18/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capítulo 32 – parte 02

6 min read

Desci no ponto final, na Praça da Sé. Perdido no labirinto das ruas do centro, saí perguntando e consegui encontrar um ônibus que ia para o campus. Àquela altura, tudo o que queria era descolar uma cama para passar a noite e tirar um cochilo. Contudo, quando as coisas estão fadadas a dar errado, elas só pioram. Quando cheguei na cidade universitária, me deparei com um confronto entre os estudantes e a polícia justamente por causa do dormitório onde estava planejando passar os próximos meses. As autoridades do campus tinham intervido e os estudantes queriam o controle do seu espaço de volta. Na confusão fiquei sabendo que por conta daquele atrito não estavam podendo aceitar gente que não estudava ali. Sem saber o que fazer, me dirigi à administração da universidade para explicar minha situação e pedir ajuda. Só que meu ar de playboy e meu sotaque carioca não conseguiram convencer ninguém de que estava em apuros.

Sem outra opção, voltei para o diretório dos estudantes para ver se conseguia arranjar um lugar para ficar, mesmo se fosse para dormir no chão por algumas noites. Quando caiu a noite, a sorte sorriu para mim. Em meio ​à uma assembleia, cruzei com o Carlinhos, um maluco que conheci em Canoa Quebrada, a paradisíaca aldeia de pescadores no Ceará. Expliquei minha situação e depois de alguns telefonemas, ele me convidou para ficar na casa dele.

Agradeci de coração e depois que as coisas acalmaram pegamos um ônibus e fomos lá. A família morava bem, num apartamento amplo perto da Avenida Paulista com vista de cima para a teia de telhados de São Paulo. A acolhida não podia ter sido melhor, todos eram muito gente boa e a hospitalidade acabou sendo impecável a ponto de ser embaraçosa. Me trataram como se fosse da família: tinha um quarto só para mim, comiamos juntos e depois iamos para a sala de estar para ficar coversando ou assistindo televisão até tarde. Quando saia com o Carlinhos ele me apresentava para seus amigos como um herói. Além disso, tinha a irmã mais velha do Carlinhos, Alice, uma gata, que também tinha conhecido no Nordeste. Ela ficou contente – achei que até demais –  em me ver, mas a última coisa que precisava era pôr tudo a perder tentando alguma coisa com ela.

*

São Paulo era muito mais sofisticada que o Rio. Em todas as áreas e camadas sociais, os paulistas eram mais profissionais e mais polidos. Para um carioca, tudo era limpo, organizado e funcionava bem: ônibus, sinais de trânsito​, metrô, lojas, padarias. Havia mais formalidade e o nível intelectual em geral parecia padrão de Primeiro Mundo. Os jovens não eram os ratos de praia da Zona Sul se achando a aristocracia da cidade, na paulicéia nao havia tempo para aquele tipo de hedonismo arrogante e de pretensão. Seu estilo urbano, descolado porém de pé no chão, se aproximava ao que a gente via da juventude londrina através de revistas e de video clips. O punk e o estilo gótico caiam bem, ali os anos oitenta faziam sentido.

Após uma semana com a família do Carlinhos veio a hora de ligar para casa. Falei com minha mãe, expliquei que estava tudo bem e onde estava com a intenção de acalmá-la. Contudo, como era de se esperar, a reação da Renée foi a de pânico. Minutos depois da gente se despedir e de dar o telefone da casa no caso de uma urgencia, um amigo que estava morando em São Paulo me telefonou perguntando porque não o havia procurado. Larry era um americano com uma história parecida com a minha. A diferença era que tinha um lar nem mais usual que o meu , a família não estava sofrendo com a crise e por ter uma personalidade menos curiosa e aventureira nunca tinha se atrevido a sair dos padrões esperados da sua situação social.  O conhecia o das aulas de Bar Mitzvá e da Escola Americana. Pra falar a verdade, tinha seu telefone mas não o havia procurado porque era caretíssimo e um tanto chato. Quando éramos crianças a amizade só existiu por causa da insistência da dona Renée, maravilhada com a posição do pai dele, CEO da filial brasileira de um importante banco americano.

Larry tinha acabado de voltar de Miami. Apesar de seus dois irmãos mais velhos terem se estabelecido por lá, ele não havia gostado e agora queria fazer faculdade no Brasil. Assim que soube que estava em São Paulo, ficou louco para que ficasse com ele pois na sua cabeça eu representava o Rio da sua adolescência surfista. Quanto a seus pais – acreditem se quiser – me viam como uma boa influência pois era bom aluno quando estudávamos juntos.

Tive que aceitar o convite, pois não queria abusar da hospitalidade da família do Carlinhos. Além do mais, Larry também tinha que se preparar para o vestibular da FUVEST e com a ajuda de meus pais, nos matriculamos juntos no famoso curso Objetivo da Avenida Paulista, perto das sedes da maioria dos bancos e das grandes companhias e do enorme apartamento da família do Larry . Materialmente, minha situação ficou excelente: fiquei com um quarto e com comida por conta e com duas empregadas e um motorista à disposicao, não tinha que mover um dedo. Apesar do vazio que sentia e da frustração de ter caído de volta na teia da família, volta e meio me animava a acompanhar o Larry para azarar paulistinhas usando nosso jeito de carioca. Neste quesito o sucesso foi surpreendente.

No dia da prova, não havia praia para nadar na véspera nem o bom presságio de um desconhecido parecido com meu avô me olhando da calçada. Não estava nervoso, mas assim que abri o folheto e comecei a ler as questões, me dei conta de que o vestibular de São Paulo também era um nível acima do Rio. Primeiro, havia um teste de múltipla escolha onde fui bem, mas uma semana depois,  teve uma prova específica da área escolhida envolvendo respostas dissertativas e uma redação. Havia matérias que não faziam parte do currículo do Rio e quando confrontado por quatro ou cinco questões dissertativas sobre literatura portuguesa, que nunca havia estudado, não deu para enrolar e tive a certeza de que era o fim da linha para mim.

Essa foi a primeira derrota após uma longa fase de vitórias. Pensei em ficar em São Paulo num quarto alugado por mais um ano para tentar novamente, mas no auge da depressão econômica, até eu conseguia entender que aquela não era uma opção viável. Além disso, as coisas tinham piorado em casa; Rafael tinha sofrido outra parada cardíaca. Senti que era hora de voltar para o Rio para ser um bom filho pelo menos uma vez na vida.

Voltar

Inicio

Deixe uma resposta