qua. abr 1st, 2020

Mauro Nadvorny & Amigos

A Voz da Esquerda Judaica

O Grito Que Não Quer Calar

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(Uma Carta Aberta a Yasser Arafat e Ariel Sharon)

Já somos 300 crianças que a sua guerra matou. A maioria de nós são palestinas, 230. Outras 70 são israelenses. Muitas não sabem porque estão aqui. Foram retiradas repentinamente dos braços de suas mães ou dos carrinhos de bebes onde se encontravam.

Cada uma de nós tinha uma família. É verdade que alguns de nossos pais também vieram conosco, mas em geral somos órfãos. Perdemos tudo. Nossa família, nossos irmãos, nossos amigos e principalmente nosso direito à vida. A gente não pediu para vir ao mundo. Também não pedimos para sermos retirados dele com tamanha violência.

É difícil descrever o que uma bala faz ao entrar em nossos corpos. Também é estranho descrever o gosto que uma bomba deixa em nós. Tudo acontece muito rápido. A gente está respirando o ar da infância e no momento seguinte somos tragados pelo ar da maldade dos homens.

Os que já sabiam falar dizem que a dor é a mesma. Fica um tremendo vazio e tudo desaparece como que por encanto. Não importa a idade. Dias, meses ou anos. Vocês mataram o nosso e o seu futuro. Liquidaram vidas que ainda estavam se formando, e outras que recém haviam se formado. Ao nos matar, vocês assassinaram a si próprios.

Aqui onde estamos não existe dia ou noite. Não existe o céu e a terra. Não escutamos o barulho do mar ou dos animais. Nunca mais vamos poder ser tocados. Nunca mais vamos receber amor. A sua guerra nos atirou no silencio. O único ruído por aqui são das lágrimas que caem sem parar. São rios de lágrimas de 300 crianças que ninguém mais verá.

Nós não temos mais a chance de nos tornarmos adultos. Não vamos poder fazer nada para que nenhuma outra criança continue vindo para cá. Alguns dizem que se fosse para nos tornarmos adultos como vocês, então foi melhor termos sidos enviados para este lugar. Nenhum de nós deseja ser igual a vocês. Vocês foram o nosso último e pior pesadelo.

Aqueles que se explodiram, ou que atiraram com suas armas para nos enviar para cá são a conseqüência de sua teimosia. Vocês são a razão. Por sua culpa somos hoje apenas fotografias e lembranças na mente dos que ainda se recordam de nós. Vocês perderam toda a humanidade que um dia tiveram. Não podemos aceitar que seres humanos permitam que crianças sejam assassinadas em nome de sua guerra suja.

Vocês falam de paz, de segurança, de pátria e de justiça. Tudo o que sabem fazer é a guerra que mata e destrói a tudo e a todos. Vocês dividem irmãos, semeiam o ódio e a sede de vingança. Adoram a revanche e se vangloriam de seus atos. Saibam que estamos aqui por sua causa. Os que morreram por seus atos agora estão todos aqui no mesmo lugar. Somos todos iguais em nosso sofrimento. Uma só família. As vítimas de sua insanidade.

Um dia isto vai terminar. Nossos povos vão viver em paz lado a lado. Vão ser uma só família. Vão se lembrar destes dias terríveis com homenagens a nós. Não queremos que sintam pena do que nos aconteceu. Não queremos ser um nome em um memorial. Não aceitamos que continuem usando nossa memória para desculpar suas atitudes.

Queremos que parem de mandar mais crianças para este lugar. Que sequem os rios de lágrimas e que possamos encontrar a nossa paz. Paz que só virá quando vocês tiverem a grandeza de terminarem incondicionalmente com esta barbárie. Neste dia vamos poder finalmente descansar, e saber que nosso grito atravessou todas as dimensões, para chegar ao coração de israelenses e palestinos.

Este é o grito que não quer calar. O grito das crianças assassinadas por culpa de uma guerra sem vencedores. Que sua voz ecoe em todos os cantos de Israel e da Palestina. Que alcance os corações das pessoas e as faça refletir por um minuto que a paz e a reconciliação é possível. Que possa unir a todos em um minuto de silencio por elas que se foram para sempre. E por fim, que traga em um minuto a esperança de um mundo melhor para todo o sempre.

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