qua. abr 1st, 2020

Mauro Nadvorny & Amigos

A Voz da Esquerda Judaica

A palhaçada do pibinho

4 min read

 

As semanas se sucedem e a única coisa que muda é o roteiro do bestialógico presidencial. Temos de convir que a imaginação do ex-capitão é infinita e que a nossa (ou pelo menos a minha) capacidade de suportar já passou do limite. É inacreditável a faculdade de Bolsonaro de se prestar ao ridículo. Colocar um humorista de terceira classe, vestido da faixa presidencial, para distribuir bananas aos jornalistas e “responder” às perguntas sobre os medíocres resultados econômicos é um tapa na cara, não somente da imprensa como de todos os brasileiros, mesmo daqueles que votaram nele e aplaudem esse tipo de insulto. É usar um bobo da corte para divertir o povo, no caso os fanáticos apoiadores do presidente, que se sentem no direito de rir e proferir palavras de cunho sexual para os repórteres (aprenderam com o mito).

Junto à sua claque, Bolsonaro dava gargalhadas escancaradas. Aquelas que fazem com que ele se pareça com um misto de Hitler e Joker.

Por seu lado Márvio Lúcio, aliás Carioca, gritava o nome do Posto Ipiranga – Guedes, Guedes!!! – para explicar o pibinho.

Não era para menos, pois é de conhecimento de todos que ali nem o falso nem o verdadeiro presidente sabe o que é o PIB.

Simultaneamente, nas redes sociais, jornalistas próximos do Palácio, na sua imensa má fé, minimizavam o resultado ruim da economia brasileira, ressaltando a conjuntura internacional desfavorável e aplaudindo o fato de que o Brasil fechou 2019 com um crescimento positivo pelo terceiro ano consecutivo.

Ora, com relação à conjuntura internacional, não há do que se orgulhar, é bom lembrar alguns números e comparar: os Estados Unidos cresceram 2,3% e o desemprego foi de 3,8%; a França registrou aumento de 1,2%, apesar dos coletes amarelos e da maior greve de transportes da história, que literalmente paralisou o país; a Inglaterra cresceu 1,2% em pleno Brexit; Portugal 2,2%; Canadá 1,5%.

Mas vale a pena lembrar que o que importa não é a honestidade intelectual, pois os bolsonaristas presentes nas redes estão dispostos a engolir tudo, desde que se fale bem do chefete. A verdade sobre o PIB é secundária. Eles aplaudem sempre, qualquer que seja o descalabro, até mesmo quando o anúncio do filhote 01 diz respeito à liberação de navios de cruzeiro e criação de zonas de pesca e recifes artificiais em Fernando de Noronha. Aplaude-se. A palavra de ordem é ser descerebrado.

Quanto a nós, que insistimos em pensar (algo tão fora de moda), está difícil navegar nesse mar de lama.

Dias atrás, lancei um modesto apelo à união de todos os democratas, ao meu ver a única forma de se opor de maneira eficiente ao populismo de ultradireita e se preparar para o momento em que pudermos, juntos, lutar para restabelecer a democracia. Na minha imensa ingenuidade, acreditei que esse fosse o caminho. Enganei-me. Líderes como FHC e Lula reagiram contra o ato anti-Congresso apoiado por Bolsonaro. O tucano de forma até mais contundente que o petista. Mas nem Lula, nem FHC, nem Ciro Gomes, nem ninguém parece disposto a deixar de lado as suas verdades e vaidades em nome da unidade das forças de oposição.

Em meio à crise, como se a manifestação do dia 15 fosse um episódio anódino, Lula veio à Paris, receber o título de cidadão honorário. Depois de um discurso chocho, em que pela enésima vez dedicou-se a atacar Moro por tê-lo colocado na prisão, deu entrevistas. Que decepção! Numa delas, Lula deu a entender que não havia razão para abrir um procedimento de impeachment ao encontro de Bolsonaro, pois “não podemos destituí-lo só porque não gostamos dele”. Só porque não gostamos dele??? Razões existem às pencas para destituí-lo; pode-se optar por levar a situação em banho-maria por motivos de estratégia política ou pragmatismo, já que não há maioria no Congresso para votar o impeachment. Mas daí a minimizar a quebra de decoro, as mil e uma violações da Constituição, os ataques reiterados à imprensa etc, etc, etc, pelo amor de deus! as palavras de Lula nos insultam, são uma desfeita àqueles que tentam no dia-a-dia brigar para salvar o Brasil da ditadura depois de terem conseguido tirar o ex-presidente provisoriamente da prisão.

Para o novo cidadão honorário de Paris, Bolsonaro tem todo o direito de permanecer os quatro anos de seu mandato no Planalto. Faça o que fizer. Eu respondo NÃO, a continuar nos tratando como palhaços ele deveria partir. Admito porém que não temos condições de destituí-lo. Então, baixemos a crista, mas continuemos a cantar de galo a cada investida presidencial contra a sensatez, a inteligência , o respeito e sobretudo a Constituição. É o nosso direito, é a nossa obrigação.

Em tempo, Lula: Maduro não é democrata, nem foi democraticamente eleito.

 

Milton Blay

 

1 thought on “A palhaçada do pibinho

  1. Prezado Milton, venho ouvindo há algum tempo o mantra entoado por incontáveis analistas, cientistas políticos, jornalistas e outros, de que “se a economia vai bem o impeachment não emplaca”, que é facilmente observado no caso dos EUA. O contraexemplo é o passado recente brasileiro e o “fakepeachment” de Dilma. Quando Lula faz esta afirmação, sobre “só por que não gostamos” ele apenas ecoa o que todos já sabem. Mas penso que o pensamento dele é mais profundo, como líder experiente que é. Sua tese tem fundamento. A sociedade deve amadurecer suas repulsas na urna, e este grau de instabilidade política que seria dado por um impeachment agora não é bom para o sistema como um todo. Lula sabe que leva tempo para as forças políticas de oposição se reorganizarem, e um impeachment neste momento não seria adequado. Confesso que oscilo entre os dois pontos, e preferiria uma terceira via – a da interdição psiquiátrica.

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