qui. abr 9th, 2020

Mauro Nadvorny & Amigos

A Voz da Esquerda Judaica

Eram meados de Novembro de 1953. Trinta e cinco horas depois de decolar de Londres, parar por três horas em Lisboa, fazer o mesmo quatro horas em Dakar, no Senegal, atravessar o oceano Atlântico e ficar mais três horas no Recife, o voo da BOAC, BA0249, estava finalmente se aproximando do Rio de Janeiro.

Eram por volta das 5:30 da manhã e o sol estava se insinuando no céu estrelado. Um sinal aveludado nos alto-falantes acordou os passageiros. Em seguida, uma voz feminina, primeiro em inglês e depois em português, desejou a todos um bom dia anunciando que estavam a uma hora da destinação. 

As aeromoças acenderam as luzes e passaram a servir um generoso café da manhã. Para os ingleses, ovos estrelados com bacon, torrada, marmelada e chá, para os brasileiros, ovos mexidos, pão francês, queijo fresco, goiabada e café forte. Também distribuiram formulários de imigração e da alfândega para quem precisasse. 

Terminada a última refeição a bordo, loucos para descansar numa cama de verdade, os passageiros passaram a organizar a sua chegada. Do lado de fora, a claridade já revelava o mar no horizonte. Embaixo, as primeiras luzes estavam se acendendo na descida da serra para a Baixada Fluminense junto com os primeiros carros e caminhões se aventurando na madrugada vazia. Enquanto isto, apressada, a tripulação percorria o corredor recolhendo as bandejas. 

Rafael e Renée estavam entre aqueles passageiros preenchendo os dois formulários, consultando seus passaportes e seus vistos. O casal chamava atenção por sua discreta bizarrice. Ele era baixo, olhos azuis espertos e frios, cinquenta e poucos anos, um tanto antipático e com um pesado sotaque do leste europeu. Ela, em contraste, era uma londrina com sotaque chique, alta e exuberante, de cabelos curtos e castanhos e muito mais jovem que o marido. 

Não demorou muito para a voz feminina retornar aos alto-falantes pedindo a todos que apagassem seus cigarros e apertassem os cintos de segurança. Do lado de fora a vista se tornou magnífica. O dia estava raiando sobre o Rio de Janeiro

 O sol dourava o Cristo Redentor, a vegetação da Floresta da Tijuca em torno dele, as águas da Baia de Guanabara e as ilhas no mar aberto. Aquele era um espetáculo bem-vindo após praticamente dois dias chacoalhando naquela aeronave apertada ouvindo o ronco incessante das hélices. Rafael deu uma olhada no relógio, eram 6:15 da manhã, 45 minutos; mais cedo do que o esperado.

O avião tocou o solo em alta velocidade dando sua sacudida final. Assim que se tornou controlável, os passageiros aplaudiram o piloto que passou a guiar a aeronave lentamente rumo ao terminal. Quando parou, a tripulação apagou os sinais de apertar os cintos e de parar de fumar e abriu a porta deixando ar fresco da madrugada entrar e ventilar a cabine claustrofóbica. 

Com seus pertences prontos, Renée e Rafael se puseram na fila de saída. Na porta, depois de trocarem sorrisos cansados com as aeromoças, uma brisa tropical veio e acariciou suas peles lhes dando boas-vindas. Com sua nova cidade à frente, desceram a precária escada e se dirigiram ao terminal com os outros passageiros. 

A maresia espessa e o calor húmido tiveram o efeito de evaporar o torpor da viagem na Renée. Eufórica com o início de sua aventura carioca, estava parecendo uma criança entrando numa loja de doces,ficou tentando puxar conversas com o marido exausto e monosilabico. 

“Deveríamos achar um apartamento perto da praia, a revista disse que perto da floresta há risco de malária.”

“Qual o andar vamos ficar no hotel? Vamos ficar lá alguns meses, é importante ele ser alto e ter uma vista!”

“Eu quero ir para praia ainda hoje. Copacabana deve estar explendida!” 

Foi nesse clima que entraram na fila da imigração. Quando chegou sua vez, o policial acenou. Depois de mostrarem seus passaportes e de entregarem os formulários, receberam os carimbos requeridos. Dali em diante, estavam liberados para viver no Brasil. 

Ao sair para o saguão de desembarque, talvez por estarem vindo para ficar, desta vez sentiram o desconforto por serem completos estrangeiros.

Com exceção dos outros passageiros europeus, ninguém ali falava inglês ou qualquer outra língua que lhes fosse familiar. Havia mais “não-brancos” do que estavam acostumados. A emoção e os abraços com que os locais recebiam seus familiares e amigos, realçava a inesperada sensação de alienação. No fundo de suas mentes veio a pergunta: “Será que tomamos a decisão certa?” 

*

No saguão do aeroporto carregadores uniformizados e educados apareceram se oferecendo para levar suas malas até a fila de táxis do lado de fora do terminal. Depois de se certificar que as bagagens estavam devidamente organizadas no porta-malas e de dispensar o seu primeiro dinheiro local na gorjeta, entraram no carro.

