21/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Quando a realidade superou a ficção

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Hoje eu acordei em mundo completamente estranho. Não sabia disso até pegar meu voo para a mesa redonda sobre o Holocausto que eu havia me comprometido a participar.

Tudo parecia normal. Entrei no avião, tomei meu assento e como de costume, coloquei meus fones para ir escutando música e liguei meu leitor de livros para me entreter. Sim, eu me entretenho lendo um livro enquanto estou viajando, e foi aí que tudo começou.

Quando a gente se aproximava do destino, a aeromoça avisou que teríamos um pouco de turbulência porque estávamos próximos da borda do planeta. Achei que não tinha escutado bem devido aos fones com a música, que se referia aquela turbulência normal que acontece às vezes com a mudança de altitude. Então tirei os fones e brinquei com a pessoa ao meu lado, que se a gente continuasse seguindo reto acabaria caindo no espaço. Ela me olhou e respondeu que isso não aconteceria porque o piloto conhecia a rota e que depois de último acidente deste tipo, os aviões haviam sido adaptados para prevenir este tipo de incidente.

Voltando aquele momento, acho que fiz cara de quem não estava entendendo nada, como de fato não estava. Primeiro achei que havia escutado mal, depois achei que tinha feito uma brincadeira, mas ninguém estava achando engraçado e definitivamente o cara do meu lado me olhava com cara de poucos amigos.

O avião finalmente desceu e me dirigi ao local da mesa redonda. Depois de recebido e apresentado aos demais, nos dirigimos ao auditório onde fomos recebidos pelo público. O tema me era próximo e eu o único judeu da mesa. Fui o primeiro a falar e durante os primeiros dez minutos tudo corria bem quando a coisa desandou. Eu falava das origens do Nacional Socialismo e como um país extremamente desenvolvido e com uma democracia plena havia aderido ao regime de extrema direita, mais conhecido como nazismo. Um furor percorreu a sala e meus colegas de mesa, entre consternados e surpresos, se apressaram em tomar a palavra e pedir perdão pelo meu mal entendido.

Achei que era eu quem  não estava entendendo nada, mas o colega que sentava ao meu lado me explicou que, equivocadamente, eu havia mencionado que o nazismo era de direita, quando todo mundo sabia que era de esquerda. Como assim, disse eu, agora já me beliscando para ter certeza de que estava acordado, olhando o calendário do relógio para ter certeza do ano em que estava e olhando ao redor para ter certeza de que estava no lugar certo.

O público se acalmou, e eu achei que o melhor seria informar que estava com uma baita dor de cabeça e que passava a palavra aos demais. E assim fui escutando a confirmação de que os comunistas haviam matado seis milhões de judeus. Não foi um, foram todos a dizer a mesma coisa. Definitivamente, algo estava fora do lugar e era eu.

De volta para casa fui logo percebendo que muita coisa não fazia o menor sentido. Um ex-presidente havia sido condenado sem nenhuma prova. Pior, chamado de chefe de uma quadrilha do tipo máfia narcotraficante, ele ia receber um apartamento no Guarujá e uma cozinha no sítio do amigo em troca de favores de bilhões de dólares. Eu não entendia como é que uma pessoa podia ser condenada por ser dona do que não recebeu, mas era bem isso que acontecia. Assim o cara foi em cana e não pode participar das eleições.

Logo vieram as eleições e ganhou um ex-capitão que foi afastado do exército por ato de indisciplina e tinha como vice um ex-general que se gabava de ter um neto branquinho, já que ele tinha a pela mais escurinha. Ganhou bem ganhado com a ajuda de amigos que pagaram milhões para explicar a população que o país estava à beira do caos.  Disseram se o tal capitão não fosse eleito, as crianças seriam obrigadas a tomar mamadeira  com um bico que lembrava um pênis. Que nas escolas seriam distribuídos Kits Gay, uma espécie de conversor de gênero, todo mundo  viraria gay e o mundo iria acabar por falta de procriação.

Normalmente isso seria considerado Caixa 2, algo que havia sido proibido, mas parece que algumas leis valiam, outras não, dependendo de quem as descumpria. Para confirmar, o juiz que havia condenado aquele ex-presidente foi convidado e aceitou ser o ministro da justiça. Será que eu estava perdendo a razão?

Aí lembrei que o cara apresentado como futuro chefe da casa civil havia confessado ter recebido Caixa 2, mas pedido desculpas por sua atitude. Seria o caso então de quem tivesse praticado um crime destes fizesse o mesmo. Um senador da república até propôs que assim fosse, pediu desculpas, ganharia o perdão. Nada mais justo.

Meu mundo parecia mesmo deturpado e nada fazia mais sentido. Então os médicos cubanos anunciaram que estavam abandonando o programa pelo qual atendiam as populações mais necessitadas nos lugares onde nenhum médico brasileiro aceitava trabalhar. Aí achei que era impossível. Ninguém em sã consciência mandaria este pessoal embora deixando tanta gente desassistida. Ledo engano meu.

Com tanta coisa impossível acontecendo ao meu redor, achei que havia mesmo acordado em uma espécie de mundo paralelo, mas não. Tentei pensar que era algo do tipo “Matrix”, e que eu tinha tomado a pílula da cor errada.

Aos poucos percebi que as linhas que separam a ficção da realidade estavam cheias de nós, uma quantidade de nós difíceis de desatar. Mas não impossíveis.

Assim me vi tentando desatar esta confusão, nó por nó, um a um, aos poucos, um de cada vez. Logo outros se somaram e começamos a resistir aos que distorceram a realidade e a cada dia mais gente foi se somando a esta tarefa.

Em breve a Terra voltará a ser redonda, o Nazismo de direita, Kits Gays e Mamadeiras de Piroca vão ser considerados notícias mentirosas, Caixa 2 crime, com ou sem arrependimento, o ex-presidente será libertado e terá seu nome limpo e ninguém mais vai se lembrar do dia em que elegeram um abjeto (que ou o que é desprezível, baixo, ignóbil) inepto (que denota falta de inteligência,desprovido de sentido; absurdo, confuso, incoerente) para presidente do Brasil.

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