03/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Nunca se esqueça

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Uma luz pareceu brotar da penumbra, no fundo do quarto. Reconheci o meu irmão. Eu estava na parte clara da casa, uma pequena sala. Ele estampava um olhar radiante e sorria para mim. De repente, vi que a luz saia do seu rosto, que estava lindo, corado e tão bem delineado que parecia uma imagem saída de uma pintura. Pensei que ele veio para me redimir, aplacar minha culpa, porque não havia nenhum sinal, nenhuma cicatriz, na sua face, marca daquele passado triste e miserável.
Mas logo ele alcançou a parte clara da casa e o rosto foi se transformando e revelando o profundo talho, que começava rente ao olho direito e escorria torto até o queixo ; lembrança da madrugada terrível, que eu nunca poderia esquecer.
Acordei assustada! Não havia ninguém no quarto. Por uns minutos chamei por ele , mas a casa estava silenciosa e vazia. Eu sabia, a cena era sempre a mesma. O sonho se desfaz e trás de volta o filme de uma infância distante que me atormenta e que me acompanha sempre, todos os dias da minha vida! Rápido, liguei para a casa dele! Como sempre fazia “Fique tranquila” , ele me disse “fique sempre com Deus! está tudo bem e assim vai continuar. Está tudo bem!” “E nunca se esqueça, minha irmãzinha, eu gosto muito de você!”
Da janela do carro eu ouvia o burburinho alegre daquela cidade clara e encantadora, distante em tudo da pequena Maribela da minha infância . O sol iluminava as flores dos jardins, era um bonito dia do início da primavera a caminho do hospital eu pensava a minha agenda, as consultas, uma pequena cirurgia, um pouco da rotina de sempre. “Vai ser um dia bom”, pensei, mirando sonolenta, a claridade daquela linda manhã.
Eu gostava de cuidar das pessoas, da saúde e da alma, como minha mãe sempre me desejou, e eram muitas, e eram pobres e quase sempre preferiam falar seus medos e suas esperanças, pelos língua eloquente dos olhos. Dentro do carro parado, me dei conta dos quinze minutos de cochilo que o relógio me doava.
Fechei os olhos e projetei as horas doces do fim da tarde e por fim a noite tranquila e até divertida, ao lado do meu homem, “aquele que cicatriza minhas feridas e me faz gostar da vida e do prazer de amar”, eu me repeti, gostosamente ! E me regozijava, imaginando a gente se abraçando, passeando pelas ruas, olhando as vitrines e as pessoas e, por fim, indo para a minha casa, que era onde curtíamos as nossas mais ternas cumplicidades.
“Maribela nunca mais”, eu pensei, quase gritando, abafando as imagens do terror com aquelas confortáveis lembranças de agora. Mas o filme de imagens tristes e de miséria, continua vivo na minha mente e me machuca forte, uma ferida de porta escancarada.
 MARIBELA, INFÂNCIA
Era uma casa de chão batido, e o teto era de sapé, Minha irmã, com nove anos, eu com oito e o irmão, que tinha completado seis , éramos as únicas pessoas dentro do casebre, fazia três semanas! Foram dias de muita fome e desolação. Chegamos a passar dois dias inteiros sem comer.
No terceiro dia apelamos para o vizinho.
Era um homem que nos assustava, rude, calado, bravo. Ganhamos, cada um, uma caneca de café com um pedaço de pão. A Generosidade veio com uma cobrança; tínhamos que preparar as paredes da sua latrina, com bambu cortado do fundo do terreno, que era para a que ele pudesse usar sua fossa onde fazia as necessidades, – defecava e urinava, escondido do olhar do mundo.
