14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Quarta-feira de cinzas

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Hoje é quarta-feira de cinzas no Brasil. Em Israel, mais um terrível atentado a um ônibus em Haifa deixa um rastro de mortos e feridos. Enquanto por aqui a alegria de Momo reinou durante o Carnaval, no Oriente Médio a violência não deu trégua, e sucessivos massacres ocorreram em Gaza.

Enquanto dava inicio a este artigo, assistia a TV israelense noticiando sobre o atentado. Na abertura eram oito mortos, mas já falam em 10 e dizem que este número pode subir por que existem muitos feridos graves sendo operados nos Hospitais. Serão muitas famílias enlutadas até o final do dia.

Um comentarista na TV dizia que durante o mês de fevereiro as forças de segurança conseguiram abortar mais de 40 tentativas de atentados. Uma mostra de que nem com toda a repressão do exército ocupando os territórios se consegue impedir as manifestações terroristas. Basta que apenas uma tenha sucesso para que tenhamos em Israel o mesmo horror das mortes cotidianas nos territórios.

Com a formação do novo governo, o mais radical de direita da história de Israel, não se pode esperar que a violência tenha fim a curto ou médio prazo. Quiçá nem em longo prazo antes que este governo caia. Sharon uniu a seu redor o que de mais repugnante existe na constelação política israelense. Effy Eytam, Avigdor Liberman e Tommy Lapid formam junto com Sharon um quadro perfeito dos Cavaleiros do Apocalipse. Um pretende aumentar a colonização dos territórios que segundo ele fazem parte de Grande Israel. Outro desconhece a existência do problema palestino uma vez que não existem palestinos. O terceiro está mais preocupado em afastar os religiosos da vida cotidiana do país e acha que um estado palestino poderia prejudicar esta tarefa. Diante deles, o francês Jean Marie Le Pen , o austríaco Joerg Haider e o russo Jirinowsky, segundo Uri Avnery (do movimento Gush Shalom) seriam bondosos liberais.

Para que não si diga que nada está tão ruim, que não possa piorar, o exército continua nas mãos de Shaul Mofaz, o homem que explica os efeitos colaterais que estão vitimando inocentes nos territórios, como erros justificáveis. Há dois dias, foram uma criança de 9 anos e uma mulher grávida atingidas por balas de soldados israelenses em mais uma incursão por Gaza. Ontem os colonos que ele protege, em todas as acepções da palavra, atiraram contra outra criança que está hospitalizada.

Desta forma, vamos assistindo ao inimaginável. Mais violência com revides de parte a parte. Em meio a tudo isso, o porta voz da Casa Branca, Ari Fleisher declarou: “Estamos preocupados com as ações que prejudicam inocentes, inclusive inocentes palestinos”, depois da massiva destruição de casas e assassinatos coletivos dos últimos dias. (antes do atentado de hoje em Haifa).

Diante da eminente guerra com o Iraque, não se pode esperar muita melhora nesta triste situação. O quarteto do mal em Israel, vai prosseguir com sua política de não negociar apostando que é capaz de dobrar a resistência palestina aniquilando os grupos terroristas, isolando suas lideranças e aumentando a colonização. Do outro lado, os grupos terroristas vão continuar praticando atentados como única forma (segundo sua lógica insana) de reivindicar seu direito à autodeterminação. Também vão se negar a um cessar fogo ou acabar com os atentados contra civis, como o que assistimos hoje. O ciclo da violência se retro-alimentando.

Talvez tenha chegado à hora de nos preocuparmos com o dia seguinte. Talvez seja o momento de aproveitarmos o maravilhoso movimento pacifista contra a guerra, para fazer com que não desista de reivindicar soluções pacíficas para os conflitos. Este mesmo movimento pode e deve se voltar para Israel e a Palestina. Pode fazer com que o mundo não esqueça de que muito antes do problema iraquiano, o conflito palestino-israelense já existia e continua sem solução a vista.

Não podemos perder a esperança de uma solução negociada. Ela pode tardar, mas vai chegar. E neste dia, a paz e a reconciliação vão triunfar sobre os Sharons e os Arafats de tristes memórias.

A nossa força e a nossa voz fazem a diferença.

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