25/07/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

O rio que será

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É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho. De observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles (Lenin)

Hoje, meu tema seria outro, mas não tem jeito. Vai ter que esperar. As notícias sobre o Rio são tão devastadoras que não dá para passar batido. Não me refiro às imagens das praias no fim de semana, lotadas de gente inconsequente, negacionistas objetivos. O que desmonta a alma é a implosão política e administrativa da cidade. Estamos nos transformando numa espécie de academia de tipos caricatos, oportunistas, medíocres, subprodutos dos vários tons de demagogia. A destituição do governador Witzel é apenas mais um capítulo, bizarro sem dúvida, na fila de governantes criminosos eleitos nas últimas décadas. É bom não esquecer que todos eles tiveram cumplicidades partidárias, que foram da direita à esquerda. Não há ingênuos nessa história.

As consequências do assalto ao poder, no sentido literal e não da tomada do Palácio de Inverno, estão em todo canto. A cidade sangra, amputada de referências afetivas, desovando miséria em cada esquina e cada vez menos acolhedora. Clima propício para que uma espécie de depressão cidadã prospere, levando muita gente a abandonar o barco. Quantos já partiram, empobrecendo a ciência, a cultura, a ginga, o partido alto, o violão virtuoso, tão caros à tradição carioca ?

Jerry Seinfeld publicou artigo no New York Times, defendendo a cidade de New York, criticada em algumas redes sociais. Seinfeld, para quem não sabe, é comediante, criador da série considerada a melhor de todos os tempos. Ele se refere à choradeira de gente que lamenta que, com a pandemia, “todo mundo foi embora”. Reconhece a dureza dos tempos atuais, mas detona os que acreditam que tudo vai se resolver “remotamente”, por isso não faria diferença aonde se mora. Bobagem, rebate Jerry. Uma cidade tem focos de inspiração, uma espécie de personalidade que se coagula em espaços surpreendentes e em memórias em construção. São matéria viva em constante transformação. Nada que se possa resolver com bytes acelerados e conexões virtuais. Enfático, garante que “a cidade se recuperará, por conta de todos os verdadeiros nova-iorquinos, gente batalhadora que compreende a cidade e escolheu ficar para reconstruí-la”.

Gostaria de ter a convicção do Seinfeld. Minha única certeza imediata é de que, embora a razão jogue no sentido contrário, continuarei no Rio. O coração não dá bola para a sensatez. Praticamente todos os meus laços, meus traços, meus abraços, estão aqui. Uma vida que jamais se resumiu à impotência do lamento biliar. Uma pequena passagem ilustra isso. Durante anos, visitei regularmente a rua onde passei a infância. Passava em frente à vila de casas onde morei e dava uma rápida olhada. Tudo sempre parecia igual, engessado. Até que um dia, olhei para o fundo, onde havia um matagal, e um vento mudou a percepção. A árvore, sempre silenciosa e parada, se agitava, criando a sensação de movimento nos arredores. Que me incluíam. Toda a infância, toda a história, despertara. Era Galileu sorrindo. Eppur si muove.

Há focos de resistência, guerrilha que nos prepara para os tempos que virão. A UFRJ, que completa 100 anos, é um desses focos, centro de excelência didática e de criação científica. Ensino público de qualidade. Sou cria dela. Não teria tido acesso ao ensino superior se ele não fosse gratuito. Saí de uma espécie de bolha homogênea (antes da faculdade, só frequentei escolas judaicas) para o ambiente plural do Fundão. Gente de várias rendas e ideias. Turma de suburbanos, como eu, e de mauricinhos, que na época chamávamos de playboys. Salada que me abriu olhos.

Em meio a tanta incerteza e insegurança, uma convicção. A reconstrução do Rio terá que ser obra coletiva, arquitetura militante que talvez jamais tenhamos experimentado. É preciso que nos libertemos, de uma vez por todas, da cultura salvacionista, que cria santos e beatos ao invés de articuladores. Há muito trabalho pela frente, e ele vai além das tribunas virtuais e das carpideiras conformadas.

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