15/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Samba Perdido – Capítulo 21 – Parte 01

9 min read

Capítulo 21

 

“Sagrado e profano

O Baiano é

Carnaval!”

Chame Gente – Moraes Moreira 

 

Meu status em casa saltou para as alturas depois do sucesso no vestibular. Como prêmio, Rafael resolveu me dar um Fusca 1973 azul claro, que apelidei de Blues Boy. Ainda que barato e velho era um carro e, que me lembre, amigos de lares muito mais prósperos tinham recebido apenas um tapinha nas costas por não fazer mais do que sua obrigação. 

Li esse gesto como uma tentativa de reconciliação dele com um filho incompreensível que se recusava a ouvi-lo e que fugia da sua companhia. Nosso convívio era difícil. De gerações completamente diferentes, nascidos em mundos opostos, havia um fosso nos separando em termos de perspectivas, de familiaridade com o que estava à nossa volta e do que buscávamos da vida.

Num mundo longe das minhas descobertas, a realidade do Rafael estava difícil. Já beirando os 80 anos, lutando bravamente contra os problemas normais da idade avançada, haviam dificuldades imprevistas com o presente. Apesar do patrimônio acumulado, o Brasil tinha se revelado uma decepção. Quanto mais convivia com o “jeitinho brasileiro” nos negócios e com autoridades tortas, menos gostava do país. Com os dias do milagre econômico num passado distante, quase três décadas depois da sua chegada, o país estava em queda livre e havia uma nova política de restrição às importações. Essas duas pancadas atingiram seus negócios em cheio. Mesmo que achasse desnecessário expressar suas angústias, elas estavam sempre à flor da pele.

No meio das suas preocupações estava o meu futuro. Apesar da predileção indisfarçada pela Sarah, talvez o seu único verdadeiro amor na vida, Rafael silenciosamente queria que eu chegasse a alturas que o seu passado o havia barrado; a respeitabilidade de um diploma universitário e a estabilidade de uma profissão.

O destino e o instinto de sobrevivência haviam dirigido a sua vida, ao passo que eu tinha escolhas, ou pelo menos achava que tinha na altura. Diferente dele na sua juventude, tinha a liberdade de me misturar com todos a minha volta e de curtir sem ser vítima de preconceitos e sem ter medo de passar necessidade. Talvez por isso, para ele, a tempestade existencial na qual tentava conciliar o mundo de fora de casa com o que se passava dentro dela, era algo que escapava à sua compreensão e ao seu respeito. Talvez agora, comigo na faculdade de economia, essa bobagem iria acabar e os estudos a sério poderiam ser a salvação de uma personalidade mimada e egoísta.

*

Sem se importar com os conflitos mudos em casa, o verão carioca estava no auge, e com ele a temporada de curtição. Agora pré-universitário, sem a paranoia do vestibular, só queria saber de praia e de aproveitar as outras maravilhas que minha cidade tinha para oferecer. Meu querido Blues Boy prometia ser uma grande ferramenta para essa tarefa, porém, antes de ganhar as chaves, havia a barreira da carteira de motorista. 

A ideia da minha pessoa no volante causava arrepios em casa. Isso era devido a uma aula de direção que Renée havia resolvido me dar em Teresópolis quando adolescente. A caixa de câmbio do carro da família, um Opala bege, era manual e saía da coluna de direção. Logo na primeira tentativa, embaralhei as instruções e ao invés de sair devagar em primeira, acelerei o carro em marcha à ré. Se minha mãe não houvesse tido o instinto de puxar o freio de mão na hora, teríamos caído em um despenhadeiro bem atrás da gente. O valor cômico da cena não foi captado pelo meu pai de 77 anos que estava nos observando fora do carro e ele passou mal. Nunca houve outra aula.

Porém, na época em que ganhei o fusca, o que os dois não sabiam era que seu filho já tinha começado uma carreira secreta de motorista. Ela tinha começado no dia em que decidi colocar um anúncio no jornal oferecendo aulas de violão. Com a mesada definhando devido aos problemas nos negócios, precisava de dinheiro para manter o nível de farra e essa foi a melhor ideia que veio à cabeça.

Dois dias depois o telefone tocou. A voz dela era rouca, algo que sempre me deu um certo tesão. Enquanto processava isso, a cabeça já estava “Caralho, uma aluna!!”

Tentei soar profissional. “Sim, as aulas são particulares para iniciantes. Também dou aulas de bossa nova para alunos mais avançados.”

“Ai, adoro bossa nova, mas nunca toquei violão. Quanto tempo você acha que levaria para aprender?”

“Bom, isso vai depender da tua habilidade e do teu esforço. Por que você não tenta uma aula, e daí a gente avalia?”

“Ah, não sei, esse número é de Ipanema. É muito longe. Eu moro na Tijuca, conhece?”

Menti. “Conheço, claro. Posso ir aí, mas como disse no anúncio são vinte e cinco cruzeiros na casa do aluno.”

“Não dá para fazer a primeira aula de graça? Só para eu sentir se vou gostar ou não?”

Considerei as coisas, mesmo se aquela a voz no telefone fosse a de uma deusa a Tijuca era longe demais. “Olha, não dá, principalmente porque fica tão longe.”

Para minha surpresa, ela concordou. “Então, está bem. Que dias você pode vir? Só posso nos fins de semana.”

Blefei. “Um instante, deixa eu ver minha agenda.” Esperei um pouco e respondi. “Tenho uma abertura no sábado à tarde da semana que vem, às três, pode ser?”

“Para mim está ótimo.”

Animado, peguei o endereço e depois de desligar comecei a planejar as aulas. Ia imitar o Romualdo. Primeiro, exercícios para fortalecer os dedos, depois acordes e depois as primeiras músicas fáceis. Só isso já daria quatro ou cinco aulas, cem cruzeiros no meu primeiro mês como professor… nada mal.

No sábado seguinte, lá estava eu, violão em punho, sacrificando um dia ensolarado de praia na linha 464 rumo à Tijuca para dar minha primeira aula na vida. Me senti bem dando os primeiros passos para ganhar meus primeiros trocados. Pedi para o motorista me avisar quando o ponto chegasse. Quando desci, segui as informações e consegui achar o prédio. Estava na hora e, nervoso, apertei o botão do apartamento no porteiro eletrônico. Depois de um tempinho ela atendeu e mandou subir. 

O apartamento era apertado. A sala era decorada com móveis de fórmica organizados em torno de uma televisão enorme, uma cortina feia cobrindo a janela de alumínio e fotos de família penduradas na parede. A aluna, Marineide, foi uma decepção. Parecendo tonta demais para aprender o instrumento, era mais nova que eu, maquiada mas com um bigodinho mal disfarçado, cheirando a perfume barato, unhas pintadas e com uma blusa semitransparente cobrindo o corpo roliço, ela me convidou para entrar. Em pé na sala, confuso, senti vontade de sair correndo daquela roubada mas me segurei e fui profissional.

Tentando parecer sério, perguntei: “O teu violão?” Depois de um silêncio inconfortável sob seu olhar extra terrestre, continuei. “Você disse que ele está todo desafinado. Posso dar uma olhada?”

“Ah, claro!” Ela voltou a estar presente, mas parecia nervosa. “Ele está no meu quarto. Se importa em dar a aula lá?”

Com uma estranha desconfiança de que o motivo que ela tinha me chamado ali não tinha nada a ver com aprender violão, entrei no quarto apertadíssimo e exageradamente arrumado. O violão estava fora da capa, na cama.

“Tem um banquinho para me sentar aqui no quarto? Prefiro dar aula vendo o que o aluno está fazendo.”

“Claro! Tem um banquinho na cozinha; serve?”

“Serve, claro. Obrigado” Enquanto ela foi para cozinha, tirei meu violão da capa e saí afinando o dela sentado na cama.

Ela voltou com um copo d’agua gelado, mas sem o banquinho. Eu já tinha afinado o violão.

Bebi a agua e toquei uns acordes nele. “Nossa! Tá todo afinado! Ai, estou doida para aprender, você acha ele bom para o meu tamanho?”

“Ele é pequeno, mas vai servir.”

Ela se sentou do meu lado na cama. “Posso experimentar?” Ela passou as unhas afiadas, que eu ia ter que pedir para ela cortar, nas cordas. “Viu? Não sei tocar nada.”

A fim de começar a aula e sair dali o mais rápido possível eu perguntei: “E o banquinho?”

“Você tem certeza de que precisa do banquinho?”

“Sim, não vai dar para te ensinar nada sem sentar de frente.”

“Tá bom, vou trazer, mas posso ouvir você tocar uma música antes de ir lá pegar?” Achei estranho, talvez quisesse me testar, por isso toquei Aquarela do Brasil num arranjo complicado que impressionava.

Quando terminei, dava para ver que ela estava impressionada. “Nossa, gato, como você toca bem!”

Estava pronto para começar a aula. Ela levantou, mas em vez de ir pegar o banco e sem pedir licença, ela se ajoelhou na minha frente se apoiando nas minhas pernas. 

“Sabe o que é? É que sou apaixonada por violeiros e quando eu ouvi tua voz no telefone, achei ela tão gostosa que senti que tinha que te conhecer pessoalmente.”

Fiquei sem resposta e sem ação. Depois daquilo, me deu uma olhada safada, tirou o violão da frente, abriu minha braguilha e colocou a mão dentro. As “joias da família” reagiram no ato. Sem pedir permissão, ela baixou meus jeans e aplicou seus talentos. A aula estava encerrada.

Feia, não muito inteligente e deveras comum, a Marineide não fazia o meu tipo mas era safadíssima e só saí de lá tarde da noite. Houve mais “aulas” e, viciado no que estava me dando, atravessei as barreiras de minha vida social esquizoide e acabei a apresentando aos amigos de baseados e de música. 

Foi aí que o carro entrou em cena. Num fim de semana prolongado, minha ex-possível aluna tornada amante, colocou o carro do pai dela à disposição para a galera ir para Mauá. Como ela não tinha ideia de como usá-lo, confiou na minha habilidade inexistente como motorista. O entusiasmo levou a melhor sobre o medo O paraíso hippie ficava a quatro horas de carro, duas horas e meia rodando pela rodovia mais importante do país, a Via Dutra, que liga São Paulo ao Rio, e o resto subindo por estradas de terra entre as montanhas e resolvi encarar aquilo sem carteira de habilitação, contando com o pouco conhecimento adquirido com minha mãe em Teresópolis e pelo que tinha ouvido falar. .

Quando o dia chegou, passei a noite na casa dela e partimos bem cedo para a casa de Kristoff para apanhar ele e o resto da galera. Tive sorte, porque de madrugada não havia nem trânsito nem policiamento. Depois de atravessar vários sinais vermelhos, Marineide, que até então não tinha dado um pio, gritou apavorada.

“Rique!!! Você vai entrar numa contramão!”

“Cacete! É mesmo!”

 Não pensei duas vezes e virei totalmente o volante. À toda, o carro começou a derrapar, mas os pneus obedeceram, conseguindo evitar por poucos centímetros um poste que pareceu ter passado pela nossa frente em câmera lenta. Por um milagre chegamos no Leblon e pegamos a galera, todos achando graça em segredo da minha garota bigoduda, mas também contentes com a independência de poder viajar de carro. De lá fomos rumo à avenida Brasil e saímos da cidade. Como chegamos em Mauá sem um arranhão permanece um mistério, mas ao sair do carro com as pernas ainda bambas tinha aprendido a dirigir.

Sem nem imaginar a possibilidade dessa aventura, Rafael insistiu que eu pegasse aulas de direção em vez de comprar uma habilitação no departamento de trânsito, o Detran, como todos faziam. O teste que aplicavam era quase impossível de passar; a ideia era forçar a propina. Como estava prestes a viajar de férias, chegamos a um consenso: eu pegaria as aulas e eles pagariam um preço mais baixo para comprar a habilitação sem a prova, em vez de pagar mais caro para que recebesse uma carteira sem nunca ter sentado em frente a um volante.

Depois de duas semanas de aulas, fui à central de testes onde entrei no carro com o dono da autoescola e dois examinadores que mais pareciam membros do esquadrão da morte. 

Sem olhar para mim, um dos inspetores virou para trás e perguntou: “Esse pagou?”

O dono curso respondeu afirmativamente. 

Depois disso, tive somente que dar uma volta no quarteirão para receber um certificado que me deixaria “preparado” para o trânsito maluco do Rio de Janeiro.

*

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