03/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

O sétimo círculo do Inferno

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“A Divina Comédia” integra as obras que descrevem o mundo, como a Bíblia, a Odisseia, Dom Quixote. Dante escreveu que estava perdido no meio da selva escura, e nós hoje estamos no meio da cidade escura, no meio de um país escuro que busca um norte, diante do inferno de mortes. Na primeira parte de “A Divina Comédia”, no sétimo círculo do Inferno, estão os violentos contra o próximo, os homicidas e tiranos. São os que não se arrependem de seus atos e por isso permanecem para sempre no reino de Lúcifer. Um exemplo histórico dos que são violentos com o próximo, e que não é ensinado nas escolas, foram os senhores da Casa Grande. Nossos antepassados foram responsáveis pela morte de escravos negros e índios. Chicotadas e castigos terríveis eram comuns nos 350 anos de escravidão no Brasil. Esse passado é uma sombra pesada sobre o hoje e o amanhã. Por isso, cada vez que ocorrem políticas populares com justiça social, irrompem os moralistas golpistas, expressão da podridão que une a corrupção com o ódio aos direitos do povo. Essa é a nossa sociedade patológica, talvez nossa maior tragédia que piorou na pandemia.
O País agora chega aos 260 mil mortos nessa primeira semana de março de 2021. É imperioso conhecer os que têm ajudado o vírus a se propagar, ao desprezarem o vírus, promovem aglomerações, não usam máscaras e desprezam as vacinas. O vírus mata e mata e não para de matar, cada vez mais, há 365 dias. Os que trabalham em saúde pública deviam comandar essa guerra contra o vírus, são os que falam e escrevem há um ano que se precisa de máximos cuidados. Os opositores das ciências, os negacionistas, facilitaram a propagação do vírus gerando um inferno.
Os cruéis paranoicos se imaginam perfeitos, projetam todo o mal nos demais, e eles se colocam acima do bem e do mal. Por isso, no mundo de Dante, eles são condenados ao Inferno. Ele conhecia bem o os violentos tiranos, pois foi obrigado a se exilar para não morrer e no exílio escreveu a “Divina Comédia”. A escrita foi sua forma de luta, sua capacidade criativa superou a crueldade e até hoje é lembrada.
A resistência à crueldade é difícil, é um desafio a todos, a cada um, pois não devemos ser cúmplices da política da morte, da necropolítica. Temos o dever, por dignidade, de ser a favor da vida, a favor da vacina já, a favor da máscara, a favor da higiene das mãos e do distanciamento. Em todos os países civilizados os governos têm obrigação de seguir os infectologistas e os profissionais da saúde pública com experiência e conhecimento. Entretanto, aqui tem sido diferente, um general da ativa foi designado ministro da Saúde e está perdido por não conhecer virologia, as vacinas e a saúde. Estamos sem rumo, com hospitais sobrecarregados, caminhamos na escuridão.
E há os que ainda não entendem por que nós brasileiros estamos com uma baixa autoestima. Estamos desanimados com os Poderes, em especial o Poder Executivo. Tentam criar um clima maníaco de alegria, os governantes não visitam os hospitais, fazem festas e nas fotos sorriem. A gratidão e os aplausos devem ser aos trabalhadores dos hospitais que são corajosos, e merecem o reconhecimento da sociedade. Recordo, mais uma vez, que Dante pôs no Inferno, entre outros, os violentos, os homicidas e os tiranos. Dante é divino/maravilhoso nos setecentos anos de sua morte (21/9/1321). No meio dos medos da escuridão, louvemos as luzes das artes, das ciências, e da medicina no amor a vida.

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