21/01/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Lógica

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Certo dia um pacifista passeava pela beira mar em Israel quando encontrou uma lamparina. Ao esfregá-la surgiu um gênio. Para seu espanto o gênio disse a ele que poderia atender a um único pedido, apenas um. Saudoso da família o pacifista pediu que o gênio construísse uma ponte entre Israel e o Brasil a fim de que seus pais, que temiam viajar de avião, pudessem vir de carro visitá-lo. O gênio ponderou que isto era impossível, seriam necessários milhões de toneladas de cimento, ferro e areia; centenas de milhares de pilastras para sustentar tal ponte etc. Nem ele seria capaz de uma proeza como esta. Conformado o pacifista pediu então ao gênio que fizesse com que israelenses e palestinos vivessem em paz. O gênio pensou bem e perguntou a ele para qual cidade brasileira desejava que a ponte fosse construída.

Esta piada existe com várias versões. Todas têm em comum nos fazer acreditar que nunca será possível uma convivência pacífica entre os dois povos. Está lógica cruel não é verdadeira.

Existem todas as condições para que o conflito possa ser encerrado. Todos conhecem as premissas necessárias para isso. A criação do Estado Palestino em Gaza e nos territórios ocupados da Cisjordânia com a retirada dos colonos, o reconhecimento dos dois estados a viverem em paz e segurança, a divisão de Jerusalém como capital dos dois estados e o combate ao terrorismo, entre as mais importantes.

A lógica da guerra faz com que se coloque acima de qualquer dúvida, que todas as ações tomadas pelo lado contrário, são na realidade formas de implementar a supremacia de um deles sobre o outro. Para os palestinos, Israel pretende na realidade criar Cantões palestinos entre suas colônias inviabilizando a criação de um estado nacional. Prova disso são a permanência das colônias e a construção de um muro que se apropria de terras palestinas em favor das colônias israelenses. Para os israelenses está claro que os palestinos querem o fim do Estado de Israel e sua substituição por um Estado Palestino do Mediterrâneo até o Rio Jordão. Uma prova disso é o fato de não combaterem os grupos terroristas que pregam esta visão.

A lógica da paz diz que não existem formas mágicas de se acabar com um conflito desta magnitude, que envolve nacionalismo, religião e política. Segundo está forma de pensamento os dois povos podem se reconciliar se forem afastados os medos e os ódios do passado. O primeiro passo nesta direção é se acreditar na impossibilidade lógica da permanência do conflito pelo fato de que os dois estão condenados a conviverem no mesmo território, sendo impossível o desaparecimento de um deles.

Neste conflito em particular não bastam as assinaturas dos dirigentes num tratado de paz. Se não houver reconciliação, nunca haverá uma paz de verdade. E para que ocorra uma reconciliação é necessário se romper com a lógica da guerra. É preciso se pensar num futuro sem violência com prosperidade para ambos os povos. Os dois precisam aceitar a lógica da paz.

No momento em que os dois lados se preocupam em assegurar vantagens no campo de batalhas, quando um continua com os assassinatos seletivos, e o outro não consegue impedir que seus seguidores interrompam os atos de terror, nada pode ser feito. O sangue continuará sendo derramado enchendo o rio da revanche. Um círculo vicioso que prejudica a maioria das populações que já não suportam mais a perda de inocentes.

Enquanto este círculo não for quebrado, deixando-se de lado o passado e pensando somente no futuro, as cosias vão continuar como estão. As atuais lideranças não conseguem transmitir confiança e são incapazes de darem os passos na direção correta. A desconfiança é o pilar de sustentação do Mapa da Paz. Enquanto ele não for substituído por uma sustentação de verdadeiras boas intenções que fortaleçam a confiança entre os dois lados, não existem forças capazes de impedir a continuidade da carnificina.

Não muito distante dali o Campo da Paz perdeu um de seus maiores filhos, Sérgio Vieira de Mello. Um brasileiro que fez da busca pelo entendimento dos homens a razão de sua vida. Alguém que sempre acreditou no diálogo como única forma de superar as diferenças e se chegar a um acordo aceitável por todas as partes. Um homem que perdeu a vida pela força da intransigência e da insanidade covarde do terrorismo suicida.

Espero que a mesma determinação na busca incansável pela paz, continue norteando a todos nós que seguimos acreditando nela, como única forma de coexistir como seres humanos neste imenso planeta azul chamado Terra.

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