22/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capítulo 24 – parte 01

8 min read

Capítulo 24

 

“...  E passo aos olhos nus,
Ou vestidos de luneta
Passado, presente, particípio
Sendo o mistério do paneta”

Novos Baianos - Mistério do Planeta

 

No final do primeiro ano da faculdade, Pedro e eu já éramos melhores amigos e tidos como a malandragem da sala. Com a chegada do verão, deteminados a ser mais fortes que a tempestade, resolvemos dar uma volta pelo Nordeste. O orçamento desta vez seria muito mais curto devido às condições. Não havia feito nada de extraordinário naquele ano, os negócios estavam difíceis e, farto do meu distanciamento do “mundo real”, Rafael se recusou a financiar a viagem. Do lado do Pedro, sua mãe viúva também não tinha muito para colocar na mesa. Para tornar a coisa viável, tive que vender meu querido Blues Boy e ele teve que pegar parte do dinheiro que seu pai havia lhe deixado. Mesmo assim, pelos nossos cálculos, só teríamos o suficiente para ir de ônibus até Vitória, e a partir de lá, tentaríamos chegar o mais ao norte possível pegando carona e acampando.

Apesar do prejuízo e dos possíveis contratempos, não queríamos outra coisa. Seria uma oportunidade de viver um sonho de mochileiro hippie, além de um alívio imprescindível da crise na cidade grande.  Enquanto o ônibus atravessava a ponte Rio-Niterói rumo ao Nordeste, não via a hora de chegar naquele Brasil idílico onde poderia voltar a ser eu mesmo.

Sabendo que as coisas só esquentariam depois que chegássemos na Bahia, não íamos ficar muito tempo em Vitória. Sem pertencer ao Sul nem ao Nordeste, a cidade não era nem moderna o bastante para a gente curtir a balada, nem exótica o suficiente para ser empolgante. O plano era acampar na praia por uns dois dias e de lá começar a fase de caronas e chegar à Bahia o mais rápido possível.

Assim que chegamos por volta do meio dia, pegamos um ônibus rumo ao bairro da Praia do Canto onde achamos logo um quiosque na beira da areia para deixar nossas mochilas. Foi lá que rolou nosso primeiro contratempo. O dono da barraca, um mulato magro de cabelo parafinado vestindo uma roupa de surfista e com óculos escuros coloridos, nos explicou que existia uma lei que proibia acampar em qualquer lugar da costa da cidade.

“Tiveram uns malucos que tentaram acampar aqui há duas semanas atrás. A polícia chegou a noite, tirou eles à força e ainda ficaram com a barraca. Se vocês quiserem tentar, tentem, mas está avisado.”

“É só aqui ou em Vitória inteira?”

“É proibido acampar na orla inteira, se vocês quiserem montar a barraca com os mendigos na praça é com vocês.” O cara encerrou com um sorriso irônico, já preocupado com outros fregueses que tinham acabado de chegar.

Virei para o Pedro. “Cara, e agora? A gente vai dormir aonde?”

“Sei lá, depois a gente vê. Não estressa, estamos de férias!”

Aceitei a sugestão. Depois que os clientes foram embora, trocamos de roupa rapidamente atrás do balcão. De sunga, numa cidade estranha, com o oceano aberto em frente e o sol forte, não pensei mais no assunto. O que queríamos era curtir o dia e curar o desconforto de uma viagem de 15 horas. No final do dia, com o pôr do sol chegando, a pergunta sobre onde dormiríamos naquela noite voltou à tona.

“Aê, de repente o cara falou aquilo só para assustar, vai ver que ele não quer ninguém acampado perto do quiosque.”

“Pode crer, também achei o cara meio mané.”

“De qualquer maneira, é melhor a gente ficar esperto, se a polícia chegar e levar a barraca vai ser foda!”

“E se de repente a gente armar a barraca naquele gramado ali em cima das pedras no final da praia?”

“Cara, tu tá maluco? Se não deixam acampar aqui, tu acha que vão liberar ali num parque público?”

“Então vamos para a casa do estudante universitário de Vitória? Não coloquei na lista, mas deve ter uma.” A gente olhou para o balcão e ele já estava começando a arrumar as coisas para ir embora.

“Tá muito tarde para isso, mas dá um guenta aê, que vou pegar as coisas lá no quiosque que o cara está fechando.”

Quando voltei, o Pedro estava conversando com um sujeito alto e desengonçado que tinha acabado de sair da água com uma máscara e um arpão.

Pedro, cujo pai tinha sido mergulhador, estava falando sobre mergulho genuinamente interessado. “Lá no Rio o mar é mais claro, mas volta e meia fica sujo assim também. Quando mergulhava com meu velho a gente chegou até a ver polvo.”

“Conheço o Rio, mas nunca mergulhei lá. O mar é mais frio, né? A água aqui é mais barrenta, mas até que dá para ver uns peixes. O Luiz lá dentro pegou um polvo no ano passado, mas foi em Guarapari.”

