qua. fev 26th, 2020

Mauro Nadvorny & Amigos

Opiniões & Causas – A Voz da Esquerda Judaica

A causa

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A causa

Estava pensando no que mais se pode dizer deste governo que ainda não tenha sido dito. Todos os dias passo pelas notícias e aquela coisa de que nada está tão ruim, que não possa piorar, piora. O inacreditável passa a ser crível numa sequência de nonsense de tirar o fôlego. As redes sociais fazem a síntese dos absurdos e eu me vejo perguntando até quando.

Estou naquele momento Tiririca. Nada contra o personagem, é que me recordo do fato de que a candidatura dele foi vista como um fato grotesco, ou de protesto, dependendo para quem se pergunte. De toda maneira, a candidatura vingou e acho que foi mais ou menos ali, naquele exato momento que fomos desviados no tempo espaço para um mundo paralelo. Desde então, nada mais pode ser definido como absurdo, nem mesmo a eleição de uma família miliciana.

Alguém vai dizer que os absurdos já aconteciam muito antes, que haviam Malufs e similares sendo eleitos mesmo depois de acusados de roubarem e afirmarem que “roubavam, mas faziam”. Concordo que muitos políticos de carteirinha eram reeleitos contra todo e qualquer senso ético e moral, mas os caras eram políticos escolados, sabiam como levar o povo na sua lábia. Tiririca, para mim, foi quem mudou todos os conceitos.

Vejam que depois dele, a palhaçada se tornou coisa comum. O parlamento assumiu ares de um circo e se alguém duvida, lembrem-se do que foi a noite do Impeachment da presidenta Dilma. Nem o Cirque du Soleil seria capaz de montar um espetáculo daqueles. Aquilo foi uma universidade circense com palhaços dando aulas magnas. E ele, o Tiririca, votou sim.

A coisa foi ficando tão ruim que o palhaço percebeu que onde pensava ser professor, era na verdade um mero aluno recebendo lições. Tinha professor para tudo. Logo se tornou o que menos esperavam dele, mais um político no baixo-clero. Encontrou sua teta para mamar e lá permanece.

Neste universo em que ele nos colocou a realidade sofreu um enorme revés. Um governo de histórias em quadrinhos tomou o poder. Só que não eram os heróis, eram os anti-heróis. Não os bacanas, nem os nerds. Quem assumiu foram os caras que sentavam colados na parede das salas de aula. O pessoal que só rezava para o professor esquecer o nome deles. Os caras que foram para Harvard só no currículo fake que fizeram no computador. Aqueles cujos trabalhos escolares eram um “Control C” e “Control V”. Gente que adorava os sites que provavam que o homem nunca foi a Lua.  Os aniversários eram comemorados em uma mesa, eu disse UMA mesa do McDonald’s.

No mundinho que foi a sua infância e adolescência, uma bolha resguardada dos seus piores tormentos, não tiveram tempo de conhecer o lado de lá da vida. O lado com ricos e pobres, com os que tem tudo e os que não tem nada. Da natureza nunca ouviram falar, afinal nunca foram para um acampamento na vida. Direitos humanos e direito animal, nenhum significado em suas vidas. Seu mundinho foi quadrado e continua sendo.

Como poderiam acreditar em um mundo melhor para todos, se nunca foram parte do mundo e nem do todos? Em luta de classes, se sua mediocridade foi sempre uma armadura para sobreviverem? O globalismo os amedronta. O socialismo os atormenta. O neoliberalismo os redime. A religião os entorpece. A direita os seduz.

O efeito Tiririca abriu os portões da salvação para todos eles. Mostrou que eles podiam chegar ao poder pelo voto. Claro que uma ajuda do WhatsApp foi benvinda, mas um juiz em conluio com os promotores tirar o principal empecilho do caminho foi quase divino. Isso foi a apoteose do inferno na Terra.

Ele deixou de ser Francisco Everardo Tiririca Oliveira Silva para se tornar uma lenda. Nossa história ficou definitivamente marcada quando ele se tornou deputado e foi reeleito. Nosso carma só vai terminar quando não se reeleger mais. Ele, e aquela lista inominável que está no Congresso Brasileiro. Bolsonaro não é a causa, é apenas a consequência.

 

 

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