15/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

A Morte Está Vencendo

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O número de túmulos não para de crescer em Israel e nos territórios ocupados. Ontem foram 5 palestinos mortos, entre eles um jovem de 15 anos. Hoje, mais um homem bomba tirou a vida de 11 israelenses, a maioria de jovens a caminho da escola.

Ficar repetindo o repúdio a tais atos e a repulsa que causam, é ser redundante. Culpar uma vez mais Sharon e Arafat por estes crimes, é repetir o óbvio. Dizer que os assassinos estão contribuindo para aumentar o fosso de desilusão entre os dois povos é como escancarar uma porta.

A Morte reina sem concorrência na Terra Santa. Fez deste território sua residência fixa. Não sei qual é sua cota diária de almas, mas acredito que tem tido um sucesso estrondoso ultrapassando todas as expectativas. Nem ela, poderia acreditar que teria tão pouco trabalho. Não precisa lançar desastres naturais, ou semear doenças. Basta despertar e recolher as almas, sem esforço algum.

Neste momento ela, a Morte, tem um dos trabalhos mais fáceis e generosos do mundo. Tem a seu favor companheiros que lhe servem cegamente. Um deles é o Ódio. Este tem sido ovacionado pelas ruas de todas as cidades da região. Ainda hoje, em Jerusalém, numa manifestação espontânea de transeuntes próximos do atentado ao ônibus, pode-se escutar “morte aos árabes”. E nas cidades palestinas sua força se faz presente quando escutamos “morte aos judeus”.

Outra companheira da Morte que tem atuado com uma precisão suíça, é a Vingança. Acho que a Morte lhe deve muitos favores, pois ela tem tido uma atuação invejável no dia a dia do conflito. Fica até mesmo difícil de se dizer qual foi seu último trabalho, mas fica fácil de se dizer qual será o próximo. Israel já comunicou que vai retalhar este ataque.

Em meio a tantos desempregados, tanta gente necessitando trabalhar na região, a Morte continua num emprego vitalício que vai semeando visões apocalípticas. Todas elas associadas ao sentimento de raiva (que desconfio seja mais uma de suas companheiras infiltradas no campo de batalha), que motiva e anima esta carnificina.

Quem será que atua primeiro? Seria a Raiva motivada pelo Ódio que leva a Vingança? Ou talvez, a Vingança atraída pelo Ódio é quem traria a Raiva? Há quem diga que é o Ódio, motivado pela Raiva que sai em busca da Vingança. De todas as formas, quem lucra com isso é sempre a Morte.

Mas é justamente nos momentos de dor e pesar que a Morte mais aparece. É verdade que com uma boa ajuda. Aqui ela semeia hoje o que ira colher amanhã. Ela sabe que o investimento é certo. O resultado serão novas almas.

Diante de um quadro dantesco como este, é preciso buscar forças do fundo do coração para continuar apelando para o entendimento. Cada vida perdida é irrecuperável. Cada alma entregue para a Morte, é um ser humano que se foi. Uma família enlutada.

Para poder se chagar a um entendimento mínimo é preciso vencer a Morte. Impossível? Verdade, ninguém é capaz de vencê-la. Mas somos capazes de enganá-la e de afastá-la por um tempo. Isso já seria um grande passo. Em meio a tanta tristeza é imprescindível se manter firme na defesa da paz e da reconciliação.
Temos de voltar a venerar a vida e a nossa capacidade, como seres humanos, de racionalizar esta barbárie transformando-a numa negação ao caminho sem volta que a Morte tenta nos impingir.

Israelenses e Palestinos são capazes disso, basta quererem.

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