22/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Scarface e Queiroz: do Porto de Mariel a Mariel Mariscot

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Se hoje a pergunta que não quer calar, dirigida ao presidente Jair Bolsonaro, é: Por que Fabrício Queiroz depositou 89.000 reais na conta de Michelle Bolsonaro, a que pululava nas redes sociais há dois meses era: Onde está Queiroz? A resposta chegou na bucólica manhã do dia 18 de junho, através de uma operação batizada singelamente de “Anjo”. O mistério do paradeiro do policial aposentado, um dos cabeças do esquema de rachadinha do gabinete de Flávio Bolsonaro, do qual foi assessor, foi elucidado.

Como é do conhecimento de todos, o advogado de Flávio e dublê do programa humorístico A praça é nossa, Frederico Wassef, escondeu esse senhor durante um ano numa propriedade sua, em Atibaia, alegando “motivos humanitários”.

O Queiroz ali pego de surpresa em nada lembrava o policial militar conhecido por tocar o terror nas comunidades carentes, a ponto de as ruas ficarem vazias a sua passagem. Estava mais pra tiozão de boteco, daqueles que encostam a barriga no balcão e, entre um gole e outro de cerveja, fala dos saudosos tempos da ditadura. Um entre vários do Brasil.

Enquanto a polícia apreendia os celulares e outros objetos eletrônicos, um detalhe na casa me chamou a atenção. Ao lado de uma faixa exaltando o AI-5, sonho de dez entre dez bolsonaristas, três bonequinhos em miniatura do Tony Montana, o Scarface, ornavam a lareira. Por curiosidade, olhei na internet o preço desse inocente bibelô e concluí que, como os nerds que gastam pequenas fortunas em bonecos de Star Wars e os aficionados nos heróis Marvel que são capazes de vender um rim por um Batman que seja modelo raro de colecionador, Queiroz investiu nesses seus brinquedos, o que mostra a importância que dava ao personagem.

O generoso amigo da família Bolsonaro, aquele que deposita dinheiro na conta da primeira-dama por pura bondade, que paga as escolas das filhas de seu ex-chefe por amor, me revelou duas coisas importantes: Tem como herói esse personagem icônico e tem uma qualidade que deve ser ressaltada: amizade verdadeira se vê ali; meus amigos, quando muito, me pagam um chope. É uma cambada de pão-duro. Olho para a generosidade desse senhor para com seus diletos companheiros e caio na dura realidade: Meus amigos são todos uns fuleiros.

Voltando ao bonequinho de estimação do Queiroz: Scarface é um filme de 1983, roteirizado por Oliver Stone e dirigido por Brian de Palma. O Scarface, interpretado magistralmente por Al Pacino, tem esse apelido por conta de uma marca de navalhada na cara e é mais um dos cubanos que chega aos Estados Unidos em 1980, vindo naquele que ficou conhecido como um dos maiores êxodos migratórios do século XX: O êxodo de Mariel. O evento foi precipitado por uma recessão monstruosa na economia de Cuba, o que levou dez mil cubanos a pedirem asilo político na embaixada peruana. Fidel, num acordo com o então presidente americano Jimmy Carter, anunciou a abertura do porto de Mariel para que cubanos descontentes com o regime fossem viver o sonho americano. Centenas de barcos procedentes de Miami (a organização ficou a cargo dos cubanos exilados após a vitória da Revolução Cubana) ancoraram no porto para levar os insatisfeitos. Durante o período de sete meses (de abril a outubro de 1980), 125 mil cubanos saíram da ilha.

Não estamos falando de qualquer líder de nação, estamos falando de Fidel. Aquele dono de respostas certeiras que, ao ser perguntado por um jornalista argentino se as  universitárias de Cuba se prostituíam, respondeu: “Não, as prostitutas de Cuba tem nível universitário”. Querem os cubanos na Flórida? Ok.  Ardilosamente, ele despachou, junto aos cidadãos comuns, todos os presos , principalmente aqueles de alta periculosidade, a escória.

