24/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Sharon no Banco dos Réus

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O massacre de cerca de 800 civis palestinos em Sabra e Chatila, continua cobrando justiça. O mais recente clamor por ela vem da Bélgica. Neste país, uma corte espera por Sharon. Tão logo ele deixe de ser primeiro-ministro, será julgado por seu envolvimento no ocorrido.

Aqui se abre espaço para muitas discussões. Será que um país tem o direito de julgar alguém por um crime cometido fora de seu território, por alguém que não é cidadão deste país, e cujo crime não foi cometido contra cidadãos deste mesmo país? Teria a Bélgica o direito de julgar criminosos de outras guerras?

Antes de tudo, seria prudente se falar no que aconteceu. Na invasão do Líbano, Israel ocupou uma vasta extensão do país vizinho. Tinha como aliado a Falange Cristã da família Gemaiel, tradicionais inimigos dos palestinos. Dentro do acordo que permitiu a saída de Arafat e de seus guerrilheiros, Israel comprometeu-se a cuidar dos familiares dos guerrilheiros que lá permaneceram.

A Falange pediu autorização para visitar os campos em busca de guerrilheiros remanescentes e de armas. Sharon, que era o responsável pelo acordo, sabia que eles poderiam estar mal intencionados. Mesmo assim permitiu sua entrada. Não se preocupou em enviar tropas para vigiá-los e o resultado foi o massacre de velhos, mulheres e crianças.

A matança durou uma noite inteira e os disparos de armas podiam ser escutados a distância. No entanto, o exército de Israel não interveio, mesmo quando avisado de que algo estava se passando nos campos. Sharon preferiu fazer vista grossa.

O crime de Sharon é portanto de negligência, no mínimo, e co-autoria no máximo. Não foram ordens suas que levaram os falangistas a cometerem o genocídio. Mas por não se importar com o que aconteceu, e permitir que continuasse acontecendo, Sharon tem sua parcela de culpa e deve ser levado a julgamento.

Existem na história recente outros tantos líderes de países que cometeram crimes hediondos. Estes são ditadores como Saddam Hussein, que massacrou a população Curda, ou generais de países africanos etc. Sharon é o primeiro representante de um país democrático que é acusado de participação ativa num massacre. E o que mais me entristece, é que ele seja parte de um povo que viveu o maior genocídio da história recente, o Holocausto.

Pode-se contestar o direito da Bélgica em sua pretensão de se tornar uma Corte Internacional. O que não se pode fazer, é esquecer que as vítimas deste crime, e principalmente os sobreviventes, têm direito a que se faça justiça. E só terá sido feita justiça, quando Sharon e todos os que participaram deste episódio, forem levados a julgamento.

Não se pode mais uma vez pretender esconder os cadáveres sob o argumento tradicional de que se trata de uma conspiração anti-semita, ou de um julgamento político do Estado de Israel. Pelo contrário, temos o dever ético e moral de encorajar o esclarecimento completo do que aconteceu. Havendo culpados, que sejam punidos de acordo com a lei num fórum apropriado.

Somos herdeiros de um grande senso de justiça. Somos um povo que não permite que o mundo esqueça o que fizeram contra nós. Pretendemos ser um exemplo de resistência diante das tentativas de aniquilamento que sofremos ao longo da história. Temos de ser portanto, os primeiros a desejar que os mortos de Sabra e Chatila conheçam a face de todos os seus algozes, mesmo que alguns deles carreguem consigo a Estrela de David.

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