20/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Paz e Segurança

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Toda paciência tem limite e a minha, assim como a de muitos outros com relação a Ariel Sharon já se esgotou. A cada tentativa do combalido gabinete palestino de tentar suspender o terrorismo contra Israel, ele pratica mais uma ação de terrorismo de estado. Exige ações contra o terrorismo, mas o incentiva de todas as formas.

Sharon vai ser lembrado como o maior estelionatário da paz que nossa história já teve. Estelionatário é aquela pessoa que oferece algo de muito valor em troca de um pequeno favor. Normalmente este favor, representa muito pouco em relação ao que está sendo oferecido e por isso muita gente cai em seus golpes. Eles jogam com o fato de que o ser humano gosta de levar vantagem, e assim, apenas com o dom da palavra, ludibriam os incautos.

Desta forma ele prometeu paz e segurança para uma nação cansada de guerras, Em troca pedia apenas um voto de cada cidadão. Pouco mais de 30% da população acreditou nele,e como sempre acontece com os estelionatários, depois de receber o que pedem, eles mostram sua verdadeira face. Nem paz e nem segurança. Israel recebeu mais terror e total insegurança.

Sharon se move como um ser ardiloso. Destruiu completamente toda a estrutura administrativa e de segurança palestina. Arrasou o aeroporto e o porto, sedes de governo e órgãos de ajuda humanitária. Até mesmo as prisões foram arrasadas. Impede o ir e vir da população nos territórios numa rotina de humilhação sem fim. Exigiu a criação do cargo de primeiro-ministro com um novo gabinete e apesar de tudo foi atendido. Em troca, dizia, haverá paz e segurança.

Permitiu o estabelecimento de dezenas de colônias e as incentivou financeiramente a ida de mais e mais moradores para as áreas ocupadas. Distribuiu verbas para os assentamentos enquanto a economia arrasada levava milhares de israelenses a miséria. Tudo isso, repetia ele, trará paz e segurança.

Ariel Sharon diz que vai acabar com os “postos ilegais” (montanhas ocupadas por colonos radicais sem autorização oficial), que fazem com que ao seu redor permaneça uma unidade militar de proteção e afasta os donos da terra (palestinos) de se aproximarem por razões de segurança. Para isso envia soldados desarmados para enfrentamentos cinematográficos. Um dia inteiro para se retirar meia dúzia de colonos. Dois pesos e duas medidas. Quando necessita destruir uma casa palestina, envia unidades armadas e tanques de apoio que invadem uma cidade e não se importam sequer em se certificar que não haja mais habitantes na residência antes de explodi-la. Para afastar militantes pacifistas desarmados permite o uso de gás lacrimogêneo, bombas de efeito moral e o uso livre dos cassetetes. Até mesmo o atropelamento e morte de uma pacifista por um trator foi defendido por seu governo.

Ninguém pode defender o terrorismo, muito menos o de estado. O terror é uma praga mundial. Nem mesmo a Europa conseguiu se livrar dele. A pratica da violência contra populações indefesas em nome de uma causa, já não encontra respaldo no mundo de hoje. Terroristas suicidas que se explodem em locais públicos são algo abominável e condenável sob qualquer circunstância.

O que aprendemos nestes anos todos é que para acabar com o terrorismo não se pode usar de meios iguais. O terrorismo termina quando cessam as causas que os sustentam, sejam elas de origem moral, histórica ou econômica. Sharon vem ao longo de seu governo alimentando o terrorismo. Como numa fogueira, joga água sobre o fogo ao invés de mirar na base que o alimenta. Para concretizar suas sentenças de morte contra militantes palestinos não se importa de matar os que estiverem ao seu redor. Lembra os perpetradores de chacinas em favelas brasileiras – para eliminar um marginal, matam todos os que os estiverem com ele.

Sharon até já imita Arafat. Diz ao mundo que vai respeitar os acordos, pousa para as fotos apertando as mãos de Bush e de Abbas, mas diz ao seu gabinete que “podemos seguir colonizando os territórios mas não precisamos alardear isso”. Arafat também tem um discurso para o seu povo e outro para o mundo. Dizem que não se deve acreditar no que ele diz em Inglês, apenas o que fala em Árabe.

Como esperar que Sharon vá trazer paz e segurança? Pura perda de tempo e o pior, de vidas humanas. Enquanto ele estiver como primeiro-ministro, infelizmente, mais e mais inocentes vão morrer. Os dois povos vão continuar sofrendo uma guerra de desgaste mantida por duas minorias que se apóiam mutuamente com suas ações: os terroristas palestinos suportados por Arafat de um lado, e os colonos israelenses asuportados por Sharon de outro.

O que se poderia esperar de um Mapa da Paz apoiado pelo maior mentiroso do planeta? Será que o homem que criou uma rede de mentiras e intrigas para se lançar numa guerra, possui qualificações éticas e morais para patrocinar um acordo de paz? Quem pode acreditar em suas intenções?

E desta maneira, o cenário do Oriente Médio permanece sombrio. Mesmo com a esperada decisão dos grupos radicais em suspenderem por 90 dias seus ataques terroristas, não parece haver chance de uma paz. Sharon já se apressou em dizer que o “real” motivo do cessar fogo é para que estes grupos possam se reestruturar e planejar novos ataques. Mostra com isso que irá continuar praticando seus assassinatos seletivos sem se importar com as conseqüências. Assim, diz ele, “vou trazer paz e segurança” para Israel.

Sharon cometeu um estelionato eleitoral para se eleger. Hoje ele tenta continuar iludindo a todos com sua falácia típica de golpistas. Mantém todo um povo refém de sua esperança de poder viver em paz, cuidar de suas vidas e prosperar. Arrasou a economia do país e teremos este ano um dos menores índices de imigrantes para Israel de todos os tempos.

Os Iamim Norahim (período do calendário judaico que relembra várias desgraças na história do povo judeu), será acrescido de mais uma data: o dia em Ariel Sharon foi eleito. Triste dia para a história do povo judeu e do Estado de Israel.

Não existe outra saída senão a criação de um Estado Palestino e o inicio da reconstrução do caminho que leve a reconciliação dos dois povos. Somente a paz e a conseqüente prosperidade dos dois povos irá calar a voz do terror e sufocar os sonhadores da Grande Israel. Sharon está fazendo o possível para adiar este sonho. Está tentando destruir toda esperança de convivência pacífica entre os dois povos. A cada dia vai criando mais intolerância e mais violência. Ele não é o pior inimigo dos palestinos, é o pior inimigo de Israel.

Tudo isso um dia será passado. Nosso clamor por justiça é mais forte do que ele. Nossa certeza de que somos capazes de superar nossas diferenças fala mais alto. Apesar dele, e de todos que o seguem, venceremos.

Dois Estados para dois povos, vivendo em paz e em segurança.

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