05/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Lottenberg não me representa

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Existe algo de podre na Conib (Confederação Israelita Brasileira). Quando o seu presidente, no dia da lembrança dos mortos e heróis do holocausto, atende convite para jantar com Bolsonaro, o fedor é insuportável.

A mensagem que Claudio Lottenberg passou para a sociedade é diferente de seus pares. Enquanto cada um é mencionado como empresário dono deste, ou daquele negócio, Lottenberg foi relacionado por toda a mídia como presidente da Conib. Para bom entendedor, os judeus representados por ele, foram aclamar as presunções negacionistas do genocida com relação a pandemia e os futuros caminhos para o Brasil.

Como disse Napoleão Bonaparte, “Do sublime ao ridículo, é só um passo”. Lottenberg se achou digno de uma honra negada ao papagaio da Havan, mas para nós judeus ele foi mais um dos ridículos apoiadores de um presidente inepto que segue menosprezando a ciência e todos as recomendações da OMS para estancar a incrível média de mortes diárias no Brasil em consequência do Covid.

Os antissemitas de plantão já se alvoroçaram para apontar que os judeus não só elegeram Bolsonaro, como continuam dando a ele o apoio necessário para se manter no poder. Em suas ilações a prova de suas teorias conspiratórias fica estampada nas manchetes dos jornais com as palmas de Lottenberg ao seu anfitrião. A instituição nacional representativa dos judeus ovacionou Bolsonaro.

Somos muitos judeus contra Bolsonaro. Antes das eleições tentamos de todas as formas fazer tudo ao nosso alcance para impedir sua eleição. Com o grupo Judeus Contra Bolsonaro, estivemos presentes ao lado da sociedade que lutou contra aquele que vomitava ódio com suas mensagens racistas, homofóbicas e misóginas. Logo depois de consumada sua vitória, passamos a nos chamar Resistência Democrática Judaica e outros inúmeros grupos judaicos foram criados para resistirem ao nefasto. Não passa um dia sem que sigamos enviando nossas mensagens de repúdio a tudo que este governo fascista representa.

Os judeus não apoiaram Bolsonaro, o correto seria dizer que judeus apoiaram Bolsonaro, os Negros não apoiaram Bolsonaro, Negros apoiaram Bolsonaro, os LGBTs não apoiaram Bolsonaro, LGTBs apoiaram Bolsonaro, as Mulheres não apoiaram Bolsonaro, Mulheres apoiaram Bolsonaro.

O dia do jantar foi o mesmo dia em que nós judeus relembramos os mortos e os heróis do Holocausto. Em Israel, precisamente as 10:00 h da manhã, as sirenes que avisam ataques de mísseis tocam durante dois minutos. O país inteiro para literalmente. Nas ruas, nas casas, no comércio, nas estradas, nas rádios, nas TVs, todos permanecem de pé em silencio reverenciando este acontecimento marcante da nossa história. Nunca vamos esquecer.

Lottenberg tinha a seu dispor a desculpa pronta para não ir a este encontro. Optou por se fazer presente e junto com os demais, prestou seu apoio as sandices de um fascista. Sim, um judeu, presidente da Conib, menosprezou a memória de 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas, em troca de uma refeição grátis entre empresários que não ligam para os mais de 4000 brasileiros que morrem diariamente vítimas do desleixo do seu mito.

Eu como judeu, me sinto envergonhado e compelido a pedir desculpas para a sociedade brasileira pela presença do presidente da Conib neste famigerado jantar. Ele deixou de representar os judeus brasileiros quando adentrou naquela sala. Lottenberg esteve lá como líder da ala fascista da sociedade judaica, como representante de si mesmo e da falta de valores éticos e morais presentes naquele ambiente. Sua atitude não coaduna com o judaísmo, muito menos com nossa posição de resistência a tudo que este governo abjeto representa.

Imaginemos que estamos em 1939 e o país fosse a Alemanha. Fosse Lottenberg presidente da Conia (Confederação Israelita Alemã). O  Chefe de Estado tivesse chamado empresários e o presidente da Conia para um jantar. Pelo que dizem algumas lideranças judaicas ele deveria atender o convite, afinal os judeus não tinham acesso a ele.  O Chefe de Estado da Alemanha se chamava Adolf Hitler. Tem gente que nunca vai aprender com a história.

Que Lottenberg tenha a mínima decência de renunciar ao cargo de Presidente da Conib e pedir desculpas pela atitude ultrajante que cometeu.

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