15/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capítulo 17 – Parte 01

12 min read

Foto: Gita – Fotografia Profissional

Capítulo 17

    

“Bom viver graças ao calor do sol

Benfeitor dessa região…”

Gilberto Gil – Cores Vivas.

 

A situação não podia ser melhor  na chegada do verão de 1979. Integrado ao estilo de vida carioca, enturmado graças ao violão, membro titular da turma dos malucos do Colégio Andrews, tinha passado de ano com facilidade. As férias que vinham pela frente prometiam. Como recompensa pela boa atuação escolar – sem ter ideia do que se passava nas horas vagas – Renée e Rafael concordaram em patrocinar mais uma aventura de verão. O plano era ficar um mês e meio no sul da Bahia, a nata dos destinos alternativos na época, novamente na companhia do Davi. 

A região ao sul de Porto Seguro era um dos refúgios hippies mais procurados do país. Louvada em musicas por Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros filhos da Bahia, aquele ecossistema praieiro, vasto, quente e verde tinha sido poupado do saqueamento que os litorais dos estados do Rio e de São Paulo estavam sofrendo. A área era tão virgem que ainda havia tribos indígenas vivendo em reservas, o que contribuía para a sua aura de paraíso tropical. Somado a isso tudo, era próxima a cidade natal de Jorge Amado, Ilhéus, prometendo, em minha imaginação, uma imersão na cultura afro-baiana.

Desta vez, fomos sozinhos à rodoviária o que fez com que nos sentissemos mais maduros na hora de embarcar. A viagem era “apenas” trinta horas e nossos companheiros eram na sua maioria gente da região voltando para passar os feriados de fim de ano em casa.

Dada a destinação, como era de se esperar, para nossa alegria, havia um grupo de seis ou sete garotas de Ipanema com ar hipongo entre os passageiros. Assim que o ônibus pegou a estrada todas se levantaram para ficar conversando em pé no corredor do ônibus ou de joelhos nos assentos. Felizes por estarem saindo de férias longe da tutela dos pais num lugar da moda, cientes de que estavam chamando a atenção do ônibus inteiro, ficaram horas num papo animado. 

“Menina! Você tem que ver o biquíni que comprei na Company. Cheio de detalhes indianos, o máximo!”

“É?! A Marcinha foi lá na semana passada e disse que viu umas cangas de batik lindas, meio sedosas, importadas da Índia. Fiquei morrendo de vontade de comprar, mas não deu tempo.”

“Amo de paixão tudo na Company!”

“Também adoro!” 

“Por falar em adorar, você já viu as fotos da pousada onde vamos ficar? Maravilhosa!”

“Vi, o Flávio tirou quando ficou lá o ano passado, uma viagem.” 

“E a praia, viu que escândalo?”

“O Flávio mudou muito depois que passou a namorar a Adriana, não acha?”

“É, ele se afastou, mas pudera, ele é um gato, você não faria o mesmo se fosse ela?”

“Não sei, não gosto daquela menina.”

Aquelas vozes altas ficaram abafando qualquer outra possibilidade de conversa entre os passageiros. O problema para nós é que, apesar da superficialidade, eram todas lindíssimas, os corpos torneados por muita academia de ginástica, a pele bronzeada pelo sol de Ipanema e tratada com os melhores produtos disponíveis nas prateleiras das melhores lojas. Com certeza não eram frequentadoras do Nove, burguesas demais para isso. Talvez fossem frequentadoras da praia em frente ao Country Club, onde a galera abonada ia. Mesmo que talvez fossem areia demais para o meu caminhãozinho, pensei comigo que não custava nada tentar.

No dia seguinte, depois da parada para o café da manhã, quando voltaram para seus lugares, a que estava sentada do lado oposto ao meu assento olhou para o meu lado e aproveitei para puxar um assunto. 

“E aí? Vocês estão indo para Ajuda também?”

“Não, a gente está indo para Prado, mais ao Sul, é linda! Você conhece?”

Feliz por sentir um sutil desapontamento por a gente estar para um destino diferente continuei. Quem sabe a gente não se esbarrasse depois das férias no Rio?

