14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

No volveremos a la normalidad porque la normalidad era el problema (pichação num muro em Madri)

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Empilhou três pequenas almofadas. Não foi suficiente. Vou precisar de mais uma, disse meu neto mais novo, quero ver um pouco da cidade. Concluída a escada macia, subiu à janela e acrescentou: Também quero ver aquela pista. Com os olhinhos pouco acima do parapeito, o que procurava ? O sonho de liberdade, que bateu asas e voou ? A teia da aranha bunduda no poste de luz, que tantas vezes nos fascinou na volta da escola, arquitetura da natureza que chora ? O cãozinho, ele morde ?, que nunca lhe recusou o afago ? O salto mortal na escadinha do prédio, folguedo diário que excitava a bravura ? Um detetive do prédio azul, com máscara, envolvido em mistérios transcendentes ?

Como meu neto, ando procurando janelas. No início da clausura, descobri, encantado, pedaços da natureza que me rodeavam, sem que eu me desse conta. Pássaros in concert, o ciclo vital das árvores. Passei a olhar a rua, a mímica dos porteiros, os espectros nas janelas dos prédios. A ouvir músicas, veneno antimonotonia, de gente que gritava contra a solidão. Hoje, é o som de loucos que invade a madrugada. Berram insultos em direção a ninguém, ameaçam, desesperam, de repente desaparecem. O número de moradores de rua aumentou durante a pandemia. Pessoas que perderam a pouca renda que tinham e se amontoam nas filas da caridade para ganhar um prato de comida. Por razões variadas, estima-se que uma das sequelas do isolamento forçado e da queda brutal na qualidade de vida será um surto de doenças mentais. Os gritos na madrugada são o trailer deste filme.

Ainda me adaptando, sob protesto, à televida, vou abrindo pequenas frestas. Indeciso se em janelas Twilight zone ou grife Roger Corman. O fato é que o outro lado está cada vez mais parecido com aqueles filmes, que aterrorizavam o Menino, onde as imagens do espelho ganhavam vida própria. E não adiantava gritar, o efeito não passava.

Que imagens são essas ? Entregadores de aplicativos, que salvam o escalpo da tribo todos os dias, fizeram uma greve. Marqueteiros cínicos os chamam de empreendedores. São autônomos sem autonomia, ganham salário de fome, trabalham até 12 horas por dia, sete dias por semana. Sem direitos trabalhistas. Mal disfarçada escravidão. Quer mais ? A ONU prevê que a pandemia jogará cerca de 420 milhões de pessoas de volta à extrema pobreza no mundo. Destas, 265 milhões, quase um Brasil e meio, viverão em estado de fome crônica. O desastre será particularmente severo na África e na América Latina. No Brasil, governado por um maníaco, pela primeira vez mais de metade de quem tem idade para trabalhar está parado.

O que falar dos lutos ? Vivendo em estado de aflição crônica pela falta de clareza do futuro imediato, mal temos tempo de nos despedir dos afetos que se encerram. Talvez tenhamos que improvisar um Kuarup, a sábia cerimônia de despedida dos mortos que acontece uma vez por ano no Xingu. Os povos locais cortam toras de madeira (kuarups), pintam-nas e enfeitam-nas, atribuindo a elas a materialidade provisória dos mortos. Com cerimônias que incluem cantos e danças, despedem-se dos mortos. As toras são levadas embora, e, sem elas, a dor se dilui. Os mortos passam a habitar a memória e se incorporam ao leito perpétuo da ancestralidade.

Espera aí, acabo de ver dois pequenos lampejos no espelho. O primeiro vem da Etiópia. Uma organização local encontrou uma forma criativa de garantir acesso à leitura para que as crianças, habitantes de áreas isoladas, continuem a estudar durante a pandemia. Vinte dromedários carregam caixas de madeira com livros, uma biblioteca móvel que permite acesso a 4 mil volumes. O outro está aqui do lado. Na Bahia, a enfermeira Monaliza Oliveira usa um jegue para distribuir kits de proteção (máscaras, álcool em gel) durante a pandemia. Só assim ela consegue chegar nos grotões do município de Boa Vista do Tupim. Pequenas esperanças na espécie humana, predadora, insensível, mas às vezes, poucas é verdade, capaz de gestos belos.

Assim que possível, vou querer ver um pouco da cidade ao lado do meu neto. Quem sabe ele me ensina a enxergar o que já não consigo ver ?

Abraço. E coragem.

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