15/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

O Mito do Neo-Anti-Semitismo

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Todos nós judeus militantes de todas as tendências políticas temos sido bombardeados por artigos que tentam mostrar o surgimento de uma nova onda anti-semita no mundo. De um lado o governo de Israel em uma desesperada ação de marketing, busca justificar os ataques ao seu governo como ataques que visam a sua destruição. De outro as lideranças das comunidades judaicas que buscam justificar as ações do governo de Israel como autodefesa. Qualquer um que ouse denunciar estas ações, é imediatamente rotulado como anti-semita.

O anti-semitismo tem muitas faces e faz parte da cultura mundial desde que o povo judeu se formou. Assim sendo, podemos afirmar sem margem de erro, que a história do povo judeu sempre esteve vinculada ao anti-semitismo. Qualquer criança judia pode mencionar passagens de nossa história que lembram as piores perseguições que fomos vítimas. A maior delas, acabou com seis milhões de mortos. Foi uma tentativa de uma solução final para o problema judaico: exterminá-lo da face da terra.

Existem anti-semitas em todas as camadas sociais, em qualquer opção sexual, de diferentes etnias, cores, religiões, idades etc. As razões são as mais diversas e nem sempre obedecem a uma lógica, ou muito menos obedecem à razão. Em comum apenas o ódio aos judeus.

Podemos tentar separar este fenômeno em passado e presente. No presente, em antes e depois da criação do Estado de Israel. Isto não muda em nada com relação aos anti-semitas, mas é fundamental para nós judeus. Antes do ressurgimento de nosso lar nacional, fomos forçados a nos mover por todos os cantos da terra em busca de um lugar onde fôssemos aceitos. Depois da independência de Israel, todos os judeus do mundo sentiram-se mais seguros e com um salvo conduto a mão no caso de novas perseguições.

O apoio ao Estado de Israel por parte da população judaica mundial não é unânime. Existem judeus não sionistas que aceitam sua existência, e outros que não. Até mesmo uma seita ultra-conservadora de judeus religiosos, os Naturei Karta, que não apóiam um estado judeu que não tenha surgido pelas mãos do messias, que eles aguardam. Israel, no entanto, tem o apoio da quase totalidade dos judeus dá diáspora.

A concentração de judeus em um estado nacional judaico sempre foi motiva de atenção. A guerra de independência, a absorção dos refugiados, a luta para tornar fértil o deserto, o Kibutz etc. Raramente Israel esteve fora do noticiário mundial em todos estes anos. Os anti-semitas passaram a ter um alvo.

Nas nações européias conhecidas por seu anti-semitismo, como a França, Polônia e Áustria, e outras não tão conhecidas como Portugal e Espanha sempre ocorreram ondas anti-semitas. Ora com maior intensidade, ora com menos. Nos EUA, o anti-semitismo sempre esteve presente protegido por uma legislação que permite a livre expressão. Na Rússia, conhecida por seus pogroms, ao permitirem o direito de ir e vir, mais de um milhão de judeus partiram, a maioria para Israel. Lá o anti-semitismo sempre existiu e vai continuar existindo. Na América Latina o anti-semitismo nunca foi muito virulento devido principalmente à índole dos povos. Ele existe com maior intensidade na Argentina e no Chile.

Se o anti-semitismo sempre existiu, o que foi que mudou nos últimos dois anos? A resposta está estampada em todas as manchetes de jornais diários: a segunda Intifada palestina.

O conflito com os palestinos precede o surgimento do Estado de Israel. Já durante o Mandato Britânico a tensão era enorme diante da possibilidade de que fosse criado um lar nacional judaico no seio da comunidade árabe. Não cabe aqui a discussão inócua de quem teria chegado primeiro, ou quem tinha maior população na época. Nem mesmo a discussão sobre a existência, ou não de um povo palestino serve para diminuir a gravidade do problema. Apenas tenta mover o foco do problema para discussões acadêmicas que na melhor das hipóteses, satisfazem os egos de alguns eruditos.

