudo, de bigode e com os cabelos louros e encaracolados. Certamente para atrair a simpatia dela, sempre guardava para mim balas Soft, chicletes Ping-Pong e as mais recentes revistas Manchete, Cruzeiro e Placar, proibidas em casa mas que eu adorava.

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