O dramático êxodo foi interrompido por Jimmy Carter, pois essa migração em massa teve repercussões inacreditáveis na política doméstica. A criminalidade em Miami cresceu terrivelmente e, com ela, problemas graves ligados à corrupção policial. Esses presos alteraram por completo a chamada “Magic City”. Violência e tráfico pesado de drogas imperavam.

O personagem Tony Montana foi um desses presentes bacanas de Fidel para os EUA. Criminoso comum, passava-se por preso político para conseguir seu lugar na Terra dos Sonhos. Mata sem remorsos, com a luxuosa ajuda de uma serra elétrica, compra uma esposa, roubando-a de outro gângster (Michelle Pfeiffer, lindíssima), constrói uma fortaleza que é um ode à cafonice, monta um império, cheira sem parar. Não vamos julgar Queiroz assim, sem provas. Talvez a admiração pelo personagem (cuja casa é bregaça, mas o terno é de uma estileira que até Álvaro Dias copiou o modelo nos benditos debates de 2018) tenha a ver com o fato de ele representar o imigrante que vence na vida, a tal da meritocracia, e de ser um anticomunista ferrenho. Tony Montana, o empreendedor.

O fato é que as rachadinhas são o mínimo. A proximidade da família Bolsonaro com o fã de Scarface remonta há mais de três décadas e vai muito além da relação profissional. Na realidade, ele era amigo mesmo do nosso presida. A ligação íntima entre Queiroz e o Capitão Adriano, morto na Bahia, também era a mais pura broderagem. Se existe alguma dúvida que a família de ogros é miliciana – tem gente que acha que são meros simpatizantes (não é mistério que o mandatário sempre elogiou a milícia e quis legalizá-la, como uma forma de segurança pública; talvez para ter uma SA pra chamar de sua) – lembrem que o finado Capitão Adriano, CEO do Escritório do Crime, e Queiroz eram amigos de fé  irmãos camaradas, tendo inclusive trabalhado no mesmo batalhão. Fabrício, com seu coração generoso, também ofereceu emprego para a sogra e para a ex-mulher do capitão miliciano no gabinete do 01 (a.k.a. Flavio Bolsonaro).

Foi pensando nesse lupanar que o Brasil se transformou (sem querer ofender as prostitutas, visto que qualquer puteiro é mais organizado que isso aqui) que me veio uma rememoração. Se você assistiu o horário eleitoral gratuito com apenas os retratinhos dos candidatos na TV, se enchia o baldinho de tatuí na praia, se usava o merthiolate que ardia de fazer chorar e se foi malandro o suficiente para não sufocar e morrer com uma bala soft, deve lembrar do que vou falar.

Meu pai comprava diariamente o jornal O Globo (para ver mentiras escancaradas: detalhe, o jornaleiro escondia O Pasquim dentro do jornal dos Marinho, para ficar acima de qualquer suspeita.), o Jornal do Brasil e O Dia. Esse último com uma pegada bem popular. Quando falo popular, faço uma ressalva. O Dia era enfeitado por fotos de pessoas que não faziam mais parte do nosso convívio e de como elas se retiraram, ou melhor, foram retiradas, do evento vida. Sim, também sou dada a eufemismos.

Claro que eu não tinha permissão para ler nada que fosse além das tirinhas de Charles Brown e seus amiguinhos. Meus pais liam os três jornais para buscar nas entrelinhas o que acontecia. Vivíamos sob forte censura. Ao folhearem O Dia porém, as palavras sempre, sempre, sempre proferidas pelos dois eram: ”Foi o Esquadrão da Morte”. Não sabia o que era, por quem era formado e, aos 7 anos, esse termo parecia quase uma entidade. Meu pai, numa daquelas maravilhosas aulas de educação infantil, certo dia mostrou o adesivo do carro na frente do nosso e disse: “Olha o Esquadrão da Morte aí”. Ver uma caveira e abaixo duas tíbias cruzadas foi o suficiente para gelar a alma. Após ver o símbolo, entendi sem saber que entendia.

