dom. jul 12th, 2020

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Israel vai as urnas outra vez

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An Israeli settler walks past posters bearing the portrait of Israeli Prime minister Benjamin Netanyahu at the Machane Yehuda market in Jerusalem on April 8, 2019, a day ahead of the electoral polls. - Israelis vote on April 9 in a high-stakes election on whether to extend Prime Minister Benjamin Netanyahu's long tenure in power despite corruption allegations against him and a strong challenge by an ex-military chief. (Photo by THOMAS COEX / AFP)

Pela primeira vez na história de Israel, o parlamentar que recebeu a incumbência de formar o governo, não conseguiu fazê-lo. Bibi fracassou e está, do alto de toda sua arrogância, atacando seu algoz. Avigdor Lieberman, por todos os meios possíveis.

O resultado das eleições deu ao Bibi um suposto apoio de 65 parlamentares. Aí incluídos além do seu próprio partido, os religiosos, a extrema direita e o partido de Lieberman. Importante lembrar que estas eleições foram antecipadas justamente porque o partido de Lieberman abandou a coalizão. Bibi agora o chama de em tradução livre “o detonador dos governos de direita”.

Muitos devem estar se perguntando porque Lieberman se negou a fazer parte de um governo de direita, afinal seu partido e ele próprio assim se definem. Mais do que isso, dizem que nunca participariam de um governo de esquerda.

Antes de tudo é preciso que se saiba que o número de deputados do Israel Beiteino, o partido de Lieberman, vem perdendo cadeiras no parlamento desde sua primeira eleição onde tiveram 18 deputados, até esta última, quando chegaram a 5 apenas. Mesmo com este número, se tornaram o fiel da balança, sem eles a direita teria um governo de apenas 60 membros, ou seja, ficariam praticamente reféns da oposição.

Bibi e seu partido deram como certo a continuação do seu governo. Continuou desempenhando seu papel de primeiro ministro como se nada tivesse acontecido. Conhecedor dos meandros da formação de uma coalizão, sabia exatamente o que cada partido pediria, o que receberia de fato e sobretudo, sabia do desejo deles de serem governo com todos os benefícios que acompanham.

Desde o início, as negociações não se mostraram fáceis, mas com Lieberman, se mostraram especialmente difíceis. Dentre muitas demandas, uma em especial era inegociável, a Lei do Alistamento que havia sido aprovada em primeira leitura e determinava como os jovens ortodoxos das escolas religiosas seriam alistados nos próximos anos. Lieberman exigia o compromisso de que a lei seria aprovada em segunda e terceira leitura sem nenhuma modificação. Os religiosos não concordaram. Sabiam que poderiam fazer alterações em seu benefício.

Pode parecer algo muito pequeno para impedir a formação de um governo. Bibi também achou e este foi o seu erro. Tentou de todas as formas propostas alternativas, ofereceu tudo que era possível e impossível, pressionou de todos os lados, mas Lieberman não arredou pé. E sem o seu partido não haveria governo.

Haviam duas saídas possíveis. Uma seria Bibi devolver o mandato que recebeu do presidente para formar um governo e outro parlamentar ser escolhido para esta tarefa sem a necessidade de novas eleições. Outra, que foi o que aconteceu, o parlamento votou a sua dissolução e novas eleições foram convocadas para o dia 17 de setembro.

Em uma sociedade sadia, em um país realmente republicano, aquele que não conseguiu formar o governo teria a honradez de ir ao presidente, admitir seu fracasso e devolvido o mandato para que outro pudesse tentar formar uma nova coalizão. Isto nunca passou na cabeça de Bibi e é por conta dele, única e exclusivamente, que Israel se encaminha para uma nova eleição com um custo de quase quinhentos milhões de dólares.

Uma pesquisa realizada ontem, 30 de maio, perguntando em resposta a pergunta em quem votaria se a eleição fosse hoje, os partidos do atual governo chegariam a 58 cadeiras, e a oposição teria 54. Lieberman teria 8, ou seja, 3 a mais do que recebeu agora. Se isso acontecer teremos um novo impasse. Um dos partidos religiosos já afirmou que se nega a participar de qualquer governo que inclua Lieberman e sem eles a direita não consegue maioria.

Claro que a esta altura alguém já deve ter se perguntado se os religiosos são de direita. A resposta é não, eles são apenas religiosos. Praticamente nunca deixaram de fazer parte de nenhum governo desde a criação do Estado de Israel. Dos governos exigem apenas muito dinheiro para poderem manter os ortodoxos nas escolas religiosas, uma vez que não trabalham, não servem ao exército, apenas passam o dia rezando e estudando a Torá. Pedem também a manutenção do status quo no que se refere a abertura do comércio e transporte público no Shabat e nos feriados. O que já funcionava, continua funcionando, o que já abria, continua abrindo, mas nada pode ser acrescentado.

Atualmente os partidos de esquerda levantam a bandeira da liberação geral do comércio e do transporte público e por esta razão os religiosos se alinham com o Likud que prefere ser governo a qualquer preço. Uma questão de prioridades e pragmatismo.

Os ataques de parte a parte, entre Bibi e Lieberman, vão continuar por mais um tempo. Tudo agora está em aberto. Até mesmo os partidos que não conseguiram passar a cláusula de barreira sem votos suficientes para entrar no parlamento, vão tentar novamente. Tudo voltou à estaca zero.

Quem será realmente beneficiado, quem vai perder com esta nova eleição ainda é cedo para saber. Muita coisa vai acontecer. As peças deste complicado jogo político ainda não começaram a se mover e quando o fizerem vamos poder compreender melhor o que se avizinha no futuro próximo.

Como em Game of Thrones, com alianças e traições, todos queremos saber quem vai se sentar na cadeira de primeiro ministro de Israel. Quem será capaz de criar um Dragão e quem será aquele que poderá superar o impasse, assistam nos próximos capítulos.

 

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