14/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

No país dos Silva

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Ganamos, perdimos/igual nos divertimos (canto de meninos uruguaios, depois de uma pelada; recolhido por Eduardo Galeano)

Era o tipo do jogador elegante. Peito erguido, olhos na horizontal, visão ampla do campo, leve no toque e na percepção das jogadas. Silva, que apelidaram Batuta, era o atacante com finesse. Uma espécie de Didi com faro de artilheiro. A começar pelo nome – éramos conhecidos como o país dos silvas -, tinha a cara de uma época do futebol brasileiro, aberto ao drible, à molecagem cômica, à paixão pela camisa. Quando existiam treinadores, fronteiras do folclore, e não técnicos, que maltratam a poesia e a brincadeira em benefício da burocracia. Silva morreu semana passada, aos 80 anos.

Tive o privilégio de vê-lo em ação, em momentos emocionais antagônicos. Meados dos anos 60, o Flamengo saía da fila depois do tricampeonato 1953/55. Não era um time de craques, o campeonato carioca era bastante equilibrado. Patrocinado pelo bicheiro Castor de Andrade, o Bangu montou um esquadrão potente. Os mais rodados lembrarão do ponta Paulo Borges, do goleiro Ubirajara (baixinho, mas com enorme elasticidade), dos meio-campistas Jaime e Ocimar. Tinha sido vice-campeão em 1965, ultrapassado pelo Flamengo nas rodadas finais. Vi o último jogo do Fla, contra o Botafogo, para entrega das faixas, com Silva em campo. Euforia e festa no velho Maraca.

Em 1966, Bangu e Flamengo se enfrentavam na rodada final, com os banguenses tendo a vantagem do empate. No dia do jogo, Henfil, rubro-negro siderúrgico, fez uma charge genial. As duas torcidas apareciam entrando na rampa de acesso às arquibancadas. Do lado proletário (assim se costumava chamar os banguenses, originários de um bairro que tinha uma grande fábrica de tecidos), uma faixa: Desta vez vamos ! Do lado oposto, a faixa rubro-negra: Vão nada ! Tempos em que as torcidas podiam entrar juntas no estádio, sem ameaçar as vísceras adversárias.

A expectativa era enorme e o Menino estava lá. Sozinho, mas não solitário, fundido na multidão multicolorida. O jogo começa equilibrado. Silva quase marca, dando um alento à massa torcedora. Mas não era o dia. O Bangu controlou as ações e se aproveitou da fragilidade do goleiro flamenguista Valdomiro (um dos piores da história rubro-negra). E foi enfileirando gols. Um, dois, três. Abriu-se no horizonte a perspectiva de uma derrota humilhante. Almir Pernambuquinho, atacante do Flamengo, enfezado, bom de bola e criador de casos, cumpriu a promessa de que não deixaria o Bangu dar a volta olímpica de campeão. Armou um sururu federal, que envolveu praticamente todos os jogadores em tesouras voadoras, diretos no fígado, cotoveladas nos países baixos. Expulsões a rodo, o jogo estava terminado. Os protegidos de Castor levaram o caneco.

Durante o grande barraco no gramado, houve um momento tenso. Parte da torcida flamenga se levantou em bloco na arquibancada e começou uma correria de manada. Se continuasse, haveria uma tragédia de pisoteados. O Menino arregalou os olhos e, como se adiantasse alguma coisa, agitou os braços e gritou: Para ! Para ! Por breves momentos acreditou em magia. A massa aquietou, no que … pernas para que te quero. O Menino fugiu do Maraca, despedindo-se, melancolicamente, do Silva. Os próximos encontros já seriam na era Zico. Mas isso já é outra história.

Termos como keeper, off-side, corner, guarda-valas, beque, estão aposentados. Também foram arquivados os apelidos que sempre deram sabor ao futebol: de Ratinho a Peixe-Galo, de Shampoo a Carabina, de Ditão a Rompedor. Hoje, o desfile é de estranhíssimos Rhuan, Ytalo, Maicon e registros civis completos. Com a hiperprofissionalização, definha o riquíssimo folclore que gerou os Neném Prancha, João Saldanha e Gentil Cardoso. Quem é que se anima a contar causos sobre os carrões, os penteados e as pegações das celebridades que chutam bola ?

Abraço. E coragem.

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