O espírito da desobediência, porém, sempre habitou em mim. Esperava meu pai sair para futucar o Pasquim, não entendia nada, mas gostava dos desenhos do Henfil, mesmo que não soubesse o que era sarcasmo. O JB e o Globo não me interessavam, só as tirinhas. Mas a minha curiosidade mórbida me levava ao Dia. Ali, olhando a criatividade em prol da morte, cheguei a uma conclusão rodriguiana: de que a solidão nasce da convivência humana. O Dia era jornalismo popular, noticiava o que acontecia na periferia, na Baixada Fluminense. Morte de pretos, pobres, periféricos. Pessoas retalhadas, decepadas, muitos tiros na cara.

Quem fala que na ditadura militar não houve violência urbana, ou é jovem demais e repete o que ouve sem refletir ou não passa de um velho canalha. A partir do final da década de 1950, no Rio de Janeiro, ou melhor, nos grandes centros urbanos, começam os acirramentos de problemas devidos às contradições sociais, políticas, econômicas, tendo as cidades como uma de suas vitrines. Consequência direta da urbanização do país.

Nesse contexto, surge a Scuderie Le Cocq (embrião do Esquadrão da Morte). A primeira vítima foi o bandido Cara de Cavalo, em 1964. Sua história obedece a de tantos outros excluídos. Morador da Favela do Esqueleto, iniciou a vida criminosa vendendo maconha ainda criança. Isso faria a alegria de Bolsonaro, que vive enaltecendo o trabalho infantil. Com o tempo, tornou-se cafetão e se ligou ao jogo do bicho. O papel que tomou para si era achacar os pontos dos jogos, digamos, um trabalho quase suicida. Diante do abuso, um bicheiro procurou o detetive Le Cocq, ex-integrante da Guarda de Getúlio e primo do brigadeiro Eduardo Gomes. Le Cocq organizou um grupo clandestino de policiais para caçar o criminoso. A emboscada a Cara de Cavalo não deu certo, e o bandido acabou por matar a tiros o policial.

De bandidinho pé de chinelo, Cara de Cavalo passou a ser o criminoso mais procurado do Rio de Janeiro. Dois mil policiais em quatro estados foram à sua casa. Um mês depois foi encontrado, e o que se seguiu foi uma execução sumária, comandada pela turma da pesada. Foram mais de cem disparos. Enquanto os tiros eram dados, os algozes chupavam pirulito.

Cara de Cavalo (que recebeu homenagem póstuma do artista plástico Hélo Oiticica), foi o primeiro de muitos. A Scuderie Le Cocq tornou-se praticamente uma instituição. Recebeu o apoio extraoficial do governador do estado, Francisco Negrão de Lima, e o secretário de Segurança do Rio, Luis França, escolheu a dedo doze homens com o intuito de “promover uma faxina”, eufemismo para execuções sumárias de ladrões de carro, de táxi, assassinos, assaltantes e afins. Eram “Os Doze Homens de Ouro da Polícia Civil ”. Paralelo a polícia militar, esse esquadrão contava com financiamento de empresários e bicheiros e tinha a simpatia total do regime vigente. Com essa brigada paramilitar, novos tempos se anunciavam. Corpos de marginais torturados e mutilados começaram a pulular pelo Rio de Janeiro, com frequência com marcas de algemas, sem que houvesse o menor indício de que tivessem esboçado alguma reação. O presidente de honra era o jornalista David Nasser, de triste memória, notório apoiador da ditadura. José Gulherme Godinho, o Sivuca, eleito deputado estadual do Rio de Janeiro em 1990, pelo PSC, com o slogan Bandido Bom é Bandido Morto (Bozo que não cita os créditos né?), era um dos líderes mais atuantes. Esse chavão era o lema dos grupos de extermínio e, que surpresa, é uma das expressões preferidas do atual presidente da República.

A história só se repete como farsa, ou a farsa se repete como história, não importa. O fato é que o esquadrão e seus membros, assim como suas táticas dantescas de combate ao crime, recebiam apoio de boa parte da população. Esse é o momento em que temos a resposta para aquela pergunta: “De onde surgiram esses fascistas?”. Sempre existiram. Eis a prova.

