24/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Olhos nos números

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De repente me deparei com aqueles olhos. Já havia dias que todos passavam com suas máscaras deixando apenas os olhos a vista. Eram de todas a s cores, marrons, azuis, verdes e cores difíceis de se ver. Os olhos, mas também as máscaras eram coloridas.

Aquela visão, apesar de que representava a triste situação do vírus, que tantas vidas levara, ainda assim trazia consigo nas mulheres um senão de erotismo. O que haveria por detrás daquela máscara que deixava somente os olhos a vista?

Observando fui percebendo o quanto se podia ler através deles. Haviam olhos de paixão, de tristeza, de aflição, de súplica, de alegria, de indignação, de regozijo, de frieza e de entrega. Olhos e mais olhos que passavam por mim e que agora tinham um significado.

Eram de todas as idades, de todos os gêneros e de todas as etnias. Cada par trazendo sua mensagem para quem soubesse interpretar. No início, confesso a dificuldade. Mas com o passar dos dias fui me tornando mais experiente. Se antes era preciso alguns minutos de observação, agora bastavam alguns segundos. Os olhos falavam comigo.

Quem diria que um vírus me tornaria um intérprete do significado dos olhos humanos. Seria um fetiche? Creio que não. Nunca tinha acontecido antes. Mais provável que a consequência da inesperada situação onde a preservação da vida falava mais alto. Já não se viam mais rostos, somente olhos sobre máscaras.

E claro, os números. Agora me refiro ao que estamos reduzidos. Todo dia nos atualizam dos números do Corona. Primeiro vejo os números do meu país, depois os do mundo. Merda, continuam aumentando. Mais doentes, mais mortos. E logo, a história de alguns deles. Nenhuma história feliz, apenas tragédias.

Hoje foi a de uma mulher de apenas 49 anos, viúva e mãe de gêmeos de 4 anos de idade. O Corona os deixou órfãos. Ela também, segundo os jornais, é a pessoas mais jovem a morrer aqui por conta do vírus.
Todo dia é assim, mais mortos, mais histórias tristes.

Quando olho para os números de outros países, percebo o tamanho da tragédia. Olha eu falando de olhos outra vez. Olhos e números.

Cada perda são um par de olhos que se fecham e não vão mais falar comigo. Não vão passar por mim trazendo seus pensamentos. Compartilhar sua luz.

Já são quase 40.000 mortos no mundo e logo vamos chegar a um milhão de doentes. Todos são importantes, cada vida importa. Cada um tem uma história, uma família, uma paixão. Cada um deles vai deixar uma saudade, uma história de vida. Eram importantes para alguém, tinham significado no mundo.

O vírus parece a passagem do dia no planeta. Assim como em alguns lugares anoitece, quando em outros está amanhecendo, o vírus está deixando alguns países e recém chegando em outros. Por onde passou, deixou um rastro de vidas perdidas e economias em recessão. Números.

O planeta não será o mesmo quando esta crise passar, isto é certo. Que lições vamos ter aprendido e como vamos lidar com situações parecidas no futuro, eis a questão. Infelizmente a humanidade parece ter memória curta. Não fosse assim e as guerras já teriam terminado há muito tempo.

A contagem de doentes e mortos não vai parar tão cedo. Pares de olhos vão continuar vindo e dando olhos a minha imaginação. Olhos.

Como será o amanhã? A quem vai pertencer? Vou continuar buscando estas respostas nos olhos e números que passam por mim.

Fiquem em casa e deem asas a sua imaginação.

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