16/06/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Mortes

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Da primeira vez que me assassinaram/Perdi um jeito de sorrir que eu tinha./Depois, de cada vez que me mataram,/Foram levando qualquer coisa minha … (Mario Quintana)

“A polícia entrou, pegou ele e rodou com ele no morro. Ele foi estraçalhado a facadas, com faca na cara. Se é operação, eles tinham que levar ele preso. Ninguém merecia isso”. “Quando meu filho foi se entregar, eles mataram ele no Beco do Caboclo. Isso não foi operação, foi assassinato. Operação não é assim. Podiam ter levado preso”. “Ele saiu para comprar pão. Os vizinhos viram ele no beco com um tiro na perna e gritando ‘ai, ai’, quando os policiais chegaram perto e atiraram nele outra vez”. Depoimentos de familiares de chacinados na comunidade do Jacarezinho por policiais civis do Rio de Janeiro. Quando invade áreas pobres, a polícia costuma ter dedos nervosos nos gatilhos. A vida miserável é barata para os agentes armados do Estado.

O vice-presidente da República, antes mesmo de saber os nomes dos mortos, chamou-os todos de “bandidos”. Não se trata apenas de fé cega numa polícia habituada a atirar primeiro para depois perguntar. Estão aí fartos antecedentes: Acari, Vigário Geral, morro da Fallet, Vila Operária em Duque de Caxias, Complexo do Alemão, morro dos Macacos. Trata-se da institucionalização da pena de morte para certas camadas da população. Sabemos que as forças policiais tratam com bastante cerimônia e têm paciência de monge com, por exemplo, os bacanas da zona sul da cidade. É com esses que o general Mourão se identifica.

De acordo com o censo de 2010, o Rio tem 790 favelas, onde moram cerca de 1,5 milhão de pessoas. São bairros superpovoados, com infraestrutura precária, alto desemprego e baixa qualidade de vida. Lá, por absoluta ausência do Estado, existe forte presença do tráfico de drogas e dos milicianos. Suspeita-se que a ação no Jacarezinho, que contou com apoio do governador bolsonarista, serviu para expulsar os traficantes e abrir caminho para o domínio da milícia. Estratégia muito bem desenhada na segunda parte do filme Tropa de elite, quando o BOPE acaba facilitando, involuntariamente, a entrada dos milicianos no bairro fictício do Tanque. Não há novidades no front da criminalidade.

O contínuo empilhamento de cadáveres anestesia o público. Especialmente quando os mortos habitam as periferias. A repetição destas tragédias, distantes do centro privilegiado da população, acaba evoluindo para meras estatísticas. Arquivo morto. Um pouco na linha do “é triste, é lamentável, mas aconteceu longe de mim, vou deletar”. Parafraseando Cazuza: Solidariedade? Não quero uma pra viver!

Vi a Morte de perto poucas vezes. Concordo com Valter Hugo Mãe, escritor que me tem fascinado: “Morrer-nos alguém são mil anos de leituras. Carregamos nossos mortos importantes como uma biblioteca de ciências cultas, uma infinidade de sabedorias que só se aprendem assim”. Completo, se me permite o gajo, dizendo que, com os mortos importantes, vão-se expectativas e interrompem-se afetos insubstituíveis. Guardo, da manhã em que o Grande se foi, uma imagem semelhante à do quadro A morte de Marat, de Jacques-Louis David. O revolucionário francês aparece numa banheira, mesmo lugar em que o coração do Grande implodiu. Ali, naquele momento, guilhotinaram minha adolescência. A dor é impossível de retratar.

Quando um policial asfixiou até a morte o negro George Floyd, em Minneapolis, os Estados Unidos estremeceram. Ondas de protesto varreram o país, anabolizou-se o movimento Black lives matter, influenciou-se uma eleição presidencial. Aqui, a polícia abate 28 pessoas, pobres, a maioria negros, e os ruídos de protesto tendem a minguar em pouco tempo. Como acontece com as crianças vítimas de balas perdidas. O tráfico de drogas e as milícias seguirão suas guerras por território, dominando populações carentes. A polícia não mudará seu papel de guardiã da tranquilidade das classes dominantes.

Estamos, como sociedade, acometidos de moléstia grave, e não há qualquer possibilidade de sair da encrenca com soluções personalistas – chega de ídolos messiânicos! – e projetos salvacionistas de curto prazo. Será uma luta de gerações.

Abraço. E coragem.

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