A Scuderie Le Cocq (as letras E e M estavam no brasão e queriam dizer “esquadrão motorizado”, ao qual o detetive pertencia) chegou a comportar sete mil membros! Tendo sua origem na polícia, foi fundada no discurso moralista de defesa dos valores da sociedade, contra os elementos indesejáveis e a manutenção da ordem pública. Era apoiada pelo Exército e pela polícia, e seus membros eram considerados heróis. Desde o início, porém, estava ligada a corrupção, venda de proteção a traficantes, associação a grupos criminosos e ao jogo do bicho, prostituição, roubo de carros, furtos, tóxicos além de, obviamente, participação na repressão militar,

Um de seus integrantes permanece muito vivo na minha memória. Era praticamente um bandido celebridade, o famoso Mariel Mariscot. Mariel ingressou aos 17 anos na Divisão Aeroterrestre como paraquedista. Por meio de concurso público, foi ser salva-vidas no Corpo Marítimo de Salvamento. Seu maior desejo era sair de Bangu e morar em Copacabana, o que conseguiu alugando um pequeno apartamento no bairro. Mariscot sonhava com o glamour e tinha o firme propósito de se tornar rico. Foi leão de chácara de inferninho, segurança particular, passou para a Polícia Civil. Matou pela primeira vez um assaltante em flagrante e quando recebeu voz de prisão de um delegado pelo homicídio, rendeu-o com uma 45. Foi aí que recebeu o nome que o acompanharia pela vida “Ringo de Copacabana”.

A partir daí construiu sua trajetória de prisão de bandidos famosos. Boêmio, frequentador da noite, com fama de bonitão, Mariel arrebatou corações cobiçados, como o da atriz Darlene Glória, musa do cinema nacional, com quem teve um filho; a atriz em ascensão Elsa Castro; e a modelo e símbolo sexual Rosi de Primo. Teve também um tórrido romance com a travesti da família brasileira, a inigualável Rogéria. Sempre metido em falcatruas, acabou sendo preso e fugiu da cadeia com a ajuda da sua então esposa Elsa, indo passar um tempo no exterior. Conseguiu o inacreditável na década de 1970: ser expulso da Scuderie Le Cocq por mau comportamento. Mesmo perseguido, aparecia em estádios de futebol com jogos televisionados, ia a boates, se dava com celebridades da época, enfim…

Conseguiu redução de pena e, enquanto ficava albergado num presidio em Niterói, durante o dia trabalhava com o juiz Francisco Horta na Vara de Execuções Penais. Metido com jogo de bicho, Mariel ansiava chegar um dia à cúpula. Em outubro de 1981, ao sair do trabalho, dirigiu-se a uma reunião na fortaleza do contraventor Raul Capitão, onde se encontravam trinta bicheiros. Não chegou lá. Foi alvejado no caminho por oito tiros dentro do seu carro, nas imediações da Praça Mauá. O juiz Horta, seu protetor (e eterno presidente do Fluminense Futebol Clube), ao saber de sua morte, rezou um Pai Nosso com todos os membros do Conselho Carcerário e proferiu: “Foi assassinado aquele que, talvez, foi o maior policial que o Rio de Janeiro conheceu. Era um sacerdote”. Em entrevista posterior, comparou a emboscada que Mariel sofreu ao atentado vivido pelo Papa João Paulo II, na mesma época. Seu enterro foi acompanhado por muitas pessoas,  policiais choravam, e eu, menina de dez anos, assistia a tudo pela televisão.

O Esquadrão da Morte teve sua gênese no militarismo truculento de 1964, ódio aos direitos humanos, promoção da cultura de execução primária. Consentimento do Estado, financiamento empresarial, matadores profissionais (fardados ou não), ingredientes que se amalgamaram nos Anos de Chumbo e que renderam frutos. O que é a milícia de hoje senão um esquadrão da morte aprimorado? Nenhuma semelhança é mera coincidência.

Em 2000, a Scuderie foi extinta. Voltou timidamente em 2015, com o nome (não riam, por favor): Associação Filantrópica Scuderie Detetive Le Cocq. Em 2018 eles estavam panfletando para o candidato deles. Possuem página na internet em que tratam o golpe de 64 como Revolução, e os matadores de Lamarca e afins como heróis. Roni Lessa, o assassino de Marielle, é membro de honra. Poderia ser apenas um fim melancólico. Infelizmente, é o recomeço de tudo.

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