25/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capítulo 25 – parte 01

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Capítulo 25

 

 "..Não me amarra dinheiro não
Mas os mistérios."

 Caetano Veloso - Beleza Pura

 

O barulho dos carros em alta velocidade indo em direção à Bahia naquela manhã quente e ensolarada prometia. Depois daquela noite bizarra, o que estaria nos aguardando estrada acima? Tínhamos dois meses de aventura pela frente. Animados, fomos de caminhão em caminhão pedindo carona para nosso próximo destino, Porto Seguro. Em pouco tempo conseguimos uma na traseira de um caminhão transportando carne seca.

“Podem deixar as coisas aqui na cabine, mas a viagem vai ter que ser lá em cima com os outros.”

Largamos as tralhas com um cara bem vestido ao lado do motorista e fomos para a traseira. Para subir, colocamos um pé no pneu, as mãos nas cordas grossas que prendiam a carga e num impulso paramos em cima. Lá, no plástico grosso que cobria a mercadoria, nos juntamos a um grupo de trabalhadores. Logo depois de nos acomodamos, o motor ligou e o caminhão partiu para a estrada. 

Sem entender o que estávamos fazendo ali, nossos companheiros deram umas boas-vindas desconfiadas. Usando roupas rasgadas e chinelos pré-históricos nos pés calejados, pareciam extras num filme sobre revolução na América Central. O caminhão pegou velocidade, ficamos todos curtindo em silêncio o vento da rodovia, eles segurando seus chapéus de palha e seus bonés para que não votassem. 

Viajar sem proteção em cima de um caminhão além de ser perigoso era ilegal. De repente, o cara bem vestido da cabine  abriu a porta, inclinou-se para fora e gritou: “Polícia!”

Todos tivemos que nos esconder embaixo do plástico engordurado por dez minutos enquanto ouvíamos o cara conversar com os policiais. Quando o caminhão partiu, ficamos deslizando sobre a carne escorregadia por mais cinco, até ele gritar dizendo que podíamos sair novamente. De volta a parte de cima do plástico passamos a fazer parte da galera. Para se fazer ouvir tínhamos que falar alto.

“Ó xente! Cês foi assaltado? Tão pegando carona por quê?”

“Estamos viajando sem grana pelo Nordeste, vamos subir até o Ceará.”

“Ceará?! Mas esse caminhão só vai até Feira de Santana!”

“A gente tá sabendo. Vamos descer em Eunápolis e de lá vamos para Porto Seguro.”

“Ah Porto Seguro, cês são sabido, terra de visitante bacana e de mulher bonita. Nós também vamo sair antes.” 

Um outro se juntou na conversa. “Nóis trabaia no frigorífico que fez essa carne seca. É fora de Vitória. Tamo voltando para casa depois de um mês.”

Um terceiro interrompeu: “Nós mora em Santa Maria do Paré, já ouviu falar?”

Respondi: “Não, nunca ouvi falar.”

“Ô Chico, esse carioca nunca ouviu falar de nossa cidade, passa a garrafa da cachaça de lá.”

A garrafa sem rótulo chegou em dois toques. “Essa cachaça é de lá, de alambique, é a mió dessa região toda.”

Um outro riu e gritou lá de trás: “Fala que é a mió do mundo!!”

O que tinha começado a falar com a gente disse: “Zeca, mostre a eles como que nóis bebe da garrafa. Num podi encostá na boca.”

As tremidas do caminhão e o vento forte faziam a manobra difícil. Depois dos três que estavam com a gente darem um gole, passaram a garrafa. “Beba aí, carioca!”

O Pedro foi primeiro e foi na manha, não caiu um pingo e ele sorriu para a galera tirando uma onda.

“Muito bem, carioca! Agora é você!”

Comigo não teve jeito, o caminhão deu uma sacolejada e a cachaça caiu fora da boca, escorreu até o pescoço e todos caíram na gargalhada.

Depois que a cana brava tinha passado pelas mãos de todos, outros se juntaram. A garrafa terminou logo mas apareceu outra. Quand a gente se deu conta ja estavamos bêbados e falando bobagem também.

“Meu irmão, essa carne seca foi a coisa mais fedida em que eu já deitei.”

“Minha mulher cheira mal assim, mas é de peixe!”

Após algumas horas subindo a BR aos solavancos e já com três garrafas de cachaça jogadas para o mato, o caminhão pegou uma estrada de terra e parou num bar no meio do nada. Todos saltamos e fomos para o balcão daquela cabana rústica. Nossos novos amigos fizeram questão de nos dar mais cachaça e nos ofereceram uma iguaria local: um órgão assado de um animal desconhecido, escuro, forte e em forma de um disco. 

“Isso aí é ruela de boi, vai te curar da cachaça.” Orgulhoso por nós sentirmos nojo, continuou: “Isso é uma dilícia e aínda faz o cabra dar cinco sem tirar de dentro.”

“Isso é o saco do boi amassado, não é não? Deixa eu cheirar esse negócio.” O cheiro só não fedia mais do que a carne seca debaixo do plástico quente misturada com bafo de cachaça.

Um deles pegou o pedaço dele, entornou um gole de cachaça, arrancou uma metade, mastigou um pouco e engoliu. “É assim que a gente come, come aí!”

Nosso orgulho nos forçou a fazer o mesmo. Estávamos embriagaos demais para ficar com nojo. Quando coloquei a coisa na boca, o sabor era tão ruim que curou a bebedeira na hora.

O cara bem vestido que tinha nos avisado da polícia – provavelmente um administrador – veio nos dizer que o caminhão já estava de saída e que o motorista estava a nossa espera. Ele e a rapaziada iam ficar ali até que o ônibus deles passasse e os levasse para casa. Nos despedimos da moçada e voltamos para o caminhão.

Dessa vez fomos na cabine e descemos em Eunápolis. Agora, estávamos apenas a uma uma hora de ônibus de Porto Seguro. Chegamos lá exaustos, mas com a sensação de que tínhamos cumprido a primeira missão. Foi fácil encontrar um camping perto da praia. Depois de montar a barraca, fomos curar a cachaça e limpar o fedor na água salgada curtindo o visual de fim de dia na praia cercada de coqueiros. A noite caiu rápido, achamos um chuveiro, tomamos banho e fomos dormir um sono merecido.

Passamos o dia seguinte nos esbaldando no sol e na água azul clara do sul da Bahia, curtindo a paz pela qual estávamos ali. A noite, fomos conhecer a vida noturna de Porto Seguro. Apesar de pequena e colonial, a cidade tinha muito charme e era quase urbana. O lugar era animado. O pessoal da terra enchia seus quintais com luzes coloridas, colocava mesas e cadeiras do lado de fora, entupia as geladeiras de cerveja, ligava o som no máximo e pronto, suas casas viravam lambaterias. 

A decoração e as pistas de dança pareciam com a de festas escolares, mas depois de convidar as garotas locais para dançar, logo se via que o jeito delas se esfregarem nas nossas coxas não tinha nada a ver com brincadeiras de recreio. Havia lugares mais caros e refinados abertos por pessoas que tinham se mudado das cidades grandes para lá, mas mesmo ali, não era surpresa sentir uma galinha bicar seu pé enquanto dançava. 

O engraçado é que, partindo dessa origem modesta, as lambaterias logo se espalhariam pelo país e seu sucesso ecoaria até mesmo na Europa.

*

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