dom. fev 23rd, 2020

Mauro Nadvorny & Amigos

Opiniões & Causas – A Voz da Esquerda Judaica

O antissemita que habita em nós

5 min read
Dizem que todo antissemita tem um amigo judeu de estimação, real ou imaginário. Acredito que seja uma verdade, ao menos em parte.
Recentemente o tema do antissemitismo vem aparecendo na mídia mais do que devia. Não é para menos, episódios deste cunho vem assombrando uma das cidades mais cosmopolitas que conhecemos, Nova York, com episódios quase diários. O mesmo em Londres e Paris.
No entanto não precisamos ir tão longe. Em recente episódio em que fui envolvido, comentários de cunho antissemitas foram postados em profusão sem qualquer arbítrio. Alguns exemplos:
“Nadvorny, além de Ashkenhazy, caucasiano, é também SIONISTA. SIONISMO é um movimento FASCISTA DE JUDEUS ASHKENHAZY…”
“Ele é apenas um CRIMINOSO COMUM, MENTIROSO, QUE POSA DE VÍTIMA QUANDO NA REALIDADE É UM CARRASCO SANGUINÁRIO E CRUEL, como a maioria dos seus correligionários israelenses!!”
“Comportamento do Governo Judeu de Israel com o Povo Palestino é similar às barbáries
cometidas por Hitler durante a Segunda Guerra Mundial!
Eu sempre soube separar a crítica ao governo de Israel que alguns se referem como antissionismo, do antissemitismo. Mesmo assim, é bastante claro a existência de uma linha tênue entre eles. Muita gente que se declara antissionista ataca o Estado Judeu como sendo um país que deve desaparecer, ou
nunca ter sido criado. São os antissemitas clássicos que tentam permanecer numa zona cinza.
A questão do Brasil é muito interessante. Seus habitantes nativos foram as tribos indígenas que habitavam o território. Os europeus dizem que “descobriram a América”, quando o correto seria dizer a verdade, eles invadiram a América. Portanto, todos os habitantes da América descendem destes invasores, ou aqui chegaram para completar o trabalho iniciado por eles. Como resultado disso,
centenas de milhares de indígenas foram mortos, outros escravizados. Os verdadeiros donos desta terra foram dizimados e os que restaram são tratados com desdém.
Os invasores, quando perceberam que os índios preferiam a morte, que a escravidão, precisando de mão de obra, foram buscar na África. A população negra brasileira não invadiu o território de ninguém. Foi trazida em acorrentada para trabalhos forçados. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a
escravidão que durou praticamente 300 anos. Lula foi o primeiro e único presidente do Brasil a pedir desculpas pela escravidão dos negros africanos.
Quando vejo brasileiros defendendo a causa palestina, me solidarizo com eles. Eu também defendo a criação de um Estado Palestino. Mais do que isso, acredito que os Tibetanos tem direito a recuperarem sua independência e os Kurdos o direito ao Kurdistão, só para ficar nos povos mais conhecidos e com tragédias similares.
No entanto, não posso deixar de chamar atenção para o fato de que nunca neste país se fez um pedido de desculpas para os índios, os que tiveram suas terras invadidas por nossos ancestrais. Pior, continuamos invadindo o pouco de terras que restam para eles, com o pomposo nome de Reservas Indígenas,
e que este governo fascista deseja acabar. O correto teria sido o contrário, nós vivermos em Reservas de Descendentes de Europeus.
Portanto, seria interessante que a história do Brasil, as  tragédias que foram causadas por nossa invasão para que tivéssemos um lugar para chamar de lar, saíssem da sombra onde se encontram e assumirmos nossa responsabilidade. Sim, vamos defender os direitos de outros povos, mas não podemos esquecer os direitos daqueles que vivem ao nosso lado.
O povo judeu tem uma história milenar. O que hoje constitui o Estado de Israel já foi parte do Reino de Israel no passado. Não é que tenhamos retornado para um território qualquer, retornamos para o mesmo lugar de onde saímos. A tragédia causada com este retorno é um problema que discutimos mesmo antes do dia da nossa independência. Este retorno foi construído por um ideal Sionista, que desejava recriar o Lar Nacional Judaico, voltar a Sião.
O objetivo foi alcançado, mas trouxe consequências. Uma delas é a questão palestina. Um povo que habitava o território e com o qual não houve acordo para dividir o território. A criação de Israel trouxe uma guerra e as consequências são conhecidas. O povo judeu teve seu país reconstruído e os palestinos viraram refugiados.
A segurança de Israel é constantemente ameaçada por países que até os dias de hoje não aceitam sua criação e pregam diariamente sua destruição. Como democracia parlamentarista, o país vem sendo governado por coalizões de partidos de direita nos últimos 20 anos. Pode-se discordar de sua política, como eu discordo, mas não se pode concordar com o fim que querem dar seus inimigos.
Os antissionistas existem tanto na direita como na esquerda brasileira. Se existe alguma coisa que una os dois extremos, é o antissionismo radical. Este tipo de antissionismo que serve como disfarce para o antissemitismo. Este que me ataca como judeu, como sionista e como socialista. Boa parte deles é formada por gente que desconhece sua própria história e que até hoje, absolutamente, nada fez para recompensar o mal causado no lugar onde vivem.
O ódio aos judeus é um preconceito que existe há milhares de anos. É tão conhecido que até em países onde a presença judaica não existe, ou é mínima, ele se faz presente. Talvez por nossa presença desde os primórdios da humanidade, seja este o precursor de todos os preconceitos humanos. Não faltam
explicações que vão desde assassinos de Cristo até, pasmem, dependendo do lado, de sermos capitalistas ou comunistas, etc.
Para conhecimento, somos um povo igual aos outros. Nem melhor, nem pior, apenas humanos como todo mundo. Como humanos também somos imperfeitos. Em nosso seio existe gente de toda espécie, como em qualquer outro povo.
E como dizem por aí, se o judeu não existisse, o antissemita inventaria um.

 

Deixe uma resposta