19/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

O racismo de cada dia

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Não é novidade que o futebol, no Brasil, teve raiz elitista. Dela, ramificou-se a tentativa de afastar os negros dos clubes. Nas primeiras décadas do século passado, dirigentes não aceitavam jogadores que desempenhavam funções braçais (bombeiros hidráulicos, pedreiros, carroceiros, etc.). A maioria destes trabalhadores eram negros, o que mostra a conotação racista, disfarçada de discriminação social. Em 1920, durante a visita do rei da Bélgica ao Brasil, o presidente Epitácio Pessoa sugeriu à CBD que não se convocassem atletas negros entre os que desfilariam em homenagem ao monarca. Estendeu a “sugestão” para o Campeonato Sul-Americano de Futebol, em 1922.

Dando um salto de seis décadas. Era setembro de 1982. A Polícia Militar fazia uma blitz na estrada Grajaú-Jacarepaguá. Passava por ali Luiz Morier, repórter-fotográfico do Jornal do Brasil. Teve a intuição de que algo estranho estava acontecendo. Aproximou-se e tirou a foto que lhe garantiria o Prêmio Esso no ano seguinte. A PM tinha prendido vários homens, todos negros, e os conduzia amarrados pelo pescoço. “A sensação que tive quando os avistei era de que a Lei Áurea não valeu de nada. Estavam sendo carregados pelo pescoço como escravos”, disse Morier. Mais tarde, constatou-se que os presos eram moradores de uma comunidade próxima, todos trabalhadores com carteira assinada. Foram liberados.

Novo salto, tempo presente. Manifestantes negros protestam contra o racismo em frente ao Palácio Guanabara, sede oficial do governo do Rio de Janeiro. Chega a polícia e age com a truculência habitual. Em meio à confusão, um policial aborda um manifestante, apontando-lhe um fuzil para o rosto. Para muita gente, tratava-se de cena trivial, quase natural, repetição do comportamento rotineiro da PM quando invade bairros periféricos. No entanto, é importante perguntar-se: o policial agiria da mesma forma se o manifestante estivesse, por exemplo, na orla do Leblon, bairro dos ricos e da classe média alta ? Que sociedade está por trás da farda ? Por que a indignação contra este tipo de violência se dilui em notas nas redes sociais ?

Desde sempre, ouço falar que no Brasil não há racismo, que somos uma “democracia racial”. A “sociedade cordial” não admite suas digitais discriminatórias, violentas. A herança perversa da escravidão, que se reproduz num sistema educacional que não reconhece as peculiaridades da população de origem africana, alimenta o olhar racista. O resultado está aí, tentando arrombar a porta. Três em cada quatro pessoas mortas pela polícia no Brasil são negras. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a chance de um jovem negro ser assassinado é 2,7 vezes maior do que a de um jovem branco. Casos como o do menino João Pedro, morto aos 14 anos com um tiro nas costas durante uma operação policial, viraram uma triste rotina carioca.

Tudo isso me veio enquanto assistia as manifestações antirracistas nos Estados Unidos, desencadeadas após o assassinato de George Floyd. Duas coisas me chamam particularmente a atenção: a presença maciça de jovens e brancos e a capacidade de mobilização sem uma liderança aparente. Parecem sinais de que um limite foi ultrapassado.  Sobra uma pergunta para nós: por que, apesar de termos em comum um racismo estrutural, somos tão negligentes quando os negros assassinados são os “nossos” ?

Por fim, um convite à reflexão. É preciso avaliar o tanto de racismo e discriminações várias que temos dentro de nós. Claro que nos julgamos pessoas bacanas, defendidas contra essas perversidades. No entanto, cercados por um ambiente que pratica esses ódios todo santo dia, é difícil imaginar que, ao longo da vida, não nos tenhamos contaminado. Mesmo que de forma inconsciente. Pois conto meu caso. Durante alguns anos, fui professor no curso de Engenharia Química da Universidade Federal Fluminense. Numa turma muito grande, não sabia identificar os alunos pelos nomes. Certa vez, resolvi dar os resultados de uma prova fazendo uma chamada nominal. Entre as melhores notas tinha alguém que se distinguia claramente. Sem perceber, fiz uma espécie de retrato falado mental, imaginando quem seria aquele aluno. Quando chamei o campeão, quase desmoronei. Era justamente o único negro da turma, que meu inconsciente havia descartado pelo racista que me habita as profundezas. Fiquei tomado de vergonha, mas a vergonha é insuficiente. Minha diferença com os racistas explícitos é que eu luto contra esse módulo abjeto das minhas entranhas, tenho que derrotá-lo sempre e tenho sido bem sucedido. E você, o que tem feito com o seu lado sombrio ?

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