A conversa foi interrompida quando o tal do Luiz saiu da água e tirou a máscara de mergulho para vir falar com a gente. “E aí? Beleza? Luiz.”  O cara estendeu a mão e apertamos.

Depois ficamos  sentados na praia já semivazia conversando. Me surpreendi com o conhecimento do Pedro sobre o assunto, embora desconfiado de que a metade do que estava dizendo era mentira. Nao sabia nada de mergulho e enquanto o papo continuava, voltei a ficar ansioso por não ter ideia de onde ia dormir naquela noite.

A uma certa altura o assunto finalmente mudou. “Somos de BH e estamos na casa do tio do Fernando aqui, e vocês?”

A gente explicou a situação torcendo que fosse rolar um convite. Luiz, um cara com toda pinta de soldado e com ar de mandão, virou para o Fernando.

“E aí? Não dá para eles ficarem no quarto de empregada?” Ele se voltou para nós e perguntou.  “É só por uma noite, né?”

 Nem precisou a gente se consultar, acenamos a cabeça na hora dizendo que sim. O plano era passar duas noites em Vitória, mas dadas as circunstâncias uma já bastava.

Sem entusiasmo, o Fernando pensou um pouquinho. “É verdade, tem o quarto de empregada. Olha, é apertado e quente pra caralho, mas é melhor que ficar dormindo na rua que nem vagabundo.”

A gente não estava numa posição de escolher. “Pô, obrigadão, pode deixar que é por uma noite só, a gente vai pegar a estrada amanhã.”

O Luiz levantou impaciente. “Então tá decidido, a casa é aqui pertinho. Vamo nessa? Fiquei com fome depois desse mergulho.”

O Fernando, ainda um pouco relutante levantou também. “Vamo nessa. Essas aí são as tralhas de vocês?”

Pegamos as mochilas, a barraca e a viola e saímos atrás deles. O conjugado ficava num prédio alto e antigo em uma das ruas de trás. Era apertadíssimo. Depois de nos acomodarmos e tomarmos um banho estávamos prontos para o rango. Quando o Luiz falou que não tinha nada na geladeira, entendemos que a gente devia pagar uma janta para os caras em retribuição. Só que se não tínhamos grana nem para uma refeição boa para nós dois, quanto mais para dois marmanjos a mais.

Pedro também não falou nada e ficou subentendido que não ia rolar. O clima ficou esquisito mas pegamos o que estava na geladeira e devoramos uns sanduíches de queijo. A fome não passou e resolvemos ir de ônibus para a zona boêmia de Vitória, Vila Velha.

Duros, com a barriga roncando, ficamos andando pelo passeio feito uma matilha de cães. Acabamos num lugar que parecia um parque de diversões noturno, cheio de trailers vendendo comes e bebes e tocando música a todo volume. Na confusão, alguém viu uma mesa vazia cheia de petiscos e de garrafas de cerveja intocadas. O Luiz, já chefe de nós todos, fez um sinal para a gente parar e ficar esperando.  Passamos uns dez minutos vigiando. como os donos nunca voltatam, chegamos junto e discretamente tomamos conta.

Fui direto numa garrafa de cerveja já aberta, mas cheia. Assim que o gelado desceu, ouvi uma voz masculina afeminada me chamando de atrevido. Olhei para o lado e não era o Pedro de brincadeira nem um dos outros dois, era uma bicha loura alta com purpurina cintilando nos cabelos e na barba, olhando para mim com os lábios hidratados.

Quase cuspi a cerveja fora. “Desculpa, a gente pensou que não tinha ninguém na mesa, daí…”

“Menino, essa cerveja tem dono.  Eu e minha amiga estávamos dando uma volta e deixamos as coisas aqui. Será que não dá para fazer isso numa noite de domingo!?”

“Olha, desculpa mesmo, quanto custa uma cerveja? Te pago uma nova.”

O cara não parecia incomodado. “Deixa de ser bobo, garoto, senta aí e bebe com a gente.”

Quando olhei para o lado e vi a “amiga” dele, um moreno também coberto de purpurina com maquiagem nos olhos e se derretendo para cima do Luiz, a ficha caiu: havíamos caído na armadilha da dupla. Estava claro que eles queriam muito mais que cervejas novas e nossas desculpas. De qualquer maneira, como os dois mergulhadores pareciam mais confortáveis com a situação, Pedro e eu saímos de fininho e deixamos o problema com eles.

Rindo do acontecido, resolvemos deixar de ser pão duros e fomos comprar uns hambúrgueres e uns refrigerantes numa das barracas. Depois fomos dar uma volta. Não demorou muito para a coisa começar a ficar chata. Estávamos cansados e voltamos à mesa para ver quando iríamos embora. A novidade era que os quatro haviam se tornado íntimos e voltar para o apartamento não estava mais nos planos.

A “loura” foi a porta voz da decisão. “A gente ficou muito amiga desses dois moços e vai levar eles para conhecer a minha casa. Se vocês quiserem vir com a gente será um enorme prazer.”

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