“Por favor”, disse Rafael antes de ler o papel com o endereço do hotel em um português quebrado que duvidou que o motorista fosse entender. Ele finalizou com um desajeitado  “Obrigado”. 

O motorista disse OK, mas pediu através de sinais para ver o pedaço de papel. Depois de dar uma lida, abriu um sorriso amigo e disse, “Hotel Miramar, Copacabana, yes mishterr!”

Assim que partiram, o cansaço do Rafael e a estranheza que sentiram no aeroporto sumiram. O sol já estava forte e fazia calor. Animados, colocaram seus óculos escuros e passaram a apreciar o cenário. Logo pegaram a Avenida Brasil, a que levava ao Centro da Cidade. Estava apinhada de carros de fabricação americana, caminhões e ônibus de qualidade duvidosa, todos indo rumo ao centro da cidade. Em meio ao trânsito, sentiram o mau cheiro vindo da favela beirando a estrada​. O fedor forte passou logo e chegarem na zona portuária. Apesar de mais primitiva que a de Londres, era charmosa com sua série interminável de armazéns coloridos com chaminés e mastros de navios aparecendo logo atrás.

Do porto, o motorista, agora concentrado num programa no rádio, seguiu para o Centro. Lá atravessaram sua mistura contrastante de igrejas coloniais, prédios públicos de estilo modernista e construções vistosas da Belle Époque que fizeram Renée lembrar Paris. Ao fim da avenida elegantemente arborizada, chegaram na Baía de Guanabara onde deram de cara com o Pão de Açúcar. Dali o motorista, ousado demais, continuou a viagem apressada beirando a baía, passando pelos bairros do Flamengo e de Botafogo antes de finalmente atravessar dois túneis e chegar em Copacabana. Com as​ janelas abertas​, sentindo o vento no rosto, os dois já tinham relevado o programa de rádio chato e as barbeiragens do motorista e estavam absortos pela beleza da cidade. 

*

Assim que a bagagem chegou no quarto e que fecharam a porta, a primeira coisa que fizeram foi ligar para o Paulo. Ele havia dado a desculpa de que naquele dia tinha assuntos importantes a resolver e por isso não daria para ir de madrugada recebê-los no aeroporto. 

Após uma conversa animada e piadas sobre o voo interminável marcaram de se encontrar no dia seguinte. 

Paulo era um sujeito curioso; além da sua personalidade fácil e de seu endereço exótico, seu novo melhor amigo possuía outra peculiaridade: era comunista. 

Ele tinha sido um membro ativo do Partido Comunista alemão. Esse tinha motivo original do seu exílio já nos meados dos trinta. Havia perigo de morte envolvido na sua decisão. Nunca soube dos detalhes dessa ameaça nem se continuou sua militância no Brasil, mas se tivesse, isso não teria sido pouca coisa no auge da ditadura de Vargas quando chegou. 

Nos trópicos, a amizade entre os dois veteranos da loucura europeia floresceu. Apesar de antifascista, Rafael estava longe de ser de esquerda. De qualquer forma, os longos papos em iídiche trouxeram de volta as discussões políticas, um tema central na vida judaica no leste europeu. 

Durante uma dessas conversas, Paulo gabou-se de seu relógio produzido na comunista Alemanha Oriental ou RDA. 

“Está vendo este relógio aqui no meu pulso? Ele foi produzido livre da exploração capitalista. Pode ver! Ele funciona tão bem quanto qualquer relógio feito na América!”

Embora o relógio não fosse lá essas coisas, ao analisá-lo meu pai teve um “momento eureca”. Ele percebeu que tinha em mãos uma excelente oportunidade de negócios. Na cabeça dos brasileiros, alemão era sinônimo de confiável e, fabricados em um país comunista, seus preços seriam muito competitivos. A recém-criada classe média baixa brasileira iria, certamente, consumi-los como água.

Anos antes do golpe de 1964, com a ajuda dos contatos partidários do Paulo, Rafael atravessou o muro de Berlim, e foi se encontrar com o comissariado encarregado da fábrica de relógios. Com eles conseguiu um contrato para ser o seu representante exclusivo para o Brasil. 

À primeira vista poderia parecer estranho que alguém com o seu passado fosse ganhar a vida vendendo produtos alemães e, pior ainda, comunistas. Seja como for, o rigor e a praticidade teutônica lhes eram reconfortantes. Adotando essa mesma objetividade fria, foi em frente sem deixar que sentimentalismos e ideologias interferissem nas suas decisões. Nisso, ele era igual à maioria de seus amigos judeus. Apesar de tudo o que eles e seus entes próximos haviam enfrentado durante a guerra, ainda guardavam respeito pelo pragmatismo e pela eficiência germânica. A subserviência ainda estava viva e, como a maioria dos sobreviventes europeus orientais, continuavam a ver a Alemanha como a liderança nata e incorruptível do seu mundo. 

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