16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Nós somos a peste

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Existe uma coisa mais perigosa que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem? (Yuval Harari)

Quando se fala em Primo Levi, a primeira associação que se faz é com o sobrevivente de Auschwitz, que se tornou cronista do campo de extermínio e das sequelas da guerra. Foi com surpresa que encontrei, num sebo de New York, o livro Dialogo. Trata-se da reprodução de uma série de encontros entre Primo e o físico italiano Tullio Regge, renomado especialista em mecânica quântica. Os dois conversam sobre o fascínio pela ciência, a sede interminável de descobrir a origem de tudo, o prazer estético da experimentação, o interesse comum pelo hebraico antigo (!), a literatura de ficção científica.

Como penetra naquele diálogo, tive especial interesse na parte da ficção científica. Criado a bordo da nave de Flash Gordon rumo ao planeta Mongo – que mais parecia um buscapé –, viciado nos filmes B que desembarcavam nos poeiras da Tijuca e pós-graduado no curso 2001: uma odisseia no espaço, li as especulações de Primo e Tullio sobre uma viagem a Proxima Centauri, estrela mais próxima da Terra depois do Sol.

Antes de mais nada, convém perguntar: para quê serve este tipo de especulação? Mesmo que o homem não complete o serviço antes, a Terra tem seus dias contados. Pelo nível de conhecimento atual, calcula-se que, em cerca de 3 a 4 bilhões de anos, o Sol sofrerá transformações radicais, que elevarão drasticamente sua temperatura e resultarão na evaporação completa de toda a água da Terra. A vida como a conhecemos será extinta, a esfera azulada ganhará tonalidade mortiça. Ninguém mais terá o privilégio de ouvir Bach ou ler Drummond. A solução para a humanidade seria colonizar corpos celestes, usando matérias-primas e fontes de energia presentes neles.

Tullio descreve, com razão científica e excitação colegial, o passeio até Proxima Centauri. Quarenta trilhões de quilômetros de estrada, equivalentes a quase 267 mil viagens ao Sol. Seria necessária uma nave descomunal, impulsionada pela energia de bombas de hidrogênio (daqui a uns trezentos anos, supõe o físico, controlaremos as explosões e a expansão da energia que daí resulta). Duzentas delas permitiriam que se alcançasse um por cento da velocidade da luz. Em modestos quatro séculos, a viagem estaria concluída. Os problemas deste tipo de deslocamento são monumentais e, hoje, insolúveis.

Em 1902, Georges Meliès imaginou a viagem à Lua através de um supercanhão. Era o possível na época. Menos de sete décadas depois, o primeiro homem pisava na Lua, usando uma tecnologia inimaginável para Meliès. Assim, o que hoje parece, no mínimo, improvável, pode se transformar em rotina pela ciência. Não há prazo de validade para a imaginação e as fronteiras do conhecimento são permanentemente fluidas.

O que aconteceria no Cosmos se o homem se espalhasse em poeiras de estrelas? Não duvido que, em pouco tempo, se organizasse a máfia dos anéis de Saturno. Lá, pelo que se sabe, há cerca de um milésimo de toda a água dos oceanos terrestres. Para ter acesso, as quadrilhas cobrariam pedágio. Em pouco tempo, multidões de sem-água vagariam desesperadas pelos desertos gelados de Júpiter.

Com a experiência acumulada pelos humanos na aniquilação de espécies, iniciada no século dezessete com os dodôs das ilhas Maurício, estariam ameaçados de extinção os incas venusianos e, se não tomassem cuidado, os rockymarcianos.

Todo tipo de preconceito se espalharia pela galáxia. A atleta Chú Santos, atacante do Palmeiras e da seleção brasileira de futebol, teria sua foto gravada nas aeronaves da ponte aérea Terra-Lua. Ela disse que, morto pelo coronavírus, o ator Paulo Gustavo iria “para o inferno”. A homofobia conheceria dias gloriosos.

Agora, falando sério, meus caros Primo e Tullio, não seria melhor apenas esperar os próximos 3 bilhões de anos e depois acompanhar a piedosa extinção de uma espécie que faz de tudo para não merecer o planeta belo em que vaga com apetite predatório?

Abraço. E coragem.

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