Meu irmão, nos seus seis curtos anos, já tinha feito aquele serviço algumas vezes. A primeira , ele sempre lembrava, mas não por palavras, era porque a lágrima sempre vinha e a raiva fazia ele cerrar os punhos. Nossa vó. mãe da mãe, obrigou que ele cortasse os bambus e construísse a latrina, a privada, e como não gostou do serviço , exigiu que ele derrubasse tudo e fizesse uma nova. Suas mãos sangravam  e ela, brava com o choro, aplicou-lhe uma surra. Depois, pediu que ele lavasse as mãos, colocou uma folha arrancada do mato que ela dizia que era para fechar as feridas e enrolou cada uma das suas mãos em panos sujos, que disse que era para estancar o sangue.
Rápido, os outros vizinhos se deram conta de que podiam usar nossas habilidades para também construírem as paredes das suas privadas. Assim, por muitos dias conseguimos garantir nosso café acompanhado do pão, para aplacar a fome, que doía fundo Era o único recurso que os moradores tinham na época, para terem uma privada, uma fossa e mais as paredes de bambu; e para nós, passou a ser a garantia daquela ração da manhã, café e pão, saudada pelos nossos raquíticos corpos.
 A gente pensava na mãe, com muita saudade, chorava de lembrar dela “Ela foi atrás do macho”, dizia o vizinho bravo , explicando que esse macho era oque ela chamava de namorado e que até andou passeando com ela pelas ruas da nossa vila. Um dia até nos levou junto.
“A mãe disse que foi procurar ajuda, comida e emprego em uma cidade grande”, Minha irmâ ficou brava com os comentários do velho . Ela se percebia como a nova dona da casa, meio mãe meio irmã “Lá ela tem muito amigo de verdade”, ela disse, “e até gente da nossa família”. olhando para o homem, severa e zangada, cuidando da imagem da mãe de quem ela gostava muito E todo dia a gente sonhava com ela, a nossa mãe que tinha ido embora, e sonhava que ela ia aparecer com sacolas cheias de comida e até, quem sabe , doces e balas, e que ia nos abraçar muito e que ia por a gente eu seu colo, passar a mão em nossos cabelos, alisar carinhosamente nossos rostos, como às vezes lembrava de fazer; eram momentos em que a gente esquecia a vida miserável e se deixava embalar por esses afagos, que nos faziam sonhar e dormir.
A mãe garantiu que voltava logo, mas os dias passavam, formavam semanas e a gente continuava sozinho. Todo fim de tarde meu irmão ficava na frente do casebre, mirando o por do sol quase com febre de imaginar que ela ia apontar lá longe.
Para cortar e recolher os bambus , nós tínhamos que atravessar um pequeno córrego que passava no fundo das casas . Era um mutirão de trabalho árduo. Meu irmão, que mal se avistava, corpo franzino no meio do bambuzal , cortava um a um, e passava para a minha irmã, que ficava com o corpo no meio do córrego, com a roupa molhada e com os pés mergulhados na lama Depois ela passava pra mim,: “Segura logo” ela falava sofrido, meio que chorando do desconforto da roupa molhada e dos pés mergulhados na lama.  Eu catava os bambus cortados e começava a raspar e a preparar, depois ia juntando em feixes .No final do serviço, a fome voltava a bater forte e o estômago reclamava barulhento. Restava dormir logo e sonhar com a manhã do outro dia! Ah! O dia começava sempre, e já fazia muitos dias, com a caneca de café e com um pedaço de pão! As canecas eram todas iguais, de latão, amassadas, velhas e sem asas , feitas pelos homens das casas da vila, que sempre tinham uma pequena oficina no fundo daqueles casebres.
Dois dias de muita chuva, em que não aparecia ninguém para pedir o nosso serviço. Voltamos ao estado da fome que só não foi completo porque a vó resolveu praticar uma bondade –foi isso que ela disse- e nos deu a ração da manhã, de todos os dias, que também servia de almoço e janta, a caneca de café e o pão.
Preocupados porque ninguém batia em nossa porta, saímos para buscar trabalho e comida, e demos conta de que ninguém precisava mais da gente. Todas as casas da vila já tinham suas fossas com as paredes de bambu. Passamos a pedir outros serviços: limpar a casa , cortar o mato, carregar tijolo.
As pessoas começaram a olhar feio. De repente, pedimos que nos dessem alguma comida. Elas se irritaram e passaram a nos xingar e até ameaçar bater, empulhando vassouras. Foi então que voltamos pra casa chorando, de fome, de raiva e de muita tristeza! “Cadê a mãe?” Perguntou o irmão, meu irmãozinho de seis anos, com um olhar molhado. “Eu quero a mãe” ele dizia chorando e apertando o próprio rosto. “Ela abandonou a gente” disse a minha irmã, com ar de muita raiva e sem olhar para ele De repente, ele pareceu indiferente e resignado. Deitou-se no colchão de palha estendido no chão, espaço que a gente dividia para dormir, folear revistas velhas e até para comer , quando havia o que. Ele fechou os olhos, encostou a barriga na parede e pareceu dormir. Nós duas também deitamos
A noite passava e eu, de olhos fechados, não consegui dormir! Percebi que um dos dois se movimentava forte: Com um dos olhos meio aberto, notei que o irmão se apoiava na parede e tentava se levantar, com muito cuidado, para que a gente não acordasse.
Seu corpinho era assustadoramente magro e, por uns poucos segundos, eu fiquei como muita pena, pensando o duro trabalho que tantas vezes ele fazia em seu seis anos de vida. A pena foi trocada pela curiosidade e a fome me bateu forte: vi que ele se levantou e caminhou, com muito cuidado, na direção do armário velho, o único que tinha na casa para guardar comida.
Puxou uma cadeira, subiu em seu assento e tratou de alcançar uma lata posta sobre o armário, que minha mãe usava para guardar farinha.  Lembrei do medo que ele tinha de apanhar da minha irmã e também de mim, por nos desobedecer. E mais uma vez, o sentimento de pena foi esquecido. Escondida e silenciosa vi ele abrir a lata e retirar de lá, dois pedaços de pão, duros e envelhecidos.
 Avancei sobre a cadeira e fiz ele descer, muito assustado. Retirei um pão de dentro da boca dele e outro da mão. A fome fez ele esquecer o medo; reagiu, tentando tomar de volta! Surpresa com a reação, eu cravei minha unha no rosto dele, muito forte e fiz minha mão descer sobre seu rosto. O sangue correu forte sobre o rosto e depois alcançou o pescoço Minha irmã apareceu na nossa frente e, vendo o sangue começou a chorar, desesperada!
Dois pedações de pão, resto, única coisa que minha mãe tinha deixado e uma profunda cicatriz no rosto daquele menininho, meu irmão de seis anos! Madrugada para não esquecer . E se quisesse, não ia dar, que a porta do coração ficou aberta . escancarada, impossível de ser fechada. E doía, sempre. Era a minha cicatriz: a culpa que se misturava com as dores daqueles anos, tristes memorias da nossa infância, em Maribella!
Acordo assustada, os braços espalhados sobre o banco do carro. Ao meu lado, encostado à porta do veículo, o vigia do estacionamento, meio sorridente, meio sem jeito de ter me acordado: “Doutora, a senhora me desculpe, ouvi seu grito e percebi que estava dormindo, acho que teve um pesadelo! Abri a porta, agradeci e caminhei para a recepção do Hospital
Pronto, eu estava de volta para a parte confortável da minha vida O celular tocou, era o meu irmão, que morava com sua esposa a bons quilômetros da minha cidade
 “ Um sentimento forte, que bateu agora, me fez te ligar!”, ele disse.
 E repetiu a sua santa terapia de sempre, que me recompunha por algumas boas horas “Fique tranquila” , fique sempre com Deus” “está tudo bem e assim vai continuar. Está tudo bem! “E nunca se esqueça, que eu gosto muito de você!”

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