05/08/2021

A Voz da Esquerda Judaica

Mauro Nadvorny & Amigos

Lembrar para quê?

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A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti (John Donne)

Sir András Schiff dava uma masterclass na sala Pierre Boulez, em Berlim. O genial pianista comentava as Variações Goldberg, de Bach, que interpretaria em seguida. Com humor fino, perguntou à plateia (reproduzo de memória): Afinal de contas, quantas gravações novas destas Variações serão ainda possíveis? O que poderá haver de novo nelas? Notou-se um leve sorriso entre alguns presentes, já com cócegas no raciocínio. Sir Schiff não respondeu à sua provocação, mas vou expandi-la para outros departamentos.

Há 78 anos, começava o Levante do Gueto de Varsóvia. Todos os anos, esta insurreição armada, a primeira dos judeus contra os nazistas, é lembrada em círculos judaicos. Não foi a única, mas é a mais citada quando se quer falar sobre a resistência contra o genocídio promovido em escala industrial contra o povo judeu. Aqui entra uma dúvida à la Schiff. Faz sentido ficar repetindo os mesmos fatos, as mesmas estatísticas, os mesmos nomes e organizações? Não seria excessivo, enfadonho, meramente ritual?

A execução de uma peça para piano ou orquestra permite interpretações diferentes. Durante muitos anos, tive tatuada na memória musical a Abertura 1812, de Tchaikovsky, executada pela Orquestra de Philadelphia, com a regência de  Eugene Ormandy. Quando me mostraram a mesma obra tocada pela Filarmônica de Berlim sob Karajan, quase caí pra trás. Outro andamento, outras ênfases, quase outra obra. Assim como na música, a partitura da História permite muitos olhares.

O Levante, desencadeado na véspera do Pessach de 1943, me evoca uma das passagens da Agadá, a clássica narrativa da libertação do cativeiro egípcio. Nela, somos convidados a vivenciar a saída do Egito como se nós mesmos tivéssemos sido cativos. Mudam os tiranos, permanece o desejo de liberdade. Aprendizado em dó maior.

A resistência armada em Varsóvia só foi possível porque as várias correntes políticas representadas no gueto aceitaram unir-se. Comunistas, socialistas, bundistas, sionistas de esquerda, construíram a ZOB – Organização Combatente Judaica em 1942. A influência da esquerda foi decisiva em vários sentidos. Conheciam a prática da ação coletiva e não alimentavam ilusões sobre o caráter genocida do inimigo. Além disso, tinham militantes com alguma experiência armada. Elia Moses, que lutou nas Brigadas Internacionalistas na Espanha, foi instrutor militar dos insurretos. A estratégia de enfrentamento armado derrotou a visão burocrática da Judenrat, a administração judaica do gueto, que mediava contatos com os nazistas e acreditou, até o último instante, numa “salvação negociada”.

Unidade na luta: herança valiosa da revolta. Enfrentavam uma espécie de mal absoluto, que Marcelo Coelho definiu como “alegria no desamor, embriaguez de morticínio, preferência sistemática pela treva e pela estupidez”. Saberemos assimilar a sabedoria da unidade entre diferentes, quando temos pela frente um inimigo comum que, à sua maneira e no seu tempo, cultiva valores semelhantes aos do totalitarismo nazista? Os rebeldes de Varsóvia, e as gerações futuras, cobram uma resposta.

Emanuel Ringelblum criou um arquivo, o Oineg Shabes, que preservou documentos sobre o cotidiano do gueto de Varsóvia. Socialista, sua intenção não era legar apenas uma memória acadêmica, congelada. Ofereceu matéria para novas perguntas. Como faremos para evitar que a história se repita? Que meios usaremos para abortar novas aventuras totalitárias? Lembrar o Levante do Gueto de Varsóvia não é só prestar uma justa homenagem aos combatentes, mas avançar na construção de um mundo sem muros, sem exploradores, sem predadores da Natureza, sem tiranos.

Abraço. E coragem.

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