“Ouvi mararavilhas sobre o Sul da Bahia, mas nunca ouvi falar de Prado. Deve ser muito legal.” Mentira, pelo que tinham me dito era um lugar sem graça, com areia meio estranha e pouca gente de fora.

Já ciente que as amigas estavam antenadas no papo ela falou “Pois é, queria ir pra Ajuda também, mas o ex-namorado da minha amiga ficou numa pousada lá no ano passado e convenceu todo mundo a ir. Não sei como, Ajuda é bem mais legal.”

Desajeitado, tentei dar uma risada madura, “E por que Ajuda é mais legal?”

“O pessoal que vai lá é bem mais interessante, a aldeia é bem mais bonita e além do que, o Gabeira está indo passar o verão lá.”

Aquela notícia me tirou do estado de azaração. “Sério? O Fernando Gabeira, o Rei do Nove, está indo para o Arraial d’Ajuda?” Senti que estava perguntando por um monte de gente ali dentro. “Como é que você sabe?!” soou meio grosso, mas senti que ela curtiu a sensação que tinha causado.

“Minha irmã conhece uma amiga dele. ” ela respondeu com orgulho. “Mas está todo mundo sabendo.”

O Davi se meteu na conversa. “Putz, será que o preço das pousadas vai subir por causa disso?”

A pergunta foi tão cretina que queimou o meu filme por tabela. Foi uma outra que respondeu. “Uma coisa não tem nada a ver como a outra, de qualquer maneira ele vai alugar uma casa lá.”

O único cara do grupo das meninas, desmunhecadíssimo, se levantou e se meteu na conversa com ar de especialista: “A Yara disse que ele está indo primeiro de avião para Salvador e depois vai descer de carro. Ele chega na quinta-feira que vem.”

Aquilo matou o papo, agradeci e, sem ter mais assunto, fiquei em silêncio, ela também. 

Na próxima parada, comendo um sanduíche de queijo suado num pão francês duro e bebendo café com leite num copo de vidro brinquei com o Davi.

“Não basta ficar vendo o cara de tanguinha no Nove, vamos ter que engolir ele aqui na Bahia. A culpa é tua, bonitão! Ele está te seguindo!”

As garotas desceram antes de todo mundo, perto de Prado, deixando o ônibus menos florido. Contudo, o efeito da notícia-bomba que largaram seguiu. Mesmo a peonada que só o conhecia da foto entrou na conversa. 

“O Gabeira que cês tão falando é aquele homi de tanga na praia?! Iche! Que coisa horrívi!”

Depois que chegamos, descobrimos que dos motoristas de Kombi aos hippies velhos, todos estavam estavam sabendo do visitante ilustre. Não só lá mas no país inteiro. A imprensa tinha uma tradição de dar nomes aos verões. Naquele, quem levou o título foi o ex-demonizado ex-guerrilheiro urbano que depois de ser anistiado tinha se revelado articulado, inteligente e bissexual. Dava um certo orgulho pensar que no auge do verão do Gabeira, o teríamos como vizinho de praia por seis semanas.

*

O ônibus só ia até Porto Seguro, que ficava a poucos quilômetros do Arraial d’Ajuda. Para chegar lá, ainda tinha que pegar uma balsa de madeira tosca que cruzava o largo e lamacento rio Buranhém. De lá, pegariamos uma Kombi/lotação que ia até o nosso destino final.

Quando chegamos na outra margem, parecia que estavamos entrando num outro mundo. Depois que descemos e da balsa ter partido de volta, havia apenas a kombi vazia, mato e silêncio em torno do casebre tornado estação das barcas. O sol estava forte e uma brisa soprava o cheiro do rio misturado com o do mar trazendo consigo o barulho das águas. Ficamos ali pelo menos uma hora esperando pela Kombi que só iria sair depois que todos os lugares estivessem tomados. Era como estivessemos na fronteira da chamada civilização. Nossa companhia eram duas mulas pastando e os dois ou três locais que tinham atravessado conosco sentados olhando para o nada. A balsa que veio a seguir trouxe outros aspirantes a hippie e mais um punhado de locais. O motorista apareceu do nada e com todos os lugares tomados, partimos. A estrada, meio de terra e meio de areia, passava por um mato fechado que abria para uma clareira, que me pareceu um campo de futebol. Logo depois dela subimos um morro e a Kombi parou na praça de terra batida da aldeia.

Já era fim de tarde quando descemos. Não tínhamos lugar para ficar, mas já no caminho um cara de São Paulo que já estava ali a três semanas tinha se oferecido para rachar um quarto naquela noite, já que seus amigos só iam chegar no dia seguinte. Pegamos nossas mochilas e saímos acompanhando ele até a casa. A dona, uma senhora da terra simpática com ar sereno e com cheiro de banho recém tomado, nos deu as boas vindas num sotaque bahiano charmosíssimo. Fomos para o quarto e assim que colocamos as tralhas no chão, agradecemos e saímos par dar uma volta de reconhecimento. 

Não havia luz elétrica na aldeia. Nunca tínhamos presenciado um anoitecer assim e ficamos encantados no ato. O fim do dia e a brisa fresca vinda do mar pareciam amalgamar tudo numa coisa só; a vista de praias selvagens que pareciam não ter fim e aquela aldeia encravada no topo do morro. 

Não havia carros, asfalto ou lojas propriamente ditas num raio de kilometros. As casas velhas e pequenas eram pintadas com cores vibrantes, fazendo a praça principal e as ruelas a sua volta parecerem uma pintura cubista. 

O lado de fora das janelas parecia integrado com a vida acontecendo do outro lado delas. As velas e as lamparinas flamulando nas casas eram bem mais aconchegantes do que as lâmpadas elétricas às quais estávamos acostumados na cidade e cuja agressividade destruiria o zen daquele anoitecer. 

*

No dia após nossa chegada, achamos um quarto na área destinada aos visitantes menos endinheirados. Eram cabanas erguidas às pressas em torno de um terreno baldio, logo atrás das construções originais. Seus proprietários eram gente das cidades próximas investindo no futuro da aldeia onde a eletricidade estava programada para chegar possivelmente no ano seguinte. Havia bastante deles começando a perceber o potencial para o turismo do lugar. Alheios a tudo, jumentos, vacas magras e cães de rua pareciam gostar do isolamento dessa parte da vila, talvez porque os veranistas os deixassem em paz. 

Conforme fomos conhecendo os moradores do lugar melhor fomos vendo que, tal qual os menos favorecidos nas grandes cidades, tinham dificuldades para colocar comida na mesa. Só que comparados com moradores de favelas, o povo d’Ajuda parecia mais saudável, mais harmonizado às cercanias e em paz com a vida. Já havia sinais de “progresso”. Ao redor da praça tinham aberto um ou dois bares destinados aos visitantes, também pertencentes à pessoas de fora. Mesmo assim, a infraestrutura era básica, não havia água encanada e os preços da hospedagem e da alimentação eram ridiculamente barato. 

Na semana seguinte, ficamos sabendo que o Gabeira tinha alugado uma das acomodações caras e isoladas de frente à praia. Apesar de não se misturar conosco, meros mortais, era frequentemente visto com sua tanga fio-dental, às vezes só, às vezes acompanhado por um ou outro seguidor dedicado. Embora vê-lo causasse uma certa comoção, o ex-guerrilheiro-tornado-estrela parecia fazer questão de não interagir com ninguém. Resolvemos ignorá-lo também. 

Em contrapartida, depois de alguns dias já éramos amigos – ou pelo menos conhecidos – de todos, tanto os locais quanto os outros visitantes. Nossa rotina diária era divina. Acordávamos no meio da manhã e íamos direto até um restaurante natural para tomarmos um café composto de banana amassada com calda e aveia. Com a barriga cheia e o corpo se sentindo bem do mar e do sol do dia anterior, pegávamos a trilha de areia que levava à praia pelo meio do mato selvagem. Lá, passávamos o resto do dia jogando futebol, frescobol ou vôlei, caminhando pelas praias desertas e conhecendo pessoas novas. Uma das melhores facetas d’Ajuda era que os locais não nos viam como máquinas de sacar dinheiro, mas sim como convidados ilustres e ficavam na sua. Às vezes, um ou outro passava vendendo banana frita, água ou cerveja. Se a gente quisesse comprar com ele, beleza, mas se não, ficava no seu canto curtindo a praia na sombra e apreciando discretamente a beleza generosamente exposta das visitantes da cidade grande.

O sol era tão forte que as poucas nuvens que vinham do oceano eram bem-vindas. Havia pancadas de chuva ocasionais que nunca duravam mais do que quinze minutos. Quando derramavam sua agua, todos na praia corriam para o mar para sentir os pingos doces molharem seus rostos com o resto do corpo protegido pela água salgada, morna e calma.

No fim da tarde, a gente retornava ao vilarejo para se reunir atrás da velha igreja da cidade. O sol se punha devagar no oceano por tras do vale coberto pela mata se transformando em uma gigante bola alaranjada, suas cores colorindo o mar e o céu azul-escuro. Após um dia inteiro de sol forte, o corpo castigado, mas refrescado, pela água salgada recebia com carinho o sopro de ar quase frio do fim de tarde. Às vezes, havia uma roda de capoeira, onde os caras demonstravam suas habilidades enquanto os outros em volta cantavam e batiam palmas ao toque do berimbau.

*

O único lugar com água corrente ficava numa caverna com uma fonte natural cuja existência os vilarinhos atribuíam a um milagre. Na entrada havia uma estátua de Nossa Senhora d’Ajuda em frente da qual os veranistas tinham que esperar sua vez em fila segurando suas toalhas e seus apetrechos de banho. Já o banheiro era o maior do mundo, o mato.

Depois de nos livrarmos do sal grudento nas águas da santa, voltávamos à cabana para colocar um short seco, uma camisa e os chinelos. De lá, com fome, mas nos sentindo ótimos, íamos comer os pratos feitos que as mulheres da aldeia vendiam nas portas de suas casas: peixe frito, arroz, feijão e farinha. Satisfeitos, estávamos animados para as festas improvisadas nos poucos bares e botequins do lugar. Dentro deles, as lamparinas de querosene colocadas nas mesas conferiam uma aura de antiguidade, projetando sombras espessas sobre as paredes e nos clientes. Eu, como vários outros, tinha trazido o violão e nossos sons improvisados eram a trilha sonora que animava as noites. Quem chegava tinha que afinar com quem já estava lá.

“Acho que o Lá não afinou, dá para ouvir de novo? ” Dava uma torcida na ararracha, conferia de novo. “Valeu!”

“Conhece a levada de Frevo Mulher? É fácil, começa assim; em Fá sustenido menor e depois sobe para sol, aí fica num vai e volta e depois desce para mi menor. Entendeu?”

“Acho que sim.”

A percussão não precisava de afinação. “Zinho, a batida é de frevo, tá pronto?”

“Vambora!?”

“Vamo!”

O som começava e a energia entre os tocadores decolava. Não era só frevo, era afoxé, samba, rock, blues, funk e o que mais desse na telha. A gente ficava feliz quando as garotas mais bonitas se levantavam para dançar e isso era a regra. Às vezes, um outro instrumento aparecia do nada com um alguem que tocava muito. Estas novas adições; flautas, saxofones, violões, ou mesmo percussão eram sempre bevindas e faziam com que o som tomasse um rumo especial. Várias sessões terminavam com o povo dançando e cantando músicas que todos haviam criado juntos na hora. 

A lua era tão radiante que podíamos descer até a praia como se estivéssemos fazendo uma caminhada à luz do dia. Lá embaixo, a areia clara e brilhante, a espuma branca, o som das ondas e do vento nos uniam à natureza de uma forma intraduzível. O céu limpo, juntamente com a inexistência de luzes elétricas por quilômetros, fazia com que as constelações se destacassem de uma maneira que nunca tinha visto antes. A coisa mais impressionante eram as estrelas cadentes que volta e meia cortavam o firmamento. Sentávamos na areia durante horas, conversando e tocando violão. Quando retornávamos à vila e entravamos de volta nos bares, era como se o calor humano emanando das pessoas lá dentro renovasse a energia colhida na praia.

*

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