18/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capítulo 02, parte 2

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Assim como inúmeros imigrantes que através dos séculos partiram da Europa em busca de ares melhores, na hora de partir meus pais estavam mais interessados na promessa de felicidade do que na realidade que iriam encontrar. Foi como se tivessem acreditado num comercial enganoso: se encantaram com as cenas lindíssimas de praias mas não prestaram atenção no contrato mencionando o pântano traiçoeiro logo atrás. A verdade é que o Brasil, mesmo naqueles anos dourados, era muito mais complexo do que a Zona Sul carioca. Atolar a vida num terreno lamacento era uma possibilidade muito real.

Os filhos vieram num momento de trânsito em torno da criação de um personagem especial, de sucesso financeiro e de um processo de adaptação ainda não resolvido. Primeiro veio minha irmã, Sarah, e cinco anos mais tarde foi a minha vez. Nasci em 1962 no há muito demolido Hospital dos Estrangeiros, no morro da Babilônia, entre os bairros de Botafogo e de Copacabana. Como veremos, estes dois nomes não poderiam ter sido mais emblemáticos. Quanto ao futuro, havia um sinal de aviso na passagem mais bonita do Hino Nacional: “Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada Brasil”.

*

Rafael se reconectava com seu universo em caminhadas de madrugada pela praia deserta. Na paz e na simplicidade daquelas horas, ele se sentia bem dividindo o bairro com empregadas em busca do primeiro pão quentinho – seu cheiro maravilhoso saindo das padarias dos imigrantes portugueses e se dissipando na maresia fria das ruas desertas –, com raros porteiros zelosos limpando as entradas dos edifícios e com os bandos de cachorros vira-lata que corriam atrás de caminhões de leite e de jornais.

Adorava quando ele me levava junto. Depois de atravessar a avenida deserta, tiravamos os chinelos e cruzavamos a areia húmida até chegar na beira da água. Lá, com a praia só para a gente, começávamos nossas caminhadas. Na falta de outro assunto, e talvez precocemente, eu puxava conversas existenciais. Enquanto o sol dissipava a bruma e o mar desmanchava nossas pegadas na areia molhada, lhe perguntanava sobre o significado da vida, sobre a existência de Deus, do porquê das coincidências, de como era possível explicar a sorte e outras coisas que não conseguia entender. O que​ sabia, Rafael respondia da maneira mais fácil que conseguia e quando não tinha resposta, mudava de assunto.

As andadas eram sempre até a colônia de pescadores na ponta da praia de Copacabana, o Posto Seis. Sua sede era uma das primeiras construções do bairro: um velho barracão de madeira onde vendiam sua pesca a donos dos restaurantes, ao comércio e a moradores dos arredores. De dia, ao lado do depósito, dúzias de pequenos e coloridos barcos pesqueiros de madeira descansavam sobre a areia em meio a redes. Gaivotas disputavam os restos da pescaria com cachorros magros, observados por jumentos sonolentos e bodes amarrados. Ao seu redor, enxames de moscas zuniam no cheiro forte de sal e de peixe podre que permeava o ar.

Antes do amanhecer, os pescadores morenos de ar não urbano, partiam em grupos de cinco ou seis. Os mais experientes ficavam na praia coordenando a atividade através de gritos, assobios e sinais. Na hora que chegávamos à colônia, o sol já iluminava os barcos que voltavam. Para tirá-los da água, os homens deitavam troncos de árvores na areia à frente das embarcações e as empurravam com toda força até que chegassem na área seca próxima da avenida.

Os peixes vinham logo depois, presos em redes gigantescas. O momento de puxá-las para a areia era um mini festival. Os pescadores sempre precisavam de reforços e nunca faltavam voluntários. Um grande círculo humano se formava trazendo as centenas de criaturas, pulando em todas as direções ao tentar se libertar. Ja espalhados na areia, enquanto se contorciam em busca de ar, os patrões separavam os melhores pescados e deixavam o resto para quem havia ajudado.

Às vezes, meu pai me deixava participar. Como todo mundo, depois de suar e de maltratar as mãos nas cordas, fazia questão de aceitar os peixes que ofereciam. De volta em casa, invariavelmente meus troféus acabavam no lixo, ou por serem pequenos demais ou por não serem bons o suficiente para nossos jantares pretensiosos.

*

Poucas horas mais tarde, as famílias iam para a praia. Elas saiam dos prédios tal como cardumes surgindo das barras dos rios e nadando em direção ao mar. A manhã começava com babás ou mães girando o pé do guarda-sol para dentro da areia até que o cabo se firmasse. Quando não conseguiam, sempre havia por perto vendedores ambulantes ou salva-vidas para dar uma mão. Findo o processo, abriam os guarda-sóis que passavam a fazer parte do tapete de pontos coloridos que cobria os kilômetros areia dourada. Depois era hora de estender as toalhas, desdobrar as cadeiras e, por fim, liberar as pranchas, bolas e baldinhos para a gente brincar com os amigos.

Aquilo era um parque de diversões sob o sol escaldante. Corriamos atrás de cardumes de peixinhos na água transparente, nos enterrávamos na areia, levantávamos barragens para conter as ondas, caçávamos tatuís – bichinhos que viviam debaixo da areia molhada – cavávamos túneis, construíamos castelos e fazíamos guerras de areia.

Para descansar, a gente se sentava na beira da água e ficava espiando o fluxo constante de pessoas que iam e vinham. De tempos em tempos, os adultos acenavam para a gente voltar ao guarda-sol. De volta às bases, mandavam a gente se limpar e paravam um dos vendedores ambulantes que cruzavam a praia carregando caixas de isopor com picolés da Kibon ou mini tanques de lata com Matte Leão. O gelado doce dos seus refrescos era perfeito para amenizar o sol forte.

Apesar de imprescindível, o sol não era o rei da praia, quem comandava o espetáculo era o mar amplo e aberto na nossa frente. Ele era a liberdade completa que só a natureza pode oferecer. Depois da arrebentação, gaivotas mergulhavam para pescar criaturas que saiam do mar se debatendo nos seus bicos. Às vezes, golfinhos pulavam para fora d´água e, mais raramente, cações inofensivos mas com barbatanas parecidas com as de tubarões, passavam causando comoção na praia.

A água salgada do oceano era muito mais gostosa e refrescante do que qualquer chuveiro ou do que qualquer piscina. Conforme íamos adquirindo mais intimidade com a agua, íamos descobrindo as ondas e aprendendo a mergulhar por baixo ou pelo meio da sua espuma.

Em tardes com vento, meninos desciam das favelas. Não se aventuravam na água; a diversão deles era travar batalhas aéreas com suas pipas artesanais. Alguns passavam cola com vidro moído nas suas linhas para que ficassem mais eficazes na hora de cortar as dos outros. Uma pipa girando descontrolada no ar era o sinal de que um grupo havia tomado o escudo voador de outro. Quando finalmente caía na areia, a meninada saia correndo às dezenas para apanhar o troféu.

No fim do dia, quando o sol ia descendo, a praia parecia relaxar. O calor ficava menos intenso, uma brisa aparecia e a sombra dos prédios começava a cobrir a areia. As áreas ainda recebendo sol ficavam com um dourado que pintava a tudo e a todos na praia com um colorido especial. De vez em quando, grupos de amigos vindos do morro aproveitavam o frescor da hora para fazer uma roda de samba, oferecendo uma trilha sonora especial àquela hora do dia.

Enquanto me esbaldava na areia, dona Renée, já desinteressada da praia, preferia ir ao clube jogar tênis, Sarah já frequentava a escola e seu Rafael garantia o conforto da família no escritório no centro.

Minha companheira de praia era Pilar, uma babá portuguesa bonita de vinte e tantos anos. A única coisa de que me lembro bem dela é de ficar espiando o seu corpo nu com marcas de maiô enquanto tomávamos banho juntos depois da praia. Na banheira, podia examinar todas aquelas coisas sobre as quais tinha conversado com meus amigos e que não sabia como funcionavam. Pilar acabou se casando com meu barbeiro, o gentil Sr. Ribeiro, também português porém baixo, barrigudo, de bigode e com os cabelos louros e encaracolados. Certamente para atrair sua simpatia, sempre me guardava balas Soft, chicletes Ping-Pong e as mais recentes revistas Manchete, Cruzeiro e Placar, proibidas em casa mas que eu adorava.

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