05/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

O invisível mudou o mundo

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O Deus invisível foi uma revolução no mundo, que originou o Povo Judeu, e o monoteísmo ético. Já na Grécia Homero é um poeta cego, pois a poesia é auditiva, é a música das palavras. O poeta Rainer Maria Rilke escreveu sobre a dependência humana do visível, mas reconheceu no invisível um grau mais elevado da realidade. O invisível reinou na infância no bairro Bom Fim, o Todo-poderoso estava presente nas casas e sinagogas. Convivi com as histórias bíblicas e aprendi a mensagem dos Profetas na adolescência e passei a integrar o sonho por justiça social. Daí atravessei pontes para saber quem era, quase me encontrei, em metamorfoses surpreendentes.
Dos amores de uma vida à guerra contra o vírus invisível que aqui encontrou aliados. Há um ano as crianças não convivem com seus pares, e o mesmo acontece com os adolescentes e nós todos. Essa brusca mudança na socialização, a falta de convivência, os amigos, as parcerias, tudo isso está fazendo falta. Muitos são os que buscam a realidade virtual, as conversas pelo celular ocorrem como forma de escutar e ver o outro. Assim podem rir, divertir, construir conexões com seus pares. Os que não conseguem estão tristes, angustiados precisam de ajuda e apoio.
Há um esforço de adaptação aos novos tempos, como ocorre na Psicanálise. Ela vai se reinventando com uma flexibilidade surpreendente. O enquadre repleto de rituais precisou passar para os celulares, a realidade virtual, desenvolvendo uma clínica interessante. O invisível foi um progresso na espiritualidade, como sustentou Freud em seu “Moisés” ao final de sua vida. Além do que, a realidade psíquica e as formações do inconsciente são invisíveis, mas geram efeitos, pois são a essência da personalidade. O ontem está presente no hoje e no amanhã, o inconsciente é atemporal no tempo e no espaço. As palavras são essenciais e substituem a visibilidade dos objetos na comunicação. As palavras escritas que vão e voltam nos comentários, estamos sem nos ver e sem conversar, mas nossos laços se fortalecem.
O cotidiano agora é de outro invisível, que não vem da fé, da música ou da psicanálise, é o vírus. O vírus tem entre 50nm a 200nm, e a sigla nm é o nanômetro, uma unidade de medida em que em um centímetro poderia haver dez milhões de nanômetros. O mundo sabe que o combate à pandemia depende do distanciamento, do uso da máscara e de vacinas.
Os escritores captam a complexidade do ser humano antes que as ciências. Assim, imaginam, criam histórias, como o escritor italiano Italo Calvino no seu livro, “As cidades invisíveis”. Marco Polo narra para Kublai Khan sobre as cidades do seu imenso império mongol. A última cidade invisível do livro é sobre a cidade Berenice, que ora é justa, ora injusta, gerando o ceticismo do velho Khan. Entretanto, Polo mantém a esperança e conclui o livro assim: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”. Aqui, na invisibilidade da rede social, geramos espaços de não inferno, com nossa imaginação.

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