18/04/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Liberdade em tempos de Covid

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Finalmente, depois de mais de um ano sob o Covid, vamos ter nossa primeira festa em família sendo comemorada aqui em Israel. Hoje começa o Pessach, a Páscoa Judaica. Como resultado da vacinação, as coisas começam a ter ares de normalidade por aqui, e poder sentar em família é uma delas.

O Pessach é uma festa especial, ela dura uma semana onde não se deve comer pão e nada que contenha fermento. Os mais religiosos chegam a ter jogos de louças, talheres e panelas especialmente para os dias da festa. Os menos religiosos como eu, compram pão para uma semana e guardam no freezer, já que poucas padarias permanecem abertas.

A festa em si é uma recordação da saída do Egito. Moisés depois de muita insistência e 10 pragas contra o Faraó, finalmente consegue com que ele liberte os judeus da escravidão. Na saída apressada, com receio dele voltar atrás, esqueceram de levar fermento e o pão virou uma espécie de bolacha, chamada de Matzá. Ela é consumida durante toda a semana. Na idade média, judeus eram acusados de utilizar o sangue de crianças cristãs para fazerem o Matzá, o que resultou em perseguições e mortes, mas isto é outra história.

Moisés leva o povo em direção a Israel e no caminho recebe de Deus as Tábuas da Lei, também conhecida como os 10 mandamentos. São as primeiras leis de comportamento ético que se tem notícia. Enquanto aguardavam por Moisés retornar de seu encontro com Deus, os judeus tiveram uma recaída e construíram um Bezerro de Ouro para adoração. Quando Moisés chega com as tábuas e percebe o que aconteceu, as quebra em um momento de ira e o povo se arrepende.

Deus não teria ficado nada contente com o que aconteceu. Resolveu que aquela geração contaminada com adorações a outros Deuses, não entraria na Terra Prometida e incluiu Moisés por ter quebrado as tábuas no mesmo castigo. Assim foi que o povo judeu teria permanecido por 40 anos no deserto até que sucumbisse o último dos escravos no Egito.

Voltando lá para o início da história, faltou contar que Moisés, nascido judeu, foi criado pela família do Faraó depois de encontrado por sua filha em um cesto no Rio Nilo ainda bebe de poucos dias. Criado como Egípcio, somente na juventude veio a saber de sua origem. Sua existência, assim como o que se passou com os judeus no Egito, ainda não tem comprovação científica. Não existe nenhum achado arqueológico que comprove esta história. Líder revolucionário, ou figura mítica, o fato é que os judeus comemoram o Pessach com muita comida a mesa, e os cristãos se empanturram de chocolate na Páscoa.

Mesmo que a nada disso tenha acontecido de fato, ficam as lições que são passadas de geração para geração a milhares de anos. Todo judeu deve se sentir como se tivesse sido libertado da escravidão no Egito. Uma lição de humildade e da importância da liberdade.

Retirando-se o aspecto religioso da comemoração, ficam presentes conceitos de grande importância para a humanidade. Os mandamentos das Tábuas da Lei, como não matarás, não cometerás adultério, não cobiçarás a mulher do próximo, nem seus pertences, tudo isto são normas de comportamento ético para tornar o mundo de então, um mundo melhor.

Não menos importante, a lição de que toda tirania chega ao fim. Nenhum déspota é eterno e devemos lutar por nossa liberdade e pela democracia. Todos nascemos livres e iguais, assim deve ser.

Durante a leitura da Hagadá de Pessach, que é o relato dos acontecimentos, são levantados 4 copos de vinho em brindes. Normalmente o primeiro é em memória aos caídos no Gueto de Varsóvia, uma vez que o Gueto sucumbiu diante dos Nazistas, durante o Pessach. Os demais, geralmente também lembram a memória dos que morreram em defesa do povo judeu e nas guerras de Israel.

Eu pessoalmente, mudo de tempos em tempos o último brinde. Neste ano o farei em memória das vítimas do Covid-19 em todo o mundo, e que toda a humanidade possa estar vacinada em breve.

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