03/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Rosa

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Com tanta ferramenta exótica, o consultório parecia oficina mecânica. Só faltava a folhinha com mulher pelada. Semanalmente, o Menino ia ao ortodontista, no centro da cidade, ajustar o aparelho dentário metálico que, diziam, lhe daria uma fachada mais aceitável. Pensava que, de quebra, o conserto também aliviaria as dores d’alma, mas, ai !, não chegava a tanto. Certo dia, aconteceu.

Na volta para casa, o ônibus adernou para um caminho diferente. Sabia que, da Lapa de Madame Satã, passaria pelo Estácio de Bide e Marçal, para entrar na Tijuca, território sagrado. Por que, então, abandonou o roteiro de praxe e embicou para a praça Paris ? Pânico. Não cogitou sequer de um desvio provocado por obras, apenas imaginou perder-se fora das garras da rotina. O motorista até tentou explicar que logo retornaria à Lapa, não quis saber. Saltou e andou, não, correu para o restaurante do Calabouço, onde, ao lado, trabalhava a Mãe. Colo protetor, estava salva a pátria.

Essa timidez, essa desconfiança do mundo, só se atenuava com os livros. A relação com eles sempre foi de intimidade, de troca, que continua até hoje. Começava com o cheiro, avançava para o prazer estético das imagens (como esquecer as ilustrações de Belmonte e André Le Blanc ?), desaguava no toque macio, para, só então, desembrulhar as letrinhas. Eu descobria que poderia ser outros. Entrava na prosa de Robert Louis Stevenson, Monteiro Lobato e Maurice Leblanc, e me transformava em pirata, Hércules e ladrão de casaca. Melhor do que um dentuço que podia, no máximo, sonhar em ser escolhido no par ou ímpar para jogar no time de pelada dos cobras da vizinhança. Uma tia generosa abria as portas da sua biblioteca para estes voos solo, que me levavam a universos paralelos.

Um ditado talmúdico diz que uma palavra vale uma moeda, o silêncio vale duas. Vou profanar a sóbria sabedoria judaica. O silêncio pode ser uma prisão, e eu não daria dez réis de mel coado para isso. Acumular leituras, por mais prazerosas que fossem, não me tiravam do isolamento. Faltava criar uma ponte, descobrir uma chave libertadora, que transformasse as palavras aprisionadas no meu mundo interno, interditadas como no caso do ônibus que mudou a rota, em comunicação. Foi quando surgiu Rosa.

Rigorosa nas cobranças, amorosa nos gestos, disponível para dialogar. Assim era Rosa Erman, professora de português que não se limitava aos artigos, preposições e anacolutos. Entendia que estávamos lidando com a língua, um organismo vivo, que transbordava as páginas dos livros e possibilitava as relações. Criava espaços para a imaginação e o desembaraço. Um desses espaços era a exposição oral. De surpresa, convocava um aluno e pedia que contasse uma história. Qualquer uma. Na época, eu tinha ganhado de presente a coleção do Tesouro da Juventude, um clássico em 18 volumes. Tinha de tudo, desde tratamento para bicho-de-pé até sonetos de Camões. Devorava a seção de mitologia grega e sempre tinha preparada uma história dos mitos helênicos. Venci a resistência para falar com os Outros, exercício que continuo fazendo vida afora. Rosa libertou do cárcere minhas palavras e elas nunca mais pararam de sair.

Muitos anos depois, fui convidado para um encontro de ex-alunos do meu colégio. Um tanto desconfiado, resolvi comparecer. Acho que essas reuniões, que misturam as fantasias que construímos para o passado com a realidade presente, não costumam dar certo. Melhor ficar com a lembrança do gosto do Kalu da infância do que pedir o picolé de abacaxi de hoje. O gosto jamais será o mesmo. Bem, entre rostos irreconhecíveis tive a impressão de vê-la. Lá estava Rosa, a mesma expressão serena, os mesmos olhos expressivos. Agora, eu saberia exatamente o que lhe dizer. Me aproximei e agradeci pela chave libertadora que me deu asas. Ela esboçou um sorriso discreto, mas que, para mim, foi a senha da cumplicidade recuperada.

Em 21 de julho de 2001, a página de necrológios do jornal informava o falecimento de Rosa Erman. Imprensa mentirosa. Quem disse que semeadores de afetos, liberdade e acolhimento morrem ? Quem acredita que veredas poéticas, fecundadas em sala de aula, podem ser visitadas pela Indesejada das Gentes ?

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