A segunda Intifada trouxe com ela uma mudança na política israelense, um governante da direita que prometia paz e segurança. Não demorou muito para mostrar o que ele entendia por paz e segurança. Logo o clima de intransigência tomou o lugar da negociação e os radicais de ambos os lados passaram a ditar o rumo do desentendimento. Em pouco tempo as conquistas dos acordos de Oslo deram lugar a um conflito sangrento que vem vitimando inocentes quase que diariamente. Um Mapa da Paz apresentado pelos EUA, Rússia, ONU e UE, visto com esperança pelos dois povos, foi sendo descumprido por suas lideranças até ser totalmente esquecido e jogado de lado.

Pode-se buscar os diversos culpados pela situação presente, mas quero aqui demonstrar que em meio ao conflito, vimos surgir uma nova versão de anti-semitas, aqueles que discordam da política israelense nos territórios ocupados. Versão esta, que tentam impor as comunidades judaicas da diáspora e até mesmo difundir aos quatro cantos do mundo não judaico. Este novo anti-semita pode ser até mesmo um judeu. Qualquer um que acuse o governo de Israel de cometer atrocidades, passa a ser imediatamente rotulado. Este é o neo-anti-semita.

O povo judeu é conhecido de diversas maneiras. O Povo do Livro, os que receberam os Dez Mandamentos, pelo número de Prêmios Nobel, pela ética contida na Torá, pela solidariedade com outros povos e principalmente por sua capacidade em sobreviver a perseguições através de três mil anos de história. Nenhum outro povo foi capaz disso. Isto explica em parte por que somos foco de atenção. Um povo com esta bagagem deveria servir de exemplo para as nações.

Ariel Sharon veio para mostrar que mesmo irradiando luz, o estado judeu é capaz de mostrar o seu lado mais perverso. O governo de Israel dá ao mundo uma visão de nossa capacidade de matar e destruir nunca antes vista fora das guerras. Pela primeira vez presenteamos aos meios de comunicação como pilotos israelenses são capazes de matar crianças inocentes ao perseguirem militantes palestinos. De que forma tratores destroem as casas dos familiares de terroristas numa forma de punição coletiva. Ensinamos que a melhor forma de enfrentar o conflito é escondê-lo por de trás de um muro, mesmo que para isso seja necessário isolar populações das terras que lhes garantiam o sustento.

O Professor Mark Strauss, editor da Revista Foreign Policy em seu artigo A Globalização e o Anti-Semitismo, pergunta por que somente Israel. A China invadiu o Tibet, a Rússia massacrou a Chechênia, Índia e Paquistão lutam pela Cashemira etc. Por que aqueles que lutam por um mundo melhor não apóiam a luta destes povos por sua liberdade? Pode-se acrescentar a ditadura Cubana, ou da Coréia do Norte para indagar-se também a direita neoliberal.

Este tipo de questionamento também é totalmente inócuo. Pode-se fazer diversas dissertações, escrever teses para explicar este fenômeno que de nada irá adiantar. Isto não muda a postura dos anti-semitas e tão pouco ajuda a resolver o conflito israelense-palestino.

As razões para sermos condenados, mesmo que exclusivamente pelo que estamos promovendo nos territórios ocupados, são perfeitamente compreensíveis. Se os anti-semitas estão se aproveitando disso, somos nós que estamos dando a eles os motivos para isso. Se outras nações também deveriam ser condenadas, é uma questão secundária. Somos obrigados a olhar primeiro para dentro de nós mesmos e nos perguntar: estamos agindo de forma correta? O que estamos fazendo com um povo que clama por seu lugar de direito, é moralmente aceitável? Nossas atitudes na busca de uma solução são éticas?

Qualquer um diante de um quadro de horror representado pela explosão de um ser humano em meio a cidadãos comuns, diria que sim. Mas todos aqueles que sabem da importância de se agir de forma racional, dirão que não. O que estamos fazendo nos territórios ocupados está destruindo nossa integridade humana, semeia a discórdia entre nós e fornece combustível a fogueira dos anti-semitas que desejam nos queimar a todos. Torna o homem bomba aceitável como um herói que entrega sua vida pela causa da liberdade, numa total distorção da realidade.

A busca de uma solução negociável que leve a criação de um Estado Palestino ao lado do Estado de Israel é a chave para o fim da maioria dos problemas que nos assolam neste momento, principalmente acabando com o círculo de violência que consome vidas inocentes e viciosamente se retro-alimenta.

Para se encontrar uma solução para o conflito não faltam iniciativas, sendo que a mais recente foi a que levou ao Acordo de Genebra. Inúmeras lideranças dos dois povos mantêm abertos os canais de diálogo, mas são sufocadas pela intransigência de Ariel Sharon e Yasser Arafat. Não faltam em Israel vozes que condenem o governo Sharon. Os jornais já mostram que além de cometer crimes de terrorismo de estado, o primeiro ministro deverá ser acusado de receber propinas para ajudar um empresário em um empreendimento, recebendo em troca polpudas verbas para suas campanhas políticas.

Hoje já existem quase mil soldados que se negam a fazer parte de um exército de ocupação. A cada dia mais e mais cidadãos israelenses se dizem cansados da política governista. Mais e mais vozes dentro e fora de Israel condenam este governo pela incapacidade de encontrar uma solução negociada. Todos eles são tachados como (neo) anti-semitas.

Entidades judaicas, que durante muitos anos combateram o anti-semitismo e lutaram pelos direitos humanos sucumbiram ao fantasma do mundo versus os judeus. Defendendo com todas as suas forças o governo israelense, abriram fogo contra todos os que delas discordam, rotulando-os como anti-semitas. A falta de argumentos sensatos não lhes deixa outra possibilidade. Como defender o assassinato de crianças? Como defender a colonização do território onde irá surgir o Estado Palestino? Como justificar a destruição de casas e destruição de plantações de oliveiras? Como explicar a segregação de uma população? Muito simples: nossos acusadores são todos anti-semitas, e por isso não é preciso explicar mais nada.

Israel e o povo judeu são muito maiores que a pessoa de Ariel Sharon. Fomos capazes de atravessar períodos terríveis em nossa história com nossa capacidade em sobrepujar as adversidades e buscar nos ensinamentos de nossos profetas, forças para encontrar uma saída. Desta vez não será diferente. Ariel Sharon está com seus dias contados como primeiro ministro. Nunca um ministro acusado de cometer algum crime permaneceu no posto. Chegou a hora de começar a pensar no próximo líder, e ao mesmo tempo repensar nossas atitudes com relação aos próximos e aos nossos.

Quanto mais cedo chegarmos a um entendimento com o povo palestino, mais cedo vamos poder tratar de nossas feridas e saldar nossa dívida. A paz não é apenas uma solução para o conflito com eles, é também uma solução para nossos próprios conflitos internos. Chega de tampar o céu com uma peneira. Temos muito mais amigos do que imaginamos, e muito mais pessoas dispostas a nos ajudar a superar estes tempos difíceis do que somos capazes de enxergar.

A eles meus agradecimentos por saberem apontar nossos erros. Por saberem diferenciar o certo do errado. Pelo fato de acreditarem em nós e apoiarem dois Estados, um judeu e outro palestino, vivendo em paz e segurança lado a lado. Amigos são para estas coisas.

Assim sendo vamos estar acabando com os neo-anti-semitas e vamos continuar combatendo os verdadeiros anti-semitas. Aqueles que não suportam nossa existência como seres humanos, e que desta forma vão ficar órfãos da companhia tentaram criar para eles.

Nunca é tarde para reconhecer quando erramos. Já fizemos isso em outros momentos de nossa história e tivemos um Rei, Salomão, que deixou um legado de sabedoria nesta área. Ainda é tempo de recuperarmos nosso papel na história e continuar fazendo amigos.

Ainda assim vão restar anti-semitas no mundo, mas como eu disse no inicio deste artigo, eles são tão velhos quanto nós e vão continuar por aí por que o povo judeu segue existindo e repetindo uma antiga prece: Am Israel Hi (o povo